10 de julho de 2026

Relato inspirador para mestres desalentados


| Tempo de leitura: 4 min

Luiz Neto entrou na minha sala com DVD nas mãos, brilho no olhar e entusiasmo que se expressava em gestos amplos. Essa energia, perceptível de forma inequívoca, durou bem mais que os breves instantes gastos no oferecimento do presente e no comentário ao filme Escritores da Liberdade. Ela me contagiou.

Jornalistas se interessam muito por assuntos ligados à educação. Especialmente no Brasil, onde esta não tem alcançado o resultado esperado em decorrência de políticas equivocadas e ausência de interesse genuíno da parte dos que detêm poder. Mas se enganam os que pensam que é só aqui. O filme citado é uma perfeita amostra de que nos EUA, nação que apostou muito no ensino público até meados dos anos Reagan, o cenário é parecido com o nosso. A Turma 203 e a Sra G., protagonistas do filme, têm suas representações em todos os cantos de nosso país.

A tal turma é formada por alunos de ensino médio, na faixa entre 14-15 anos, com um repertório de problemas capaz de abalar o mais preparado dos educadores. Os históricos apontam para violência, rejeição, exclusão social, bullyng, formação de gangs, uso de drogas e todos os elementos determinantes de uma existência sem horizontes e desprovida de interesse no presente. São todos delinquentes, em maior ou menor grau. A Sra. G., como a tratam de início os alunos em forma de deboche, é Erin Gruwell, jovem professora que tem entusiasmo pela educação e faz apostas na capacidade de transformação dos seres humanos. Ela é principalmente sensível, intuitiva, amorosa, inteligente e obstinada. Sem essas qualidades, seu fracasso seria inevitável, pois fica claro na história, baseada em fatos reais, que não conta com nenhum apoio ou estímulo da direção da escola. Pelo contrário.

Mas o que faz a professora idealista para mudar radicalmente a vida dos alunos? Em primeiro lugar, renuncia aos métodos tradicionais depois de algumas investidas catastróficas. Percebe que necessita descobrir a origem de tanta raiva naquelas jovens vidas. Tem uma ideia, semente de tudo o que virá. Divide a sala ao meio com uma fita adesiva colada ao chão. Coloca os alunos de um lado e de outro, faz perguntas diversas sobre o cotidiano deles, levando-os a uma aproximação ou afastamento da fita. No final deste exercício, tem claro o que os perturba mais. É então que toma duas atitudes que transgridem a ordem interna da escola, mas serão determinantes para uma mudança radical. Depois de ouvir um aluno chamar a outro ‘judeu’, de forma pejorativa, e de tomar conhecimento da ignorância histórica de todos, ela os seduz à leitura de O diário de Anne Frank. E, muito importante, convida-os a escrever eles próprios, todos os dias, um relato qualquer sobre seus cotidianos. Sabemos que a escrita pode ser terapêutica ao dar voz ao sujeito. No caso do relato dos alunos, e da forma como foi conduzido e aceito o convite, serviu para que os autores tivessem mais nítida a ideia de si e de seus problemas, confrontando-os com os de alguém de sua idade mas em condições de confiar (no diário) e de não perder a esperança (na vida), por mais negras que se apresentassem as circunstâncias. Outras ações correlatas são sugeridas pela professora e acolhidas pelos alunos que terminam o filme transformados.

Expressar nossas agruras pode torná-las mais compreensíveis e suportáveis, esta parece ser uma das mensagens do filme, que foge ao viés comercial e nada tem de romântico, apesar do final feliz.

 Vejo a história, que transitou da realidade para a tela, como um exemplo de que é possível reverter quadros de desesperança a partir de pessoas como Erin Gruwell, capazes de promover otimismo em ambientes hostis, graças a um talento especial que capacita a criar novas possibilidades, mesmo diante de situações particularmente sombrias.

É um filme inspirador que aconselho a todos os educadores. E sob o aspecto dramatúrgico, o desempenho de Hilary Swank, ganhadora de Oscar, é arrebatador.

Serviço
Título: Escritores da Liberdade
País de origem: Alemanha
Gênero: Drama
Duração: 122 minutos
Ano de lançamento: 2007

Além das aparências

Richard LaGravenese
Lembram-se de PS-Eu te amo? Este filme, assistido por milhões de pessoas, tinha no seu elenco a atriz Hilary Swank ( a professora Erin do filme resenhado ao lado), intérprete da jovem e bela Holly Kennedy, que ao ficar viúva entra em depressão e passa a receber cartas postadas pelo marido enquanto vivia. A trama é muito interessante porque conduz a protagonista à superação do luto. Seu diretor? Richard LaGravenese.

Lembram-se de As pontes de Madison? Também recordista de público no ano de seu lançamento, traz à tela a história do casal que se encontra no momento da vida em que parece impossível reconfigurar a história pessoal sob risco de ferir terceiros. Seu roteirista é o mesmo Richard LaGravenese que assina a direção de Escritores da Liberdade.

São três grandes trabalhos onde o olhar não se contenta em mostrar o nível aparente das relações humanas. Eles desvelam esta característica do cineasta que busca as razões mais profundas que conduzem as pessoas nas suas trajetórias. É um olhar cuidadoso, respeitoso, despretensioso. E importante pelo que revela ao espectador em termos de realidade e de esperança.

Há outros títulos expressivos na carreira deste norte-americano nascido em 1960 no Brooklyn, Nova York: Água para elefantes, O Encantador de Cavalos, O Árbrito, Pescador de Ilusões, Dezesseis Luas, Profissão de Risco, A Princesinha, todos com alguns prêmios - e pelo menos dois com indicação a Oscar- enriquecendo o currículo do diretor/roteirista.