20 de março de 2026

Amor infinito


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Hoje, 29 de junho, é data de aniversário de casamento de meus pais. Eles completam 70 anos de casamento

Vizinhos, num dia que só pode ter sido belo, encontraram-se. Ela morena, cabelos crespos, olhos meio que puxados, escuros, cintura fina. Ele, loiro, cabelos lisos, olhos azuis, bem abertos. Nem tão alto, mas forte feito touro, ombros largos, pedaço de mau caminho, na expressão da época. Apaixonaram-se. Ela morria de ciúmes dele. Ele nem tanto: nem precisava, o pai dela, Joaquim, era homem de maus bofes, uma jararaca. 1940 e os jovens encontravam-se às escondidas, nas esquinas das vizinhanças. Seu Joaquim descobriu e nem conversou: tirou a filha da escola – estudar pra quê? Se namorava era porque queria casar.

Botou o intruso pra dentro de casa, eles namoravam na sala, na presença das tias Badiinha e Laura – irmãs de Ritinha, a mãe, quase da mesma idade que a sobrinha. Meu pai, com a ajuda da irmã – que minha mãe odiava com todas as forças e nunca perdoou – fugia pelo muro do fundo de casa, depois do namoro coletivo que tinha hora marcada para terminar, e caía na gandaia. Prudente, dizem que voltava para casa pelo caminho que utilizara para ir. Mamãe sabia e nunca pode mover uma palha para impedir. Quando ela fez dezoito anos – ele já tinha vinte e quatro, portanto um senhor – decidiram se casar. Do civil, no cartório, há fotos deles e dos familiares convidados na Praça do Hotel Francano, cenário propício para registrar momentos como esses: palmeiras de fundo, bancos em granilite, postes de iluminação de ferro fundido, prédio lindíssimo, ipês floridos. O religioso foi na Igreja Matriz. Não há clichês na porta da igreja.

Porém a foto em sépia mostra o jovem casal no fundo do quintal da casa dela sorrindo para a posteridade. Ela revelou frustrações com o dia: não teve vestido em cetim, como era a moda, nem longo véu de tule, como ditava o bom-tom, muito menos jóia, como nos filmes: só a aliança e olhe lá. Ele era barbeiro, como o pai, ganhava o suficiente para terem certo conforto, não sobrava para firulas. No começo desfrutaram da liberdade: iam ao cinema quase todas as noites, um luxo! Iam passear na praça. Eram apaixonadíssimos, nunca se constrangeram a ponto de esconder a profunda afeição e mútua atração. Embora ele fosse muitas vezes rude e intempestivo, de estopim curtíssimo e perdesse a cabeça fácil, fácil – tinha um jeito estúpido de ser –, ele amou. De verdade, amou. Mulher e filhos, principalmente a mulher, que deixou viúva aos quarenta e oito anos. Ela nunca mais se interessou por outro homem: quando brincávamos, dizendo que se fosse o contrário, ele já teria se casado, ela ria e afirmava que não. Ele, ela tinha certeza, jamais teria procurado outra mulher. Não sei de onde vinha tanta confiança, que eu invejava... Viveram amor pra ninguém botar defeito. Coisa de cinema. Relação carinhosa e tempestuosa, ao mesmo tempo. Nós, os filhos, sabíamos da atração que sentiam e, para nós, era tranquilo ver a porta do quarto deles quase sempre fechada, sem que dêssemos risinhos maliciosos. Pequenos, não sabíamos direito o que se passava naquelas quatro paredes. Maiores, jamais qualquer de nós riu com malícia ou mordacidade: era momento deles e a gente respeitava. Sem qualquer problema.

Vai ver que meu problema era justamente não ter problemas em casa... Minha vida era perfeita demais, tranquila demais, serena demais. Tenho muitas saudades deles. E vou comemorar com saudades estes setenta anos de casamento cujos noivos partiram, mas que não se acabou.

Bullying
Agora inventaram essa. Mexer com os colegas; botar apelidos; debochar da aparência física e mortificar companheiros escolares com brincadeiras do tipo, logo, logo vai ser crime. Crime, mesmo: daqueles que impõem punições. Chamar o colega sardento de Ferrugem; a menina alta de Vara de Cutucar Estrela; o baixinho de Tampinha, por exemplo, podem provocar corretivo severo. Porém o cara do Pânico que coloca imensas orelhas para ficar parecido com conhecida celebridade; a artista que ridiculariza a presidente do País estão fazendo o quê? A diferença é a idade cronológica? E a grosseria e constrangimento são atemporais?

Grosseria
Celular é útil? Imagine a vida sem ele. Mas o manual de instrução deveria trazer informações sobre o uso adequado do aparelho. Causou constrangimento, durante a cerimônia de abertura da Francal, dia 26 de junho, na presença do governador do Estado, do prefeito de São Paulo, de representantes de ministros e presidentes de entidade de classe, os papagaios que ora atendiam ao chamado do telefone, ora falavam de eleições entre si de forma nada discreta. Impotente, vergonha senti por eles.

Vingança
Durante infância e adolescência sofreu com dois detalhes físicos que a incomodavam: o tamanho da boca e o fato de ser mais avantajada no tórax que a maioria das garotas da época. Retratos 3x4 mostram a adolescente com os lábios retraídos e as fotos sob o coqueiro, na praça, tiradas pelo Jayr, mostram-na com casaquinho e postura deselegantemente curvada. Mais, tarde, a vingança. Diferente das outras, nunca fez preenchimento de boca, nem beicinho, muito menos gastou os tubos para turbinar o que sempre teve de sobra...

Inveja
Maior que o desconforto causado pelo brilho alheio é o medo que o invejoso tem de que alguém possa brilhar mais que ele. E aí a Vera Loyola vem e completa a idéia. Diz que amigo não é aquele que vem comemorar o seu sucesso; amigo é o que suporta ver você brilhar.

Desafio
E porque é junho, repita esses travalínguas. 1. Disseram que na minha rua tem paralelepípedo feito de paralelogramos. Seis paralelogramos têm um paralelepípedo. Mil paralelepípedos têm uma paralelepipedovia. Uma paralelepipedovia tem mil paralelogramos. Então uma paralelopipedovia é uma paralelogramolandia? 2. Toco preto, porco fresco, corpo crespo. 3. A pia perto do pinto, o pinto perto da pia. Tanto mais a pia pinga, mais o pinto pia.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br