Ela tem um grande defeito: só sente o corpo quando dói.
Canta sempre a mesma música quando cozinha: “Era ela a moça mais bonita da favela”... em notas de soprano, sem bazófia.
Toma uma dose de cachaça , cozinha o feijão vermelho, eu observo todos os seus movimentos. Quero aprender a cozinhar, quero aprender a cantar, quero seus olhos em mim encantandos - como os meus quando repousam nela.
Vejo fumaça saindo das panelas, formando desenhos no ar e inundando a casa de odores dominicais.... Enquanto isso, lá fora, a jabuticabeira cinquentenária compete com o assado, exalando o perfume que antecede seu parto negro.
Uma leve sensação de que meu estômago está mareado. Sinto saudade do que ainda não se foi...
O almoço está pronto e ela vai deitar... Não tem fome. A dor tira o gosto de algumas coisas, mas o cigarro aceso revela que a vontade maior é de jogar fumaça nos pulmões, até que um dia, na iminência da morte, ela fume o último...e cante mais uma vez, sem cozinhar.