08 de julho de 2026

Tôni (parte 3)


| Tempo de leitura: 3 min

No sábado conseguinte fui apanhá-lo. Era outro garoto: lavado, penteado, com roupas que sugeriam ser novas; um menino polido. Miudinho, órfão e, no entanto, fazia coisas que nenhuma educação pode ensinar, porque só são feitas intuitivamente. Como pôde uma mãe abandonar tal filho?

A apresentação da orquestra e do solista no piano foi fantástica. No segundo movimento do Concerto número 2, o larghetto, deixou-me emocionar o belíssimo momento musical. É preciso dizer que neste segundo andamento cinco compassos introdutórios, à maneira de uma premonição trágica, abrem de novo passagem ao piano em variações durante todo o movimento. É cada vez mais opressivo, mais dolorosamente cantante, adornando por meio de grupos completamente irregulares a linha melódica, incansável na forma de expor o tema de todas as maneiras possíveis. Belíssimo!

Olhei para Toni, sentado ao meu lado. Com o olhar fixo no palco, dedos entrecruzados e mãos grudadas ao peito, o menino chorava...

———————————

Durante o mês que fiquei no chalé, Toni prestava-me pequenos serviços desnecessários, pequenas gentilezas que só fazem os que têm um grande coração. Ele descobriu, ao lado da lareira, um vão que eu não havia notado. Por sua iniciativa, depositou lá algumas achas para que eu tivesse lenha seca em caso de chuva ou tempo muito úmido. Havia uma pedra solta no caminho que levava ao chalé. Procurou fixá-la, embora ele próprio usasse sempre uma trilha.

Percebi que quando eu tentava lhe retribuir os serviços com presentes de balas ou frutas, ele ficava sem fala. “Obrigado”, era, talvez, uma expressão que ele não usava, pois seu sentimento de cortesia era instintivo. Ele apenas olhava para o que lhe era oferecido e, em seguida, para mim. Uma cortina se abria, e eu via mais fundo no poço claro de seus olhos; e havia lá gratidão e afeição, suaves, sobre o sólido granito do caráter.

Como era de se esperar, tornou-se amigo de Baldo, o cão perdigueiro. Há uma estranha comunhão entre um menino e um cachorro. Talvez porque os dois possuam a mesma singeleza de espírito, a mesma espécie de sabedoria. É difícil de explicar, mas isso existe.

Estávamos agora diante da lareira. Fazia muito frio. Convidei-o para tomar um chocolate quente e descansar um pouco após estafante trabalho de limpeza em torno da cerca de arame farpado.

- Tenho saudades de minha mãe, -disse-me ele um dia. Guardo seu rosto aqui dentro da cabeça.

- Mas você só tinha quatro anos quando veio para cá, Toni. Será que realmente ainda se lembra dela?

- Minha mãe mora em São Paulo disse ele.

Eu não sabia bem por que o fato de saber que Toni tinha mãe me perturbava tanto. Então compreendi. Eu ficara indignado pelo fato de uma mulher ir embora e abandonar o filho principalmente um filho como aquele. O orfanato e o Preventório Santa Clara eram excelentes; a comida era mais do que adequada. Mesmo admitindo a possibilidade de que os meninos não sentissem falta de nada, que espécie de sangue corre nas veias de uma mulher que não se preocupa com uma criança nascida do seu ventre?

- Você tem visto sua mãe ultimamente, Toni?

- Eu vejo ela todos os verões. Ela vem me buscar.

Pensei, com vontade de gritar: “Por que você não está com ela? Como ela pode viver longe de você?” Contive-me e continuamos a conversa:

- Ela vem de São Paulo sempre que pode. No momento não está empregada. Mas mesmo assim me envia, de vez em quando, alguns presentes e cartinhas.

Seu rosto brilhava à luz das chamas.

- Ela queria me dar um cachorrinho, mas não deixaram no orfanato. Sempre que me visita, ela me traz algum presente. O senhor se lembra da roupa que eu vestia quando nós fomos ouvir a orquestra? Então, foi ela quem me trouxe. No último Natal Toni parecia saborear cada lembrança, - ganhei de minha mãe um trenzinho de armar. É só botar pilhas para ele andar. Mas eu emprestei aos meus coleguinhas e eles estragaram tudo. Não tem importância, eu guardei aqui na cabeça o abraço apertado que ela me deu no último Natal.

(Continua).