22 de março de 2026

Língua


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O tempo passou. E, enquanto passava, Lucas foi aprendendo a língua nativa com o pai e a língua que ele chama de aquela-língua-esquisita-que mamãe-fala-só-com-a-vovó, eu. E aquela língua é nosso velho e bom português...

Começo de novembro, a filha grávida e eu passeávamos pelas cercanias de sua casa no bairro londrino. Fim de tarde bem frio, final de outono, quase. Era seu primeiro filho, eu a levava pelo braço como se fosse um troféu. Mães, quando passeiam com a filha grávida, tornam-se cúmplices na execução da tarefa sublime de fazer outra pessoa. Naquele momento, ela dava retoques finais no bebê, que sabíamos ser menino: Lucas. Pouco falávamos, apoiávamos uma na outra, ambas com o mesmo lento e cadenciado passo. Notávamos detalhes que sempre existiriam, sem que uma ou outra lhes desse atenção, antes. Era o vaso engraçado pendurado à porta do vizinho; era outro cheio de flores artificiais, perfeitas e coloridas destacando-se no cinza da paisagem; era a placa enfeitada, pendurada na janela, revelando por escrito aos passantes que naquela casa morava uma pessoa que apenas descobriu a felicidade depois que adotou um gato. Riam-se: gato siamês, que miava, ou com metro e noventa, loiro e de olhos azuis? Depois, novo período de caminhada de ritmo lento, silêncios e falas intermitentes. Foi quando deram com outra moça, da idade da filha, acompanhada por garotinho de quatro ou cinco anos encapotado: luvas, bochechas e boca vermelhas, olhos vivos, cabelos cacheados que apareciam sob o gorro enterrado até a sobrancelha. Falava muito, percebemos o relato de algo acontecido na escola: alguma coisa caíra do armário – acho que uma bola – ele saíra correndo atrás e a bola escorregara para um buraco. Era história que não teria a menor graça não fosse a voz animada do garoto e as risadas com as quais entremeava a narrativa. Ficamos olhando deliciadas a cena, quando minha filha comentou o que ambas pensávamos: dentro de alguns anos o bebê ainda não nascido estaria com aquela idade e falando aquele inglês infantil.

O tempo passou. E, enquanto passava, Lucas foi aprendendo a língua nativa com o pai e a língua que ele chama de aquela-língua-esquisita-que mamãe-fala-só-com-a-vovó, eu. E aquela língua é nosso velho e bom português... Sempre levo e lhe conto histórias dos livros infantis de autores brasileiros. Idem, CDs tradicionais como Arca de Noé, Casa de Brinquedos e do grupo Palavra Cantada. Na fase escatológica, ele rolava de rir quando ouvia a música do Cocô. Ah! apaixonou-se pelos bonecos do Cocoricó. A mãe só fala com ele em português embora ele só responda em inglês. Com o pai, primos, avós e na escola, é só inglês, claro. Há um ano vem se interessando pela língua esquisita da mãe e começou a perguntar como se diz isso ou aquilo em português: a xícara, o copo, o brinquedo, as peças de casa – porta, cama, travesseiro; as de vestir – calça, cueca, camisa, camiseta, meias, sapato. E percebemos que se ele sabia o significado, agora quer falar as palavras correspondentes. Tem sido uma festa: apresenta forte sotaque inglês quando fala a língua da mãe e saem coisas como sôu/dha/dhê dhê vou/cê, car-rrou, cóu/pô, fôu/tê/bóul. É exibido e vaidoso do que tem aprendido: enquanto falo com ela, ele aparece na tela de repente e diz rapidamente, só para se mostrar: ôum, dhôis, trêi/z, cuatrou, cincou, scêis, sé/thê, oi/tchou, nóvêe, dhez! E desaparece...

Recentemente tem implicado com o inglês da mãe. Diz que ela não fala “properly” a língua dele e do pai e a corrige o tempo todo, além de mofar-se dela, enquanto repete a palavra. Filhos, mesmo os de cinco anos, são cruéis com as falhas dos pais. Mas eu me vingo dele, logo, logo: ninguém judia de cria minha. Quero me escangalhar de rir quando for ensinar o “ai se eu te pego” e “sei fazer o lê,lê, lê”. Claro, escondido de minha filha, senão ela me mata.

Consequências
... da recente crise na Grécia: Zeus vende o trono para uma multinacional coreana. Aquiles vai tratar o calcanhar na saúde pública. Eros e Pan inauguram prostíbulo. Hércules suspende os 12 trabalhos por falta de pagamento. Narciso vende espelhos para pagar a dívida do cheque especial. Minotauro puxa carroça para ganhar a vida. A Acrópole é vendida e reinaugurada como Igreja Universal do Reino de Zeus. Eurozona rejeita Medusa como negociadora grega: “Ela tem minhocas na cabeça!”. Sócrates inaugura Cicuta Bar para ganhar uns trocados. Dionisio vende vinhos à beira da estrada de Marathónas. Hermes entrega currículo para trabalhar nos correios. Especialidade: entrega rápida. Afrodite aceita posar para a Playboy. Sem dinheiro para pagar os salários, Zeus libera as ninfas para trabalharem na Eurozona. Ilha de Lesbos abre resort hétero. Para economizar energia, Diógenes apaga a lanterna. Oráculo de Delfos vaza números do orçamento e provoca pânico nas Bolsas. Áries, deus da guerra, é pego em flagrante desviando armamento para a guerrilha síria. A caverna de Platão abriga milhares de sem-teto. Descoberto o porquê da crise: os economistas estão falando grego! (Da internet)

Grosseria
Tão feios, mal educados e impróprios quanto os excrementos dos cães que são levados (para caminhar e se aliviar) por seus donos ao Poliesportivo são o desprezo evidente desses pelo próximo e o modo como nos olham, como a pedir conivência e tolerância porque – você sabe – os cães não sabem o que estão fazendo. Os donos sabem. E deviam recolher os malcheirosos montinhos.

Autismo
Grande parte dos usuários do Poli; pessoas que entram no salão de beleza buscando atendimento; gente que cruza nas ruas; clientes que entram nas salas de espera dos consultórios; frequentadores dos estabelecimentos comerciais – quitandas, lojas, academias –, enfim, gente que encontra gente em qualquer lugar, passam uns pelos outros como se todos fôssemos fantasmas, absolutamente invisíveis. Dificilmente retornam eventual cumprimento. Autismo ou indelicadeza? “Bom dia nada custa ao nosso coração”, então, “Bom dia, irmão!”