16 de março de 2026

Só acontece comigo


| Tempo de leitura: 5 min
Com frequência, protagonizo episódios singularíssimos, daquele tipo que um cético diria ser "impossível" acontecer. A vida não cansa de me surpreender.

"Os azares da vida são tais, que toda a eventualidade se faz possível" - André Maurois, escritor francês

Quem me conhece de perto sabe que, com alguma frequência, protagonizo episódios singularíssimos, daquele tipo que um cético diria ser “impossível” acontecer. Já encontrei um conhecido em plena igreja de S. Patrick, em Nova Iorque, um sujeito que quase me mata de susto ao gritar “Junior” naquele lugar. Tomei chuva num deserto onde faz sol 364 dias por ano. Fui confundido com um ministro e recebi tratamento diplomático numa viagem à França. Certa vez me envolvi num acidente de trânsito sem vítimas e que me parecia só um arranhão, mas o seguro achou melhor considerar perda total e o dinheiro que recebi deu para comprar um carro muito melhor do que aquele que eu tinha batido. Comecei a fumar charutos aos 33 anos ainda que jamais tenha tragado um único cigarro na vida. Acabei marido da minha afilhada de casamento.

Nesta semana, em São Paulo, uma série de eventos se somaram à minha lista de “causos” inverossímeis, ainda que absolutamente reais. Tudo começou quando meu carro simplesmente parou com uma “pane elétrica”. Estava na Capital com Joelma Ospedal, editora-chefe do Comércio; Leandro Ferreira, editor do Núcleo de Projetos Especiais; e Leandro Vaz, chefe de reportagem. Tratei de alugar um carro para dar conta do que tinha a fazer. Na Localiza do aeroporto de Congonhas peguei um Peugeot 408, preto.

Na noite de quinta-feira, encerrada a maratona de reuniões, fomos para o Baretto, bar do icônico hotel Fasano. Se os preços proibitivos das diárias do hotel restringem a hospedagem ali aos muito endinheirados, o bar é bem menos excludente. Você pode ficar umas boas horas aproveitando sua bebida sem ser incomodado enquanto se delicia com a sucessão de crooners que, a dois metros de você, cantam clássicos da música americana e da MPB, tudo ao som do quarteto comandado pelo elegante maestro Mario Edson. É um programa e tanto. Vale o investimento.

Tenho uma relação antiga e emocional com o Baretto. Ali já vi e vivi muita coisa. Foi naquele ambiente clássico e com luz suave, onde cabem no máximo 60 pessoas, que assisti, numa noite incrível, Paulo Ricardo, o eterno vocalista do RPM, cortejar a supermodelo Naomi Campbell e, de quebra, assumir o microfone. Cantou clássicos como My Way e Moon River, além de Freedom 90, de George Michael, cujo clipe catapultou a carreira planetária de Naomi. Impossível esquecer uma noite como aquela.

Foi ali também que, nesta última quinta-feira, o imponderável mais uma vez cruzou meu caminho. Estávamos conversando, só para variar, sobre o nosso trabalho, quando uma loira charmosa, acompanhada por uma morena com idênticos atributos e um rapaz cujas qualidades físicas não me interessam nem um pouco se sentaram na mesa ao lado da nossa. “É a Val”, disparou o Leandro Ferreira. “Val Machiori, aquela do programa Mulheres Ricas”, completou o Vaz. Sabia de quem se tratava, mas jamais teria associado o nome à pessoa. Ao vivo, ela é bonita, detalhe significativo que as lentes das câmeras camuflam.

Ferreira e Vaz, ambos solteiros, não escondiam a excitação com a possibilidade de interagir com a celebridade. Ferreira foi mais decidido. Levantou-se, estufou o peito, deu dois passos e se apresentou para a mulher que, sentada, divertia-se com champagne, obviamente. “Boa noite, Val. Sou Leandro Ferreira, editor do GCN, de Franca. Queria te convidar para fazer um editorial de moda na nossa próxima revista”. A resposta? “Hello, Franca”, disparou a loira. “Sente-se”. Em cinco minutos, Ferreira já era praticamente íntimo da mulher. Vaz também se juntou logo. Quando percebi, Val estava nos intimando. “Jô e Junior, venham para cá. Sentem-se com a gente”. Fomos.

A partir daí, foram algumas horas de boa conversa e muitas risadas. Sim, ela é muito rica. Sim, ela não tem nada da franciscana. Sim, ela bebe muito champagne. Mas não, ela não é burra nem alienada. Tem muitas referências, fala com carinho e orgulho dos filhos, adora viajar e tem noção de mundo. Fala sem amargura – e também sem saudades – da infância pobre no interior do Paraná. Sabe onde chegou e quer ficar aí mesmo.

Depois de dançar muito com o Ferreira, dar conselhos românticos ao Leandro Vaz e elogiar a beleza e simpatia da Joelma, era nossa hora de ir embora. Na despedida, ela deu seu telefone e nos convidou para almoçar no dia seguinte. Declinamos. Não sem um enorme pesar da dupla de Leandros que, na versão Val, viraram “Leo”. “Hellooo, é mais simpático”, garante a nova amiga dos dois editores.

Pedi ao manobrista que trouxesse meu carro. Em dois minutos surgiu o Peugeot preto. Fomos rápido para o nosso hotel. Acordei às 9h e, como sempre faço, fui direto no celular verificar os e-mails. A bateria tinha acabado na madrugada. Quando liguei o telefone, tomei um susto. Haviam seis ligações da Localiza e outras três do hotel Fasano.

Em instantes, o telefone tocou. “Sr. Neves, aqui é Clara, da Localiza. Estamos tentando falar com o senhor há horas”. Expliquei que a bateria havia acabado. O senhor esteve no hotel Fasano ontem?”, perguntou. “Estive”, confirmei, um tanto receoso. “Sr. Neves, o senhor está com o carro errado”. Retruquei. “Como? É o Peugeot preto que aluguei”. A mulher tratou de explicar. “É um Peugeot preto, mas não o que o senhor alugou. O Fasano entregou o carro errado para o senhor. Um outro cliente nosso alugou um carro igual e estava no mesmo lugar. O hotel fez a confusão”.

Prometi me apressar para desfazer a “troca”. Ao chegar no Fasano, uma tropa nos esperava para apresentar as desculpas. E, em frente ao hotel, o carro que era o que eu de fato havia alugado. A coincidência era impressionante. Os dois veículos são da mesma cor e modelo, alugados no mesmo dia. Eu e o outro sujeito fomos para o mesmo lugar no mesmo horário e, para piorar, as placas são praticamente idênticas. A do carro que aluguei e continua comigo é NXZ-2823. A do carro que me foi dado por engano é NXZ-2829. A diferença é um único algarismo. Duvida? Dá uma olhadinha na foto que acompanha este texto, feita pelo intrépido Leandro Ferreira, no final da manhã de sexta-feira. Decididamente, a vida não cansa de me surpreender. Hellooooo para vocês!

CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br