07 de junho de 2026

Um forasteiro sem medo da cobrança na capital do basquete


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O técnico Lula Ferreira, ‘inimigo’ do Franca no passado, não promete títulos, mas diz que a torcida vai se surpreender com os novos jogadores

Grande “inimigo” dos torcedores francanos no passado, Aluísio Elias Xavier Ferreira, 61, espera dar ao torcedor de Franca aquilo que tirou comandando equipes adversárias, como a de Ribeirão Preto: as vitórias e títulos. Lula Ferreira chega a Franca quebrando uma tradição: é o primeiro treinador a dirigir o time local sem ter nascido na cidade ou ter alguma experiência anterior no basquete francano. Todos os seus antecessores - Pedroca, Hélio Rubens, Daniel Wattfy e Chuí - de alguma forma têm ligações com a cidade ou com o basquete local.

A história de Lula Ferreira com o basquete começou aos 14 anos. Filho de uma professora de educação física, o então garoto de 1,80 m de altura foi incentivado pela mãe a praticar o esporte. No Palmeiras, Lula atuou nas categorias de base como armador até os 21 anos. Depois disso, passou no vestibular da USP, no curso de educação física. Nesse período recebeu o convite para jogar na Hebraica, outro clube da capital, e treinar as categorias de base. “Como eu não era um jogador de primeira linha, a condição de atuar na Hebraica era a de treinar as categorias de base do clube. Como estudava, eu aceitei o convite e comecei minha carreira de treinador dessa forma”, lembra.

Ficou na Hebraica 18 anos e lá recebeu o convite para dirigir o Palmeiras. Mesmo sem pretensões de títulos, o treinador se orgulha de ter revelado no Palmeiras vários atletas para o basquete, inclusive o astro Leandrinho Barbosa, que atua hoje na NBA.

O treinador passou a ser conhecido dos francanos quando assumiu o rival Ribeirão Preto, em 2000. Ganhou a “fama de inimigo” ao conquistar cinco títulos estaduais consecutivos (2001/02/03/04/05), além de um brasileiro (2003). Sua passagem na cidade vizinha coincidiu com o surgimento de talentos como Alex Garcia, Nezinho, Rafael Hettsheimeir, Renato e Arthur.

Antes de assumir o comando da seleção brasileira de basquete, em 2003, Lula foi auxiliar técnico de Hélio Rubens no time. No mesmo ano, levou o Brasil à medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo. Conquistou também o Pan do Rio de Janeiro em 2007. Mas, sob seu comando, a seleção amargou decepções na tentativa de voltar a disputar uma Olimpíada. Após o fracasso no Pré-Olímpico de Las Vegas (EUA), em 2008, foi demitido.

Foi comandar, então, o Brasília e, em 2009, conquistou a taça de campeão da Liga das Américas e, no ano seguinte, faturou o título da segunda edição do NBB. Com o contrato encerrado, Lula Ferreira recebeu o convite da Liga Nacional de Basquete (LNB) para ocupar o cargo de gerente técnico.

Agora, Lula aceitou o convite do Franca para comandar um trabalho de reformulação no basquete do clube, privilegiando não só a equipe adulta, mas também o trabalho de formação de atletas. Mesmo com uma carreira vitoriosa, o treinador encara dirigir Franca como um novo desafio em sua vida e diz estar preparado para a cobrança da torcida, que não vê seu time conquistar um título desde 2008.

Comércio da Franca - Como é receber o convite para treinar o clube de basquete mais tradicional do país?
Aluísio Elias Xavier Ferreira, o Lula -
Foi uma notícia de muito impacto. Franca só teve quatro técnicos em seu comando e eu sou o quinto. Todos os anteriores eram nascidos aqui, com raiz na cidade. Então nem passava na minha cabeça um dia receber esse convite. É uma honra muito grande.

Comércio - O fato de o senhor ser um “estrangeiro” em Franca pode atrapalhar?
Lula -
Espero que não porque o que farei é ter respeito por toda a tradição e por tudo aquilo que foi construído. Franca é o que é no basquete pelo trabalho de inúmeras pessoas, como atletas e dirigentes, que dedicaram sua vida ao time. A obrigação de quem está aqui é no mínimo respeitar tudo isso e trabalhar com o corpo e alma para contribuir com um “grãozinho” que seja para que a tradição seja mantida.

Comércio - O senhor chega em um momento de renovação e substitui Hélio Rubens Garcia, um ídolo francano. Considera isso uma responsabilidade a mais em sua carreira vitoriosa?
Lula -
Uma responsabilidade gigante. O Hélio Rubens é uma pessoa incomparável. O que ele fez foi muito mais que um trabalho, ele dedicou a vida dele a Franca. Todas as placas no ginásio com os títulos francanos têm a participação dele como atleta ou técnico. Posso trabalhar 50 anos aqui que não vou conseguir fazer um décimo do que ele fez. É uma pessoa para ser respeitada e ter seu exemplo seguido. Se eu conseguir 1% do que o Hélio Rubens fez, já fico satisfeito.

Comércio - O “limpa” no antigo elenco teve o seu aval?
Lula -
Com os contratos terminados de alguns atletas, a diretoria, dentro da nova filosofia, procurou outras soluções. Alguns jogadores que defenderam o Franca no NBB estavam em nossa lista, mas, como não houve entendimento no contrato, não podemos interferir. Jogadores como o Helinho, que tem uma história maravilhosa em Franca, estavam na lista, mas, infelizmente, ele não firmou acordo e tomou a decisão de mudar, que também deve ser respeitada.

Comércio - Muitos torcedores se perguntam por que Kewin Sowell, destaque do time na última temporada, não ficou no clube...
Lula -
Estamos partindo de um projeto para fazer uma equipe alinhada com a tradição do basquete de Franca. No nosso entendimento, o Kevin Sowell não ocupa todos os requisitos necessários para isso. Ele se mostrou um jogador de qualidade ofensiva boa, é um finalizador, um atleta com muito volume de jogo, mas com pouquíssima participação defensiva. Mostrou também um relacionamento difícil fora das quadras.

Comércio - O senhor foi responsável por deixar muitos torcedores francanos tristes quando esteve no comando do rival Ribeirão Preto. Como é agora estar do outro lado? Promete títulos para compensar essa tristeza?
Lula -
O título é consequência de um trabalho e prometo muito empenho. Tenho a certeza de que, com o elenco que a diretoria formou e com a infraestrutura que está sendo dada, irá dar certo. É um desafio que dá para ser vencido. O DNA de Franca é de time campeão e jamais vai poder fugir disso. Vamos jogar para ganhar amanhã, mas todos precisam entender que vai levar um tempo para o time se constituir.

Comércio - Como espera lidar com este jejum de títulos [última conquista foi a Supercopa em 2008] e a cobrança das arquibancadas?
Lula -
O primeiro a cobrar o meu trabalho serei eu mesmo. Nenhum profissional pode achar que vai dirigir uma equipe com o poder e a tradição de Franca sem ser cobrado. A gente sabe que no esporte os patamares mais altos não são confortáveis. Nenhum jogador ou técnico de sucesso pode querer ter conforto. O desconforto na profissão é esse de ser cobrado todo dia e saber que você tem que ganhar sempre. Quem lida com o esporte gosta desses desafios.

Comércio - Como injetar uma postura vencedora nos jogadores se eles defendem um time que não ganha nada há anos. Essa pressão extraquadra pode atrapalhar a proposta de reformulação?
Lula -
Não atrapalha. Quem tem que saber lidar com isso é quem está dentro do elenco: atletas e comissão técnica. A tradição de Franca foi feita com esse comportamento da torcida. Quem atua no time tem que saber que aqui é assim que funciona. Ou você tem estrutura emocional para aguentar e suportar esse tipo de conduta, ou não se aventura a assumir essa função.

Comércio - O senhor declarou que tem dois jogadores da categoria de base maduros e prontos para jogar: o ala Léo Meindl e o pivô Lucas Mariano. Chegou o momento deles terem mais tempo em quadra?
Lula -
Sem dúvida, são dois jogadores de alta qualidade que vêm de um trabalho realizado nas categorias de base. Claro que são jovens ainda e têm um longo caminho a percorrer, mas são dois jogadores que conto no elenco adulto.

Comércio - A diretoria contra-tou vários atletas seguindo o projeto de restruturação e de trabalhar com jovens em ascensão. Figueroa e Teichmann são os mais experientes. Eles serão os responsáveis pela sustentação do time?
Lula -
Além dos dois, acrescento o Vuk Ivanovic. Esses três jogadores darão uma estabilidade aos demais. Os outros atletas vêm com a volúpia dos jovens. Gosto desses três [Teichmann, Figueroa e Vuk], pois embora sejam atletas “rodados”, eles são jogadores de volúpia também. O time tem que ter a gana pela vitória e a gana pela defesa.

Comércio - O que o torcedor pode esperar de atletas como Jefferson Socas e Ricardo Zanini, nomes desconhecidos?
Lula -
O torcedor vai se surpreender. São jogadores que realmente não têm uma etiqueta como a gente diz, mas são atletas de qualidade. Franca já fez isso com “n” atletas. O Vitor Benite quando chegou aqui não era um jogador conhecido. Era um jovem atleta promissor que ganhou notoriedade e status aqui. Acho que esse é o caminho como foi para Helinho, Guerrinha, Chuí, Edu Mineiro e tantos outros formados aqui. O Jefferson Socas estava no basquete da Espanha, no Real Madri. O Ricardo Zanini ficou quatro anos na liga universitária norte-americana e teve uma boa formação.

Comércio - Das equipes que o senhor treinou, qual foi a melhor?
Lula -
Acho que a equipe de Ribeirão Preto foi muito vitoriosa. Brasília também foi muito boa, pois conseguimos o único título internacional que os clubes brasileiros têm, a Liga das Américas de 2009. Mais tive a felicidade de dirigir várias outras equipes de que me orgulho muito. Espero que em pouco tempo possa me orgulhar do Franca.