Grande “inimigo” dos torcedores francanos no passado, Aluísio Elias Xavier Ferreira, 61, espera dar ao torcedor de Franca aquilo que tirou comandando equipes adversárias, como a de Ribeirão Preto: as vitórias e títulos. Lula Ferreira chega a Franca quebrando uma tradição: é o primeiro treinador a dirigir o time local sem ter nascido na cidade ou ter alguma experiência anterior no basquete francano. Todos os seus antecessores - Pedroca, Hélio Rubens, Daniel Wattfy e Chuí - de alguma forma têm ligações com a cidade ou com o basquete local.
A história de Lula Ferreira com o basquete começou aos 14 anos. Filho de uma professora de educação física, o então garoto de 1,80 m de altura foi incentivado pela mãe a praticar o esporte. No Palmeiras, Lula atuou nas categorias de base como armador até os 21 anos. Depois disso, passou no vestibular da USP, no curso de educação física. Nesse período recebeu o convite para jogar na Hebraica, outro clube da capital, e treinar as categorias de base. “Como eu não era um jogador de primeira linha, a condição de atuar na Hebraica era a de treinar as categorias de base do clube. Como estudava, eu aceitei o convite e comecei minha carreira de treinador dessa forma”, lembra.
Ficou na Hebraica 18 anos e lá recebeu o convite para dirigir o Palmeiras. Mesmo sem pretensões de títulos, o treinador se orgulha de ter revelado no Palmeiras vários atletas para o basquete, inclusive o astro Leandrinho Barbosa, que atua hoje na NBA.
O treinador passou a ser conhecido dos francanos quando assumiu o rival Ribeirão Preto, em 2000. Ganhou a “fama de inimigo” ao conquistar cinco títulos estaduais consecutivos (2001/02/03/04/05), além de um brasileiro (2003). Sua passagem na cidade vizinha coincidiu com o surgimento de talentos como Alex Garcia, Nezinho, Rafael Hettsheimeir, Renato e Arthur.
Antes de assumir o comando da seleção brasileira de basquete, em 2003, Lula foi auxiliar técnico de Hélio Rubens no time. No mesmo ano, levou o Brasil à medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo. Conquistou também o Pan do Rio de Janeiro em 2007. Mas, sob seu comando, a seleção amargou decepções na tentativa de voltar a disputar uma Olimpíada. Após o fracasso no Pré-Olímpico de Las Vegas (EUA), em 2008, foi demitido.
Foi comandar, então, o Brasília e, em 2009, conquistou a taça de campeão da Liga das Américas e, no ano seguinte, faturou o título da segunda edição do NBB. Com o contrato encerrado, Lula Ferreira recebeu o convite da Liga Nacional de Basquete (LNB) para ocupar o cargo de gerente técnico.
Agora, Lula aceitou o convite do Franca para comandar um trabalho de reformulação no basquete do clube, privilegiando não só a equipe adulta, mas também o trabalho de formação de atletas. Mesmo com uma carreira vitoriosa, o treinador encara dirigir Franca como um novo desafio em sua vida e diz estar preparado para a cobrança da torcida, que não vê seu time conquistar um título desde 2008.
Comércio da Franca - Como é receber o convite para treinar o clube de basquete mais tradicional do país?
Aluísio Elias Xavier Ferreira, o Lula -Foi uma notícia de muito impacto. Franca só teve quatro técnicos em seu comando e eu sou o quinto. Todos os anteriores eram nascidos aqui, com raiz na cidade. Então nem passava na minha cabeça um dia receber esse convite. É uma honra muito grande.
Comércio - O fato de o senhor ser um “estrangeiro” em Franca pode atrapalhar?
Lula - Espero que não porque o que farei é ter respeito por toda a tradição e por tudo aquilo que foi construído. Franca é o que é no basquete pelo trabalho de inúmeras pessoas, como atletas e dirigentes, que dedicaram sua vida ao time. A obrigação de quem está aqui é no mínimo respeitar tudo isso e trabalhar com o corpo e alma para contribuir com um “grãozinho” que seja para que a tradição seja mantida.
Comércio - O senhor chega em um momento de renovação e substitui Hélio Rubens Garcia, um ídolo francano. Considera isso uma responsabilidade a mais em sua carreira vitoriosa?
Lula - Uma responsabilidade gigante. O Hélio Rubens é uma pessoa incomparável. O que ele fez foi muito mais que um trabalho, ele dedicou a vida dele a Franca. Todas as placas no ginásio com os títulos francanos têm a participação dele como atleta ou técnico. Posso trabalhar 50 anos aqui que não vou conseguir fazer um décimo do que ele fez. É uma pessoa para ser respeitada e ter seu exemplo seguido. Se eu conseguir 1% do que o Hélio Rubens fez, já fico satisfeito.
Comércio - O “limpa” no antigo elenco teve o seu aval?
Lula - Com os contratos terminados de alguns atletas, a diretoria, dentro da nova filosofia, procurou outras soluções. Alguns jogadores que defenderam o Franca no NBB estavam em nossa lista, mas, como não houve entendimento no contrato, não podemos interferir. Jogadores como o Helinho, que tem uma história maravilhosa em Franca, estavam na lista, mas, infelizmente, ele não firmou acordo e tomou a decisão de mudar, que também deve ser respeitada.
Comércio - Muitos torcedores se perguntam por que Kewin Sowell, destaque do time na última temporada, não ficou no clube...
Lula - Estamos partindo de um projeto para fazer uma equipe alinhada com a tradição do basquete de Franca. No nosso entendimento, o Kevin Sowell não ocupa todos os requisitos necessários para isso. Ele se mostrou um jogador de qualidade ofensiva boa, é um finalizador, um atleta com muito volume de jogo, mas com pouquíssima participação defensiva. Mostrou também um relacionamento difícil fora das quadras.
Comércio - O senhor foi responsável por deixar muitos torcedores francanos tristes quando esteve no comando do rival Ribeirão Preto. Como é agora estar do outro lado? Promete títulos para compensar essa tristeza?
Lula - O título é consequência de um trabalho e prometo muito empenho. Tenho a certeza de que, com o elenco que a diretoria formou e com a infraestrutura que está sendo dada, irá dar certo. É um desafio que dá para ser vencido. O DNA de Franca é de time campeão e jamais vai poder fugir disso. Vamos jogar para ganhar amanhã, mas todos precisam entender que vai levar um tempo para o time se constituir.
Comércio - Como espera lidar com este jejum de títulos [última conquista foi a Supercopa em 2008] e a cobrança das arquibancadas?
Lula - O primeiro a cobrar o meu trabalho serei eu mesmo. Nenhum profissional pode achar que vai dirigir uma equipe com o poder e a tradição de Franca sem ser cobrado. A gente sabe que no esporte os patamares mais altos não são confortáveis. Nenhum jogador ou técnico de sucesso pode querer ter conforto. O desconforto na profissão é esse de ser cobrado todo dia e saber que você tem que ganhar sempre. Quem lida com o esporte gosta desses desafios.
Comércio - Como injetar uma postura vencedora nos jogadores se eles defendem um time que não ganha nada há anos. Essa pressão extraquadra pode atrapalhar a proposta de reformulação?
Lula - Não atrapalha. Quem tem que saber lidar com isso é quem está dentro do elenco: atletas e comissão técnica. A tradição de Franca foi feita com esse comportamento da torcida. Quem atua no time tem que saber que aqui é assim que funciona. Ou você tem estrutura emocional para aguentar e suportar esse tipo de conduta, ou não se aventura a assumir essa função.
Comércio - O senhor declarou que tem dois jogadores da categoria de base maduros e prontos para jogar: o ala Léo Meindl e o pivô Lucas Mariano. Chegou o momento deles terem mais tempo em quadra?
Lula - Sem dúvida, são dois jogadores de alta qualidade que vêm de um trabalho realizado nas categorias de base. Claro que são jovens ainda e têm um longo caminho a percorrer, mas são dois jogadores que conto no elenco adulto.
Comércio - A diretoria contra-tou vários atletas seguindo o projeto de restruturação e de trabalhar com jovens em ascensão. Figueroa e Teichmann são os mais experientes. Eles serão os responsáveis pela sustentação do time?
Lula - Além dos dois, acrescento o Vuk Ivanovic. Esses três jogadores darão uma estabilidade aos demais. Os outros atletas vêm com a volúpia dos jovens. Gosto desses três [Teichmann, Figueroa e Vuk], pois embora sejam atletas “rodados”, eles são jogadores de volúpia também. O time tem que ter a gana pela vitória e a gana pela defesa.
Comércio - O que o torcedor pode esperar de atletas como Jefferson Socas e Ricardo Zanini, nomes desconhecidos?
Lula - O torcedor vai se surpreender. São jogadores que realmente não têm uma etiqueta como a gente diz, mas são atletas de qualidade. Franca já fez isso com “n” atletas. O Vitor Benite quando chegou aqui não era um jogador conhecido. Era um jovem atleta promissor que ganhou notoriedade e status aqui. Acho que esse é o caminho como foi para Helinho, Guerrinha, Chuí, Edu Mineiro e tantos outros formados aqui. O Jefferson Socas estava no basquete da Espanha, no Real Madri. O Ricardo Zanini ficou quatro anos na liga universitária norte-americana e teve uma boa formação.
Comércio - Das equipes que o senhor treinou, qual foi a melhor?
Lula - Acho que a equipe de Ribeirão Preto foi muito vitoriosa. Brasília também foi muito boa, pois conseguimos o único título internacional que os clubes brasileiros têm, a Liga das Américas de 2009. Mais tive a felicidade de dirigir várias outras equipes de que me orgulho muito. Espero que em pouco tempo possa me orgulhar do Franca.