08 de julho de 2026

Criança sozinha


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Na quinta-feira, 07/06, o Comércio publicou uma matéria que enseja uma profunda reflexão de toda a sociedade em relação à forma como a estamos projetando para o futuro.

Denúncia anônima acionou a polícia para atender a uma ocorrência de abandono de incapaz. Os agentes da DDM (Delegacia da Defesa da Mulher) estiveram no local e constataram que uma criança de sete anos estava sozinha, trancada dentro de casa. A mãe, uma coladeira de peças estava trabalhando a dois quarteirões do local.

Obviamente, a polícia acionou o Conselho Tutelar e logo a criança foi retirada de casa. Juntamente com a mãe, foram encaminhados à Delegacia onde prestaram esclarecimentos e receberam orientação.

O caso, até certo ponto, é bastante simples. A mãe é sozinha, não recebe nenhuma ajuda do pai da criança e precisa trabalhar. Como não conseguiu vaga em período integral, deixa o filho trancado em casa no período em que ele não está na escola.

Mas é aí que começa o problema, sobre o qual deveríamos nos debruçar com mais atenção. Se não fosse a denúncia anônima, não saberíamos desse caso. Ou talvez viéssemos a saber apenas se algo de ruim acontecesse com essa criança, o que não é nada improvável em se tratando de um menino de sete anos trancado dentro de uma casa sozinho.

E o pior é que casos como esses não devem ser assim tão incomuns em nossa cidade. Se considerarmos que em Franca existe uma enorme fila de crianças esperando por vaga em creches e que existem inúmeros casos de mães que precisam trabalhar, não podem contar com os pais dessas crianças e não têm com quem deixar seus filhos é possível imaginar quantas crianças em risco existem nessa cidade e que só saberemos quando a polícia for acionada por uma denúncia anônima ou quando elas se tornarem manchetes de jornal por algo terrível que lhes possa acontecer.

A questão que deveríamos nos fazer é porque essa mulher não conseguiu uma vaga na escola? Por que foi preciso que o Conselho Tutelar entrasse em ação para que essa vaga pudesse ser encontrada? Por que não cumprimos a obrigação constitucional de colocar todas as crianças de 0 a 6 anos em creches? Por que não conseguimos uma escola integral para aquelas mães que precisam trabalhar?

Mais que oferecer orientação a essa mãe, que pela apuração feita trata muito bem de seu filho, o que o Estado ou o Município deveriam dar-lhe era simplesmente uma vaga na escola. E quem deveria prestar esclarecimentos deveriam ser as autoridades competentes que não conseguiram nem essa vaga nem as várias outras que deveriam estar disponíveis em nossa cidade.

E o pai dessa criança, é claro, também seria merecedor de algumas “orientações” mais incisivas por parte de nossa Justiça.