Se não chega a ser polêmica, essa decisão também está longe da unanimidade. É difícil reconhecer um direito a quem não se importou com o direito dos outros e acabou infringindo a ordem social. Não é nada fácil para um “suado” trabalhador brasileiro, que muitas vezes é recompensado por um minguado salário mínimo, aceitar que um presidiário, alguém que preferiu um caminho mais fácil e desonesto para conseguir as coisas, venha depois de tudo isso a receber um valor que pode chegar a ser maior do que o seu, somente porque ele era contribuinte quando cometeu o delito e deixou do lado de fora da prisão uma ou algumas crianças.
Para esse trabalhador, que não recebe mais ou menos pelo número de filhos que tem, e que às vezes precisa dobrar sua jornada de trabalho para dar um pouco mais dignidade a sua família, é realmente difícil compreender e aceitar essa situação, já que o preso não se aposentou por tempo de serviço, nem muito menos foi impossibilitado de trabalhar por qualquer problema relacionado a sua saúde, mas simplesmente foi privado de sua liberdade por oferecer risco ao equilíbrio social.
Para alguns, essa situação é inadmissível, já que além de onerar a sociedade em função do custo que sua manutenção gera ao Estado, agora o preso estaria tendo também uma regalia que mais se parece com uma recompensa pelo que fez do que a merecida punição que deveria receber.
É claro que é preciso considerar as aflições vividas pelos filhos de presidiários, crianças que não têm culpa em relação ao delito cometido pelos pais e que não poderiam ser penalizadas por seus desatinos. Se já não bastassem o estigma e o sofrimento de verem o próprio pai (ou a mãe) trancafiado em uma prisão, há que se considerar também os problemas financeiros que devem perpassar essas famílias.
Mas a questão é realmente complicada. Se houvesse em nosso país um pouco mais de equidade social, com uma distribuição de renda um pouco mais equilibrada e com trabalhadores recebendo salários mais condizentes com o custo de vida atual, considerando os mínimos padrões de qualidade de vida considerados pela ONU (Organização das Nações Unidas), talvez nem estivéssemos discutindo essa questão. Ela seria tacitamente aceita, não em função dos direitos dos presos, mas pela simples razão de amenizar os problemas das famílias desses presos, em especial as crianças.
O problema é que nossa sociedade ainda não está nesse patamar de equilíbrio. O trabalhador honesto está com imensas dificuldades para proporcionar a seus filhos aquele mínimo de bem-estar que todos os pais conscienciosos gostariam de oferecer, levando-se em consideração a saúde, o lazer, a moradia e a educação.
Nesse sentido, fica realmente difícil convencer alguém a aceitar esse benefício, mesmo que em suas bases existam conceitos verdadeiramente dignos e humanitários.