Há músicas que celebram a beleza do encontro pleno entre um homem e uma mulher. São melodias de rara inspiração. Em contrapartida, as mais lindas canções costumam modular um namoro (ou o equivalente) desfeito. Chegada a hora da partida, tudo fica muito custoso para ser explicado. Mesmo porque, esse momento não vem de supetão. O desgaste comumente começa muito antes das palavras finais. Ainda assim, com ambas as partes tendo já o conhecimento do fim iminente, as explicações parecem mais complicar do que simplificar o fim da situação. De acordo com os manuais de psicologia, o homem tem muito mais dificuldade para terminar um namoro. A mulher, ao contrário, põe o coitado para escanteio na base do chutão mesmo. E ainda o manda para bem longe, só para ganhar um pouco de tempo a mais na jogada.
Uma prova do exacerbado embaraço masculino para terminar um relacionamento está na letra da música norte-americana By the time I get to Phoenix (A hora que eu chegar a Phoenix, capital do Arizona/EUA e que tem esse nome em homenagem a fênix, ave mitológica que renasce das cinzas), de Jimmy Webb. Essa canção do final da década de 1960 tem uma beleza incontestável. Vários cantores a interpretaram ao longo dos últimos 40 anos. A primeira gravação foi de Glen Campbell. Entretanto, o sucesso veio mesmo na voz de Johnny Rivers. A interpretação de Frank Sinatra é impecável. Uma apresentação antológica de Isaac Hayes introduz explicações declamadas do trajeto percorrido.
As linhas melódicas da letra se agrupam em três estrofes. Cada uma delas representa uma cidade norte-americana e uma lembrança do namorado fujão, a respeito de uma possível reação da namorada que ficou para trás. O verso inicial repete o título: “A hora que eu chegar a Phoenix”. A divagação vem na sequência: “‘Ela estará acordando/ Ela vai encontrar o bilhete/ Que eu deixei pendurado na porta/ Ela então vai rir da parte/ Em que eu digo que vou embora/ É que eu deixei essa garota/ Muitas vezes antes”.
Após alguns inconfundíveis acordes de guitarra, a segunda parte da letra relata: “A hora que eu estiver em Albuquerque (maior cidade do Novo México/EUA) / Ela já estará trabalhando/ Provavelmente quando parar para o almoço/ Ela vai telefonar para mim/ Mas ela apenas escutará/ O telefone tocando, tocando, tocando.../ Nada mais que isso”.
A terceira e última estrofe da letra conclui o desespero: “Por perto da hora que eu chegar a Oklahoma (“Oklarroma”, quanta sonoridade tem o nome da capital e do estado!)/ Ela estará dormindo/ Vai virar lentamente para o lado/ E chamará pelo meu nome/ Ah! Ela agora vai chorar/ Justamente por pensar que eu verdadeiramente a deixei/ Por muito tempo/ Eu tentei dizer a ela que iria partir/ Mas ela não sabia que eu realmente a deixaria/ Ela simplesmente não sabia”. Enquanto houver uma triste partida, fica a esperança de um alegre retorno. Não só entre namorados. Mas em todos os aspectos da vida.
Antônio Araújo
Articulista e professor