O Senhor nos reúne em sua casa, que é a comunidade onde somos acolhidos, batizados, irmãos e irmãs, ouvintes da Palavra, proclamadores das maravilhas da salvação, aprendizes das partilhas e do perdão, sempre enviados em missão
A assembleia é convocada para ser enviada. A comunidade, a casa de Jesus, comprometida com o bem e a fraternidade, vive em tempos de ganância, violência, corrupção, impunidade, enfim, um rosário de coisas que fazem o povo sofrer. E, ainda, tantas vezes, é vítima de calúnias e suas lideranças são ameaçadas, perseguidas e até mortas violentamente. A Palavra de Deus vem ao encontro das comunidades e as motiva a continuar na luta e a melhorar as condições de moradia, de emprego, de salários e de pão para todos.
O livro do Gênesis lembra o pecado de Adão e Eva. A palavra Adão vem a significar homem. Seu pecado, como o nosso, nos dias de hoje, é: o orgulho de ser igual a Deus, querer ser seu próprio deus ou fabricar deuses à sua imagem e semelhança. Quando os olhos de Adão se abrem, constata que está nu, ou seja, desprotegido e com medo diante de Deus.
Mesmo no pecado e no afastamento, Deus não o rejeita, mas castiga a serpente, símbolo do mal e mais tarde identificada com o demônio, autor e princípio de todo o pecado. No futuro, a des- cendência humana vai esmagar a sua cabeça, uma referência a Jesus Cristo que vence o demônio pela sua morte e ressurreição.
O mal, portanto, não vem de Deus, mas do homem. Deus fez todas as coisas perfeitas, mas os humanos subvertem seu plano, pensam conseguir a felicidade dando asas às suas paixões e interesses, virando as costas para Deus.
Homem e mulher “comeram” do fruto, isto é, deram livre curso à ganância e ao orgulho, tornando-se eles próprios o critério para decidir o que é bem e o que é mal. Com isso, as pessoas acham que podem fazer o que bem entendem e “salve-se quem puder”. E a sociedade torna-se um campo de batalha, onde reina o medo de ser devorado ou explorado pelo outro (“fiquei com medo, porque estava nu e me escondi”). Medo, nudez e fuga são esconderijos quando as pessoas são lobos umas para as outras. E ninguém quer ser responsável por seus atos e manipulações. Adão culpa Eva e Eva responsabiliza a serpente. Medo e acusação estão introjetados nas relações humanas.
Ao invés de optar por colocar limites ao desejo de “comer”, o homem deixou-se possuir pelos seus desejos e paixões e permitiu que a serpente decidisse em seu lugar, tornando-se a pedra de tropeço nos caminhos da verdadeira felicidade. Deus, no entanto, aponta um caminho de esperança: a certeza da vitória está na descendência justa, que fere mortalmente a cabeça da serpente. Deus quer uma geração nova que será a família de Jesus (conforme o Evangelho). Uma família, comunidade que lute contra tudo o que divide e escraviza pessoas. Uma comunidade de irmãos, de mães e de filhos, que faz do relacionamento fraterno e amigo o centro de suas alegrias e esperanças.
LEITURA
A carta aos Coríntios, escrita em momento difícil da vida de Paulo, mostra o “espírito de fé”, a força carismática que o leva a testemunhar sua fé, sustentada pela esperança do encontro com o Ressuscitado no final da caminhada. Enquanto o homem exterior vai se deteriorando, o interior se renova para Cristo.
Da aflição e dos sofrimentos atuais, passamos à glória eterna. Isto tem sentido quando lembramos o relacionamento tenso de Paulo com a comunidade de Corinto, onde havia numerosos adversários que faziam de tudo para criar-lhe complicações e atrapalhar sua vida de missionário dedicado e carinhoso.
Os bens materiais não podem ser considerados como os únicos objetivos na vida. O homem se serve deles para poder viver e não para acumular riquezas e poder. A vida presente não é definitiva, tem um começo e tem um fim. Por isso, Paulo se alegra. Quando deixarmos o nosso corpo, receberemos outro nos céus, não feito por mãos humanas.
EVANGELHO
O Evangelho de Marcos tem uma solicitude básica que procura responder à pergunta ‘quem é Jesus?’ Ele não apresenta apenas resposta teórica, mas fundamentada no seguimento e engajamento nas práticas de Jesus. Na perícope de hoje, trabalha a resposta através dos exorcismos e indica como as pessoas vão se definindo contra ou a favor de Jesus.
Marcos apresenta Jesus, tantas vezes, no meio da multidão, onde Ele se sente “em casa”, ao que parece. Nesta casa, Ele vai mostrando quem é. A casa de Jesus, local da sua morada, repouso do seu coração e missão, é o lugar onde se reúnem os sofredores e os discriminados de toda espécie, a ponto de Ele e seus discípulos não terem tempo para comer e dormir. Mas a missão de Jesus encontra obstáculos de toda ordem, mesmo no seio da sua família. Os seus parentes saem de casa para agarrá-los e o chama de louco. Procuram recolhê-lo.
Realizar as obras de Jesus e proclamar seu Evangelho é muito perigoso, pois mexe com muita gente, mina as seguranças e relativiza as instituições religiosas do tempo. A arma dos inimigos é desmoralizar ou rebaixar quem age desse jeito. E os doutores da lei vêm como enviados de Jerusalém, interessados em não mudar nada. Toda situação econômica e religiosa lhes era muito favorável. Acusam Jesus de endemoniado e parceiro de satanás, príncipe dos demônios. E o pecado deles é muito grave. Fecham-se em sua ganância e prepotência. Estão cegos pelo “brilho” do seu orgulho. Não são capazes de ver e ouvir os sinais dos tempos, nem sequer de dialogar com quem vinha com outra proposta e outro projeto de sociedade, de economia e de convivência entre as pessoas.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br