09 de julho de 2026

Histórias do historiador


| Tempo de leitura: 2 min

Os acontecimentos são muitos, os anos se amontoam, por isso, tantas vezes confundo datas, nomes, números, lugares. Mas estou quase certo de que foi em 1997 que presenciei o que vou relatar.

José Chiachiri Filho e eu servíamos ao governo de Gilmar Dominici, ambos lotados no antigo Ginásio Champagnat. Mania dos dirigentes daquela época - marcavam-se reuniões com muita freqüência, todo mundo se atrasava, perdíamos um tempo danado, ouvindo planos, projetos e orientações diversas. Geralmente tais encontros aconteciam na respeitável capela do antigo colégio religioso a qual, ainda hoje permanece em obras, ora por restauração de seu altar, de sua abóbada, de seus anjos e de seus santos.

Lembro-me especialmente de uma dessas reuniões.

A capela estava superlotada. Os oradores, obedientes à praxe, estavam atrasados, o calor estava insuportável, o cheiro de suores empestava o ambiente. Nessa hora, Chiachiri quebrou o resto de sossego, se é que ainda existia algum naquele lugar que semelhava uma cozinha com o fogão de lenha aceso ao meio dia. Nosso historiador acendeu um cigarro, começou a soltar baforadas para o alto. Uma mulher gritou repreensão.

-Ô Chiachiri, tenha paciência. Respeite ao menos a igreja.

- Estou respeitando. Isto aqui é incenso.

O tempo vai passando e continua a me impressionar alguns predicados do Chiachiri: sua rapidez mental, seu humor, sua capacidade de enxergar, apesar da cegueira.

De sua agudeza mental e de seu estranho humor ele deu nova prova semana passada.

Acompanhados por membros da Academia Francana de Letras, Chiachiri, Carlos Assumpção, representantes de Alfredo Palermo e eu fomos receber homenagem na cidade de Ribeirão Preto.

Antes do início da cerimônia, apresentavam-nos escritores daquela cidade e da região. Era-me impossível guardar o nome das pessoas que apareciam, davam-nos um abraço, cumprimentavam-nos, desapareciam no salão enorme. De repente, Chiachiri abraçou alguém efusivamente, apoiou ambas as mãos em seus ombros, repetiu muitas vezes em voz muito alta.

- Nossa! Que maravilha! Como você remoçou! Você está outro, muito remoçado!

Os companheiros ficamos boquiabertos, perguntando-nos se o nosso historiador conhecia, de fato, a pessoa que cumprimentara tão entusiasticamente.

Boquiaberto, eu engolia dúvidas.

- Mesmo que ele conheça o homem... Como é que ele pode dizer que o sujeito remoçou? Afinal, ele enxerga muito menos que eu que não enxergo nadinha de nada.