08 de julho de 2026

O primeiro meio


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A existência de quase tudo se pauta pela dualidade. Via de regra, uma coisa não existe sem a outra. A vida só se torna possível pelo fato de existir a água e a terra. Dentre esses dois elementos naturais, qual tem mais importância para os seres vivos?

Apesar de uma substância depender da outra, a água possui mais autonomia vital. Por natureza, o número de seres com vida aquática supera o daqueles de existência terrestre. Na outra vertente racional, terra sem água se torna improdutiva. Nada nasce na sequidão.

A possibilidade de vida está na junção destes dois meios naturais, entrando o ar como tempero. Esse trio compõe o ambiente apropriado para a existência. O equilíbrio entre água e terra viabiliza a harmonia vital e ambiental em todos os sentidos.

Dessa conjunção natural surge a vegetação. Quanto mais verde, maior se torna a presença de água. O inverso provoca uma aceleração desproporcional. Por menor que seja o desmatamento, o rombo na conservação aquática ganha volume imenso e afeta a natureza.

O nome das coisas acaba sendo sintomático. Os índios da tribo omágua nomeiam a ideia de homem (enquanto corpo dos seres humanos) por água. No tupi também se usa ‘ava’ (água) para designar a morada do espírito, da alma. Para os silvícolas, a preservação do meio, ou seja, do ambiente, começa pelo cuidado da própria estrutura física da pessoa.

A cultura indígena valoriza a preservação do corpo. A partir dessa concepção, a existência corporal passa a ser o meio mais importante da cadeia de vida. Um corpo são, acompanhado de mente sã, passa a ter naturalmente atitudes de proteção para com o ambiente circundante.

Sem o ataque humano desregrado, a água, a terra, as árvores e o ar ganham comunhão profunda. O quarteto vira um emaranhado divino capaz de ter vida própria e renovável. Além disso, propicia as condições adequadas para que o ser humano possa sobreviver debaixo do sol.

No entanto, o homem atrapalha constantemente as condições naturais de vida. A começar pelo seu próprio corpo, seja fumando, bebendo ou inalando substâncias tóxicas. Depois, por tabela, parte também para a danificação da natureza terrena.

Em termos ecológicos, o que esperar de quem empunha um cigarro entre os dedos, enquanto discursa sobre a necessidade de se adotar uma postura de desenvolvimento sustentável para o planeta? Se o fumante está acostumado com a agressão do seu primeiro meio, que é o corpo, uma queimada para ele não tem poder de irritar as vias respiratórias.

E daquele que segura o copo com uma bebida qualquer rumo à boca, falando ao mesmo tempo da necessidade de se adquirir atitudes politicamente corretas em relação ao ambiente tão degradado, aguardar o quê? Quem não consegue drenar nem os devastadores líquidos etílicos que circulam pelos caminhos de seu corpo rumo ao cérebro, deixa de ter moral para pregar contra a poluição.

Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br