Um dia após o quadro O Que Vi da Vida com a apresentadora Xuxa, 49, ser exibido no Fantástico, duas denúncias de abuso sexual contra crianças foram registradas na Delegacia da Mulher (DDM) em Franca. Em uma delas, uma criança de 7 anos informou ter sido estuprada pelo próprio irmão e na outra, uma adolescente de 12 anos denunciou ter sido molestada pela “namorada”, que era maior de idade. Desde então, não houve outras denúncias.
Os dois casos, que estão sendo investigados, se somam aos outros 40 já registrados em Franca neste ano, uma média de oito por mês. Desses, somente um foi arquivado, 17 foram encaminhados para inquérito e 22 estão sendo investigados pela DDM. Em todo o ano passado, houve cerca de 80 denúncias, média de 6,6 por mês.
O efeito causado pela entrevista da apresentadora, que revelou ter sido abusada sexualmente durante a infância e adolescência, repercutiu em todo o país. De acordo com os dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, responsável pelo Disque 100, a procura pelo serviço cresceu 30% em relação à semana anterior ao quadro do Fantástico. Logo após a entrevista, o serviço recebeu, em apenas dois dias, 285.051 ligações - o disque 100, no entanto, não contabiliza apenas denúncia de casos de abuso ou exploração sexual contra menores; recebe também denúncias de outros gêneros de violações aos direitos humanos.
Especialistas dizem que ainda existem milhares de crianças e adolescentes que, como Xuxa, preferem se calar por muitos anos em vez de contar o seu problema para a própria família ou denunciar o abusador às autoridades.
“Em primeiro lugar, é importante lembrar que, durante a infância, as principais referências das crianças para todo tipo de atenção e cuidados são os adultos que a cercam, pais, familiares e conhecidos próximos. Nas situações de abuso, seria difícil imaginar que a vítima pudesse procurar ajuda para uma situação que talvez ela nem reconheça como abusiva e violenta, mas como um acontecimento natural em seu convívio”, disse a psicóloga clínica e especialista em análise do comportamento Marluce Fagundes Carvalho, de Franca.
Outra razão para não haver mais queixas formais contra abusadores é o receio aos trâmites legais que acontecem logo após a denúncia (veja quadro nesta página) e que podem revitimizar a criança.
“Quando o caso vem à tona, ele tem consequências que vão além das previstas no momento da denúncia. Nós já tivemos casos em que a criança teve de ser retirada do convívio familiar, pois não tinha a segurança necessária. Além disso, a sociedade e o poder público devem estar atentos para não revitimizar a criança”, disse Roberta Pucci, coordenadora do Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social).
Segundo os especialistas, dentre os procedimentos necessários para o processo, um dos que apresenta maior embaraço é o exame de corpo de delito. Perante a Justiça, o exame, no entanto, é encarado como uma prova fundamental em casos de abuso sexual. Mesmo quando o abuso aconteceu há muitos anos o exame é realizado, pois sem ele a defesa pode anular o processo de acusação.
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