11 de julho de 2026

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Pracuch, que foi fundamental na transformação da Samello em grande indústria, diz que Franca tem muitos ‘copiadores’

Ele gosta de dizer que é sapateiro. O motivo é simples: não quer se confundir com alguns profissionais que atualmente abusam da bondade semântica do termo consultor. E nisso não vai nenhuma falsa modéstia. Apesar de ainda hoje, no alto de seus 85 anos, Zdenek Pracuch ser um dos mais conceituados gurus do setor calçadista brasileiro, sua história prova que ele é mesmo um sapateiro. E para Franca talvez seja um dos mais importantes, pois foi figura fundamental na transformação da Samello em uma das maiores empresas de calçado do Brasil.

Nascido em Bruntar, na antiga Tchecoslováquia, Pracuch estreou em uma fábrica de calçados aos 14 anos de idade. Mas não era uma fábrica qualquer. Era a Bata Shoes Corporation, fundada em 1894, em Zlin, na Tchecoslováquia. Uma empresa que há quase 120 anos está nas mãos da mesma família, que se profissionalizou e que atualmente produz cerca de 500 milhões de pares de calçados por ano, segundo Pracuch, com mais de 106 fábricas espalhadas por 83 países, apresentando ainda cerca de 6 mil lojas próprias e 4 mil lojas parceiras.

Mas ele não foi apenas funcionário, foi também aluno. Com um novo conceito em administração, a Bata se preocupava com a educação e o treinamento de seus funcionários, inclusive com a educação superior, algo bem diferente do que acontecia e ainda acontece em nossas indústrias.

A escola tinha como objetivo final a formação de técnicos, engenheiros e administradores especializados em calçados. “Entrar na escola da Bata era mais difícil do que passar no vestibular do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica)”, diz Pracuch.

Lá ele fez o equivalente ao nosso antigo ginásio e também o ensino médio. Estudava em um período, aprendendo os conteúdos comuns a todas as escolas, e trabalhava no outro, especializando-se na produção de calçados.

“Era uma disciplina de exército. Um uniforme desabotoado era motivo para expulsão. O dinheiro que recebíamos, só podíamos pegá-lo com autorização do educador”, recorda-se Pracuch.

Em 1948, porém, sua carreira na Bata foi interrompida. Democrata convicto, precisou fugir de seu país quando o Golpe de Praga levou os comunistas tchecos ao poder.

“Quando eles começaram a prender quem era contra o regime, eu fugi. Saímos eu e minha futura mulher levando apenas a roupa do corpo.”

Sem dinheiro e sem planos, acabaram na Alemanha, em um campo de refugiados da ONU (Organização das Nações Unidas). Sem saber o que fazer, se inscreveram em várias missões diplomáticas de países que buscavam trabalhadores, entre eles o Brasil.

“Como a missão brasileira apareceu primeiro, resolvemos não perder tempo”, lembra.

Em 1949, depois de uma longa viagem de navio, ele e sua futura mulher desembarcavam no Rio de Janeiro. Por motivos que até hoje ele ignora, foram enviados para Ponta Grossa, no Mato Grosso do Sul, e lá começaram a procurar trabalho.

Pracuch sabia que já havia uma fábrica da Bata no Brasil e deu um jeito de entrar em contato com eles. Como era ex-aluno da escola da empresa, não teve dificuldade em ser contratado.

“Ter se formado nessa escola abre muitas portas na área calçadista em todo o mundo.”

Pracuch foi então para Batatuba, em Piracaia, interior de São Paulo, uma cidade criada especialmente a partir do projeto industrial da empresa tcheca. Como não sabia muito bem o português, precisou voltar para a linha de produção. Como se fosse um principiante, começou como cortador de vaqueta (couro).

Porém, logo que prosperou no conhecimento da língua, precisou arrumar as malas novamente. Em 1951, foi enviado como contador para Bataguassú, outra “cidade-indústria” do grupo, no Mato Grosso do Sul.

Seis anos depois, em 1957, ele já mostrava que o sangue de “andarilho” corria literalmente por suas veias. Arrumou suas coisas e rumou para Salvador, onde seria diretor industrial de mais uma fábrica da Bata.

FRANCA
E foi mais ou menos por essa época que começou sua história com Franca. O responsável foi Wilson Sábio de Melo, um grande amigo e um dos maiores empresários que Franca já teve, segundo Pracuch.

“O Wilson era uma pessoa inquieta e com visão de futuro. Ele sabia que a Samello precisava dar um salto.”

Para conseguir dar esse salto, Wilson foi conhecer a fábrica da Bata na Tchecoslováquia. Lá ele viu como funcionava a esteira, uma ferramenta de produção que Thomas Bata, fundador da empresa, havia adaptado da Ford.

“O Thomas Bata chegou a empregar-se como operário na Ford para aprender como funcionava a esteira e como ele poderia adaptá-la para o calçado”, diz Pracuch.

Quando Wilson conheceu a forma de produzir e administrar da Bata ele disse que aquilo seria impossível no Brasil. Como resposta, porém, ouviu que não apenas era possível como já funcionava na cidade de Salvador.

“Quando voltou ao Brasil, Wilson foi direto para lá. Ele queria comprar a fábrica, mas não deu certo”, diz Pracuch.

Em 1959, no entanto, Pracuch voltou para São Paulo. Ao ficar sabendo, Wilson foi procurá-lo. Depois de algumas conversas, combinaram uma visita do tcheco a Franca.

Ele então experimentou o primeiro dos muitos Cometas que o transportariam para Franca nos anos seguintes. A viagem era longa e cansativa e para piorar ainda não havia asfalto a partir de Batatais.

Mas Pracuch ainda teve o prazer de se hospedar no antigo Hotel Francano, que foi demolido pouco depois de ele conhecer a fábrica da Samello. Sob seu ponto de vista, estava tudo muito errado: o layout da fábrica e a concepção de gestão estavam completamente ultrapassados. Ele olhou tudo aquilo e começou a pensar no próximo horário de ônibus para São Paulo...

Mas Pracuch não resistiu à conversa de Wilson. “Ele tinha uma incrível capacidade de convencimento. Chegou a chorar na minha frente, dizendo que somente eu poderia ajudá-lo a transformar a Samello.”

Resolveu, então, experimentar. Vinha duas vezes por semana para Franca. Fizeram um plano para reestruturar a empresa e começaram a implementá-lo. Um ano mais tarde, porém, Pracuch estava exausto. Pensou em parar, mas Wilson lhe fez uma proposta irrecusável.

“Era algo que eu não ganharia em lugar nenhum. Quarenta salários por mês, mais um bônus de 2 milhões de cruzeiros no final do ano e ainda morava em um apartamento no Curtume Tropical.”

Junto com sua família, ele viveu em Franca por aproximadamente 6 anos, tempo suficiente para remodelar a Samello, modernizá-la e ajudar Wilson e seus companheiros a torná-la uma das marcas de calçados mais conhecidas do Brasil, além de fábrica exemplo para várias outras empresas que surgiram posteriormente na cidade e berço para diversos empreendedores francanos.

Para alcançar esse sucesso, Pracuch mudou o layout da fábrica e a forma de gestão. Criou, juntamente com Wilson, um plano quinquenal de desenvolvimento e buscou iniciar a empresa nas exportações e aumentar o número de lojas próprias.

Uma história interessante desse período foi seu encontro com o empresário francano Delmo Poppi. Ele queria vender uma esteira manual para Wilson, que obviamente consultou Pracuch. Este imediatamente disse que não seria recomendável, pois precisavam de uma esteira mecanizada, que não dependesse dos humores humanos.

“O Delmo ficou louco da vida. Saiu quase batendo porta. Acho que, se pudesse, ele partiria para a briga comigo”, se diverte Pracuch.

Mas isso acabou sendo uma dica importante para Delmo, segundo Pracuch, pois o industrial rapidamente conseguiu uma patente para produzir no Brasil uma esteira mecanizada, uma estratégia que ajudou a empresa dele a crescer.

“Hoje somos muito amigos. Eu já levei máquinas da Poppi até para a Rússia e ele me disse que já vendeu mais de duas mil dessas esteiras.”

Em 1966, Pracuch decidiu voltar para a Bahia, onde ficou até 1973, quando começou a trabalhar com consultoria e exportação. Por essa época, foi convidado para trabalhar na F. Hollander A.B., na Suécia, onde assumiu o departamento de couros voltado para calçados.

Viveu por 7 anos em Estocolmo, período em que viajou por todo o mundo e que lhe proporcionou uma boa parte de suas 6,6 mil horas contadas de voo, sem falar nas milhares de horas de ônibus e automóveis.

OITO LÍNGUAS
Atualmente, o tcheco vive em Itajubá. Aos 85 anos de idade, esse consultor que fala e escreve em cinco idiomas (tcheco, português, inglês, russo e alemão) e compreende bem outros três (servo-croata, polonês e sueco) ainda pega seu carro e viaja 460 km até Franca sem o menor problema. Apesar de um câncer no intestino que lhe fraquejou um pouco as pernas, em função da quimioterapia, Pracuch continua firme em sua vida de “sapateiro”.

Suas idéias continuam atualíssimas, pois ele não deixou de acompanhar as mudanças e as inovações que aconteceram na indústria calçadista.

O que mudou foi sua paciência. Pelo conhecimento que tem e pela idade que atingiu, já não precisa aguentar qualquer coisa. Em função disso, diz o que pensa.

Continua achando que Franca é uma cidade com grandes empreendedores, mas que são, ao mesmo tempo, grandes copiadores. Não consegue entender como a maioria dos empresários daqui ainda insiste no que ele chama de erro e continua pensando em quantidade. Continua focado em produção quando o principal problema do setor calçadista hoje é a comercialização.

“Não há muito que inovar em termos tecnológicos. A inovação hoje está na comercialização. Franca ainda está nas mãos dos representantes comerciais, que também são uma raça em extinção”, dispara Pracuch.

Em função dessas afirmações, alguns empresários acreditam que ele seja um pouco catastrofista, um adjetivo com o qual ele não se importa.

Com a tranquilidade de quem se dedicou durante 71 anos à indústria calçadista, Pracuch diz que vai continuar com suas “catástrofes”, seja pela consultoria ou pela coluna que escreve no Comércio da Franca há mais de 3 anos.

“Tenho até orgulho desse apelido. Tudo que venho dizendo aos empresários brasileiros tem acontecido. E pode ter certeza, muitas empresas vão fechar”, conclui Pracuch.