O desenvolvimento sustentável é o paradigma dos nossos tempos, amparado pela necessidade de preservar a natureza para gerações futuras e, de outro lado, dar condições econômicas e sociais dignas para todos que vivem no presente, equação realmente complicada de equacionar, mas onde os governos municipais possuem papel relevante como indutores e formuladores de políticas públicas desenvolvimentistas.
Uma das ferramentas que muitas cidades descobriram é a qualidade ambiental, interligada de um lado ao saneamento e, de outro, ao patrimônio cultural e ambiental. Cidades industriais relativamente antigas como Franca deveriam tirar partido desta condição. Para isso, a cidade teria que modificar profundamente sua relação com o patrimônio edificado, de maneira a ampliar sua competitividade. Preservar o patrimônio cultural que representa a longa e rica história da cidade não é incompatível com os anseios por uma cidade moderna, competitiva e agradável para se viver. A constante destruição de prédios com interesse histórico e cultural revela o fracasso da preservação histórica em Franca e evidencia duas coisas: a apatia da sociedade local diante deste fenômeno e a inoperância e omissão do poder público, que nunca se interessou em elaborar uma política pública consistente para o setor. Os poucos imóveis tombados sequer estão sendo objeto de adequada conservação de características que os levaram a ser ‘preservados’.
Temos assistido a um verdadeiro festival de destruição das características originais de edificações importantes e seminais para a história e a cultura locais, como a AEC e o ginásio do Clube dos Bagres, assim como a descaracterização de prédios como o da fábrica de calçados Jaguar, a primeira da cidade, cuja fachada foi tombada apesar de totalmente transformada em relação ao prédio original, ou mesmo o prédio do antigo colégio de Lourdes, hoje pertencente ao governo do Estado, onde sequer as cores originais estão sendo mantidas e as esquadrias de madeira das janelas apodrecem à vista dos transeuntes.
Ora, os recursos que o patrimônio cultural poderia trazer ao desenvolvimento da cidade, desde que adequadamente conservados, seriam imensos, pois poderia dar suporte a novas atividades econômicas, ligadas à chamada economia criativa, como a culinária, a própria indústria do vestuário e da moda e ao turismo urbano, envolvendo novos empreendedores locais permitindo, como diz o professor José Eli da Veiga, ‘a construção de uma imagem identitária do território’, que valorizaria os produtos ligados ao polo industrial calçadista, meta buscada pelo próprio sindicato patronal do setor. A Sapataria da Pizza é um exemplo destas possibilidades.
Porque as empresas de Franca não se sensibilizaram ainda para ajudar a preservar o verdadeiro patrimônio histórico da cidade?
É porque falta ainda uma visão generosa de futuro às nossas políticas públicas, pois a preservação da memória local é uma das mais importantes obras de cidadania, que dá sentido ao viver em coletividade, ao mesmo tempo em que este trabalho, simbolicamente, pode ser uma forma de conectá-las definitivamente a um território específico, o desta cidade que todos queremos cada vez melhor e mais justa para todos.
Mauro Ferreira
Arquiteto, bolsista da FAPESP e pesquisador do LabDES da UNESP - Franca