Na segunda década do século XX nascia em Uberlândia a menina Clara, cuja avó, também de nome Clara, nascera no século XIX. Clara, só no nome
Era mulata, dizem que filha natural de figurão do café daqueles tempos. O pai a reconheceu, pagou-lhe os estudos, ela se casou com outro mulato, de origem idêntica, filho de fazendeiro da família Junqueira, da região de Santa Rita do Passa Quatro, rico pra chuchu. Deu-lhe o sobrenome, inclusive.
A avó xará da netinha Clara, feliz e honrada com a homenagem, foi a Uberlândia visitar a recém-nascida, levou-lhe, como presente, o par de brincos de rubi, que imediatamente foi posto na orelha da menininha. Minha mãe, Clara, somente os tirou no dia de seu casamento com meu pai, carregando-o, por dezoito anos. Guardou-os e, quando eu nasci, foram colocados nas minhas orelhas. Usei-os dez anos: só os tirei quando ganhei outro par, de pérolas. Mamãe os guardou, prometendo dá-los à neta que nascesse primeiro, de um dos seus quatro filhos. Quando nasceu Luciana, minha primogênita, os brincos voltaram para minha casa. Era a terceira geração a usá-los. E ela os usou durante os primeiros seis anos. Guardei-os: seriam de outra filha, se eu a tivesse. Não tive, mas nasceu a sobrinhazinha por quem eu me apaixonaria, filha do irmão caçula, que eu ajudara a criar e de quem era madrinha: Maria Helena. Quarta geração, e os brincos, ali, firmes. Maria Helena foi avisada: caso nascesse uma neta, filha de um dos meus filhos, os brincos deveriam voltar, tá certo? Tá.
Passaram-se sete anos e a primeira nora anunciou gravidez. Foi festa para todo mundo, menos para Maria Helena: ao ouvir a notícia, colocou as duas mãozinhas nas orelhas e disse apavorada: eu não vou tirar os brincos! E nem precisou: a mãe teve pena de furar as orelhas do bebê, os brincos podiam ficar com a prima. E ficaram por mais alguns anos. Muito depois ela os tirou e devolveu. Mas aí já havia nascido outra neta, que também tinha o mesmo nome de minha mãe, sua bisavó, e da minha bisavó, que nem parente dela era mais. Era a terceira Clara na saga da grande família, cinco gerações distante da minha bisavó. Tinha orelhas furadas: ofereci para a mãe os brincos e contei a história deles. Ela gostou da idéia e solenemente fui levar a pequena jóia para minha neta. Estão com ela ainda hoje. Quando digo que poderão ser usados pela filha da minha filha, se ela um dia a tiver, minha neta reclama: os brincos são mágicos, ela acredita.
Um dia decidi pôr no papel a trajetória dos brincos no tempo e no espaço e as pessoas em cujas mãos, digo orelhas, eles estiveram: a ‘tataravó’ Clara, a bisavó Clara, a avó Lúcia Helena, a tia Luciana, a prima Maria Helena e Clara, a neta. Virou livro, de edição e tiragem únicas. Consegui fotos de todas e, a partir de minha mãe, com todas usando os brincos, para provar a veracidade do longo percurso. Colei-as no papel e, ao lado, escrevi pequena biografia de cada uma, descrevendo-as, contando histórias sobre elas e sobre os períodos nos quais elas viveram. Minha bisavó usava chapéu e luvas, só comia sobre toalhas de linho, usava talheres de prata no cotidiano e sua louçaria tinha cômodo especial para ser guardada. Minha mãe saiu à sinhazinha Junqueira, como era chamada. Eu perdi a pose e a circunstância, mas mantenho atávicas e pequenas manias das antecessoras. Luciana lava, passa, cozinha e faz limpeza na vida que escolheu, em outro país. Maria Helena estuda fora. À Clara, minha neta, compete dar prosseguimento à história da trajetória do par de brincos que atravessou um século e pode ir além, pendurado em outras orelhas das nossas descendentes. O que eles viram no passado? O que verão no futuro? O que eu não faria para saber...
ASPAS
‘Aprendi: que ignorar os fatos não os altera; que quando você planeja se nivelar com alguém, está permitindo que essa pessoa continue a magoar você; que o Amor, não o Tempo, é que cura todas as feridas; que ninguém é perfeito até que você se apaixone por uma pessoa; que a vida é dura, mas eu sou mais ainda; que as oportunidades nunca são perdidas: alguém vai aproveitar as que você perdeu; que quando o ancoradouro se torna amargo a felicidade vai aportar em outro lugar; que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito; que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorrem durante a escalada; que quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer.’ (William Shakespeare)
RESPEITO
Na entrada dos parques ingleses – usados para passeios ou prática de esportes leves – há armação de ferro, patrocinada por empresa ligada a bichos de estimação que oferece, gratuitos, saquinhos plásticos para recolher as fezes dos bichinhos que foram levados para passear. Há latões diferenciados para o depósito dos saquinhos cheios. No Poliesportivo, que usamos para caminhadas, voltamos para casa com os tênis sujos e malcheirosos porque a maioria dos donos dos cachorros que lá são levados, usam o espaço como latrina dos seus animais, sem qualquer respeito pelo espaço público. Nada contra os animais. Só contra a grosseria dos donos.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br