O nome de Hélio Rubens Garcia confunde-se com o basquete de Franca. A despeito da importância dos precursores, Juca Vilhena e seu próprio pai, Chico Cachoeira, foi Hélio e sua geração que alargaram as fronteiras da fama, transformando a cidade na capital do basquete brasileiro. Claro que é impossível não mencionar o grande Pedroca, principal articulador do desenvolvimento do basquete francano, mas foi principalmente com Hélio Rubens que o basquete da cidade ganhou o país. Primeiro como jogador, depois como treinador, vivendo um período, inclusive, em que atuava nas duas posições.
“Eu olho para trás e não acredito. Estava como técnico e de repente entrava na quadra como jogador. E o time ficava sem técnico”, lembra Hélio.
Capitão da seleção brasileira durante 10 anos, ele foi protagonista de uma das carreiras mais longevas do basquete brasileiro. Saiu da seleção aos 39 anos, quando a maioria dos jogadores não chegava nem aos 30 anos com a camisa verde-amarela. Do Franca, despediu-se aos 42 anos. Depois de 24 anos como jogador, saiu das quadras e assumiu definitivamente a posição de técnico, dando início a um período de mais 24 anos de dedicação ao esporte francano.
Nos últimos dois anos, no entanto, Hélio começou a colher alguns dissabores. Depois de uma carreira vitoriosa e até hoje incontestável, começaram a surgir as primeiras críticas.
Para um time acostumado com títulos, o jejum desses últimos anos começou a incomodar a torcida. Chamado de ultrapassado por alguns, Hélio começou a sentir os dissabores da derrota com mais regularidade e viu seus até então vitoriosos métodos de trabalho serem contestados por uma torcida extremamente crítica e conhecedora dos “macetes” do esporte.
Mas Hélio reagiu e continuou à frente de seus comandados. A falta de resultados, no entanto, fez com que aumentasse ainda mais o tom das críticas, convergindo também para o time e para a diretoria. O primeiro recebeu o mesmo adjetivo que seu treinador, sendo considerado ultrapassado para o nível do basquete brasileiro atual. A diretoria foi considerada inoperante e despreparada, incapaz de formar um time à altura dos históricos sucessos do time.
Até mesmo o prefeito da cidade, Sidnei Rocha, engrossou o coro dos torcedores e ameaçou publicamente retirar o patrocínio do time, justamente ele que foi o principal articulador da volta de Hélio Rubens para Franca, em 2005, após passagem pelo Vasco. Toda essa pressão, na qual Hélio Rubens enxerga uma participação importante e exagerada da imprensa francana, acabou culminando em sua renúncia ao cargo de técnico do Franca na semana passada.
Hélio escreveu uma carta para a diretoria e, obviamente, para toda a cidade. Nela, despede-se serenamente, agradecendo a todos que colaboraram com ele durante esse longo período de tempo e por tudo que o basquete e a cidade de Franca lhe proporcionaram.
Depois de quase 50 anos com Hélio Rubens Garcia, o Franca Basquete amanheceu sem seu principal ídolo.
De certa forma, os amantes do basquete silenciaram, tanto em respeito ao ídolo que se retira das quadras francanas, quanto ao futuro incerto que se anuncia.
Da parte de Hélio, no entanto, fica a certeza do dever cumprido. Fica também o orgulho pela quantidade de e-mails e telefonemas carinhosos que recebeu após anunciar sua saída. Aliás, o telefone dele não parou de tocar durante a entrevista que fizemos com ele em Uberlândia. Leia a seguir os principais trechos.
Comércio da Franca - Comecemos com uma provocação. O senhor sai magoado com a cidade de Franca?
Hélio Rubens Garcia - De forma alguma. Minha carta deixa isso bem claro e eu digo para você que a escrevi do fundo de meu coração. Obviamente, algumas críticas me entristecem, me ofendem e até me deixam irritado. Porém, como já disse, a experiência me ensinou a lidar com as críticas. Às vezes, quando algum torcedor me dizia, ainda na quadra, você errou nisso ou naquilo, eu me defendia, mas levava em consideração o que era dito e analisava isso depois. Eu digo com tranquilidade que entendo a torcida, apesar de alguns exageros. E acho ainda que a imprensa tem mais influência nessas críticas porque algumas matérias acabam instigando ainda mais os torcedores.
Comércio - O senhor teria saído do Franca Basquete se não fossem essas críticas?
Hélio Rubens - Acho que sim. Desde o começo desta temporada eu tinha dito para minha mulher se preparar porque eu já achava que seria a última em Franca. Mas não foi pelas críticas. Eu sentia que devia parar e até dizia para ela que seria maravilhoso encerrar mais esse ciclo como campeões. Mas, infelizmente, não deu.
Comércio - O senhor deu continuidade aos conceitos que aprendeu com o Pedroca, de superação, motivação e de formar um time que crie raízes na cidade. O senhor acha que esse método pode estar superado nos dias de hoje?
Hélio Rubens - Creio que não. A despeito das mudanças que ocorrem no mundo, há coisas que não mudam. Um grande atleta só se forma com o tempo. Pode até despontar como um grande jogador, mas, se não estiver preparado, não dura muito tempo. O esporte forma o caráter em primeiro lugar. Você precisa mostrar às pessoas que elas têm potenciais e que precisam de superação para produzir mais como atleta e crescer como pessoa, duas coisas que andam juntas. Quando você diz isso para um jovem, você consegue motivá-lo. Consegue fazer com que ele entenda esse processo e pense em ficar, pois percebe que aqui poderá se preparar melhor para o futuro. E essa sempre foi uma característica do Franca. Os jogadores sempre ficaram aqui por mais tempo, o que contribui para fortalecer essa questão das raízes, como insistia o Pedroca.
Comércio - Mas o senhor acha que nesse mundo mais rápido e dinâmico de hoje os jovens estão dispostos a criar raízes ou esperar esse tempo de maturação?
Hélio Rubens - Acho que sim. É claro que vai depender muito da pessoa e do tipo de atleta que ele vai querer ser, pois hoje essa questão do dinheiro e do status fala mais alto. Mas eu converso muito com os garotos sobre isso e posso garantir que muitos atletas já ficaram em Franca por salários mais baixos, pois entenderam isso.
Comércio - Mas, depois de tantas vitórias, essa falta de resultados não pode estar mostrando que esses métodos já não estão funcionando?
Hélio Rubens - Creio que não. Se fosse assim, nós não teríamos sido vice-campeões na temporada passada. Eu já disse várias vezes e volto a repetir. O importante é ter competitividade e nós sempre mostramos isso. Essa é uma crítica que eu não aceito. O time de Franca foi sempre competitivo. Este ano, infelizmente, houve vários problemas, mas mesmo assim ficamos entre os oito melhores do país. É que para a torcida e para a imprensa francana não se conquista um vice-campeonato, mas apenas se perde um campeonato, algo que, por exemplo, não acontece em outros países. É claro que todos querem ganhar, o time e os torcedores, mas eles sabem que não é sempre assim. No esporte se ganha e se perde. O que acontece em Franca é um perigo e pode até acabar com o basquete se isso continuar, pois nosso orçamento é bem menor do que o dos principais clubes de hoje.
Comércio - O senhor acha que Franca terá problemas para encontrar patrocinadores sem a sua presença?
Hélio Rubens - Não sei, isso vai depender da diretoria. Enquanto estive no Franca Basquete, sempre participei das reuniões com os patrocinadores e estive à frente dos projetos apresentados. E acredito que meu nome possa ter servido como aval, o que muito me orgulha. Mas tenho certeza que o basquete de Franca já é maior do que qualquer coisa e irá continuar forte e competitivo.
Comércio - Como o senhor se sentiu quando o prefeito veio a público e ameaçou tirar o patrocínio do time em função dos maus resultados?
Hélio Rubens - Fiquei muito magoado, pois o Sidnei é meu amigo pessoal e foi o articulador de minha volta ao basquete francano. Penso que ele não devia ter feito isso publicamente. Acho que ele agiu como um torcedor fanático e não se deu conta da repercussão que sua declaração poderia ter na cidade. Ele pegou pesado e suas palavras desencadearam uma série de críticas. Mas isso é passado. Nós já conversamos e está tudo bem.
Comércio - O senhor sempre teve o sonho de criar a Universidade do Basquete em Franca. Ainda pensa nisso?
Hélio Rubens - Sim, continuo com esse sonho. Mas nada disso será possível se nós não conseguirmos criar uma estrutura empresarial no Franca Basquete. Nós não temos uma sede, para começar. Não temos centro de treinamento, não temos nada, mesmo com 50 anos de tradição. Enquanto não transformarmos o clube em empresa, eu não conseguirei pensar nessa universidade.
Comércio - O sr. vai aguentar ficar longe das quadras?
Hélio Rubens - Vou. Aprendi a vivenciar intensamente o presente e sei que vou conseguir me afastar na hora em que me decidir por isso. Claro que até posso continuar, pois já tive algumas sondagens em relação a isso. Mas agora, do fundo do meu coração, quero descansar com minha família, curtir meu neto e viajar um pouco. Tenho um convite manifesto na imprensa para ficar aqui em Uberlândia, mas ainda nem conversei com o presidente do clube. Como sou espírita, vou deixar essa questão para o plano espiritual. Que ele me leve para onde eu tenha que continuar minha missão.