Era a década de 60. O ano ele não se lembra exatamente. Franca era ainda uma cidade acanhada, bem distante do que viria a ser. Se já começava a despontar como capital do calçado masculino, ainda engatinhava no basquete, outro símbolo da cidade que se espalharia pelo país.
Franca ficara de fora da decisão do campeonato do interior, pois naquela época os campeonatos eram separados.
“O interior era completamente desprezado. Para eles, da capital, a gente era caipira da roça. Mas caipira mesmo, sem condições de jogar basquete”, lembra Hélio Rubens Garcia, que naquela época era apenas um esforçado e iniciante atleta, ainda bem longe de se tornar um dos maiores nomes do basquete brasileiro, um verdadeiro mito para o esporte francano e de constar na lista dos mil atletas mais importantes do século XX, elaborada pelo jornal inglês The Sunday Times.
De última hora, no entanto, Franca foi chamada para participar dessas finais juntamente com São Carlos, Piracicaba e São José dos Campos. É que Presidente Prudente, a dona da quarta vaga, havia desistido da competição.
Motivado para competir e ciente de que o time francano vinha melhorando a cada dia, Hélio Rubens resolveu brincar com o Juca Vilhena, então presidente do Clube dos Bagres, local onde praticamente nasceu o basquete francano. Hélio disse a Juca que se os outros times bobeassem, eles até poderiam ganhar. Apesar de não acreditar muito naquela possibilidade, Juca Vilhena resolveu provocá-lo. Prometeu-lhe, em caso de vitória, uma Vespa, uma daquelas motos antigas, que transitavam pelas ruas nos anos 60.
O saldo dessa história é que Juca Vilhena nunca perdeu uma Vespa com tanta felicidade. Cumpriu sua palavra e deu a Hélio Rubens seu primeiro veículo motorizado.
“Eu me sentia um rei andando com aquela Vespa pela cidade”, recorda-se Hélio.
Essa foi uma das muitas histórias que um sorridente Hélio Rubens contou ao Comércio na última quinta-feira, em Uberlândia, no apartamento onde mora uma de suas filhas e seu recém-nascido neto, o mais novo integrante da família Garcia.
Descontraído e bem-humorado, talvez até um pouco aliviado depois de quase dois anos de críticas, algumas bastante ferinas, como lembrou Maria Helena, sua mulher (leia texto na página seguinte), Hélio falou tranquilamente sobre o passado e o presente. Quanto ao futuro, preferiu colocá-lo nas mãos de Deus ou o escondeu de nossa curiosidade com muita elegância e habilidade.
Emocionado, lembrou a época em que sua mãe faleceu, aos 47 anos de idade, um dos momentos mais difíceis e marcantes de sua vida. Como era filho de um representante comercial, que naquela época passava longos períodos fora de casa, Hélio passou a ter medo de que alguma coisa acontecesse com seu pai.
“Quando ele saía para viajar, eu ficava doido. O que iria fazer se também perdesse meu pai? Com 18 anos, sem dinheiro, sem nada, e com dois irmãos menores para cuidar. Foi um período difícil.”
Mas, felizmente, nada aconteceu a Francisco Antonio Garcia, mais conhecido em Franca como Chico Cachoeira. Ele viveu muito e ultrapassou os 90 anos, tempo suficiente para marcar profundamente a personalidade e o caráter de seu primogênito. Apesar de homem simples, segundo Hélio, o pai era de uma grande sabedoria. Seus estudos terminaram no quarto ano primário, mas não a vontade e o interesse pelos livros, o que talvez tenha lhe acrescentado um tempero especial em sua experiência de vida.
“Apesar da simplicidade, meu pai nos orientou muito bem. Além da prática esportiva, dos estudos e da religião, eu e meus irmãos aprendemos instrumentos musicais. Eu tocava sanfona.”
Uma das façanhas de Chico Cachoeira, juntamente com outros amigos precursores do basquete francano, como o já mencionado Juca Vilhena, foi construir a primeira quadra de basquete com chão de tijolo, ali onde hoje está a agência do Banco do Brasil, no centro da cidade.
“Meu pai me contou que eles passavam pelas construções e iam ‘roubando’ um ou dois tijolos por dia. Quando eles perceberam que tinham o suficiente para a quadra, eles a calçaram”, se diverte Hélio.
Ele se lembra de ter cobrado o pai pelo roubo dos tijolos. Mas Chico não manifestou o menor arrependimento, afirmando que não havia sido um roubo, mas sim um empréstimo, não apenas para eles, mas também para a cidade.
Influenciado por seu pai, Hélio se recorda que virou praticamente um “viciado” por esportes. Jogava futebol pela manhã, basquete à tarde e, se sobrasse alguma coisa no começo da noite, ele também topava.
Seu pai se preocupava, acreditando que a compleição física de Hélio não fosse aguentar tanto esforço. Mas, ao contrário, segundo Hélio, toda essa atividade lhe deu uma condição física exemplar, o que lhe permitiu jogar na seleção brasileira até os 39 anos de idade e no Franca Basquete até os 42, quando inclusive já era o técnico do time, por mais absurdo que isso pudesse parecer para alguns.
“Ainda hoje, eu aposto com meus jogadores quem aguenta fazer mais abdominais. O Helinho ainda avisa, mas eles acabam topando. E, pode acreditar, eles param primeiro do que eu.”
Ele também se emociona ao lembrar-se de Pedro Murilla Fuentes, o famoso Pedroca, um dos principais responsáveis pela sistematização do basquete francano.
“O Pedroca foi um segundo pai para mim. Foi um visionário, precursor em muitas coisas em termos de esporte. Foi um grande educador e uma benção para Franca”, se emociona Hélio.
Para ele, Pedroca formou uma geração e a raiz esportiva da cidade. “Tinha uma brilhante capacidade de trabalho, uma honestidade a toda a prova, um desprendimento invejável e um idealismo incomum.”
Ele se recorda que Pedroca sempre chamava seus alunos e atletas de senhor, com aquela sua voz tranquila, mas incisiva. Era “seu” Hélio para cá, “seu” Carlão para lá e assim por diante. Mas foi dessa forma que Hélio descobriu os principais conceitos que iriam nortear sua longa carreira como jogador e como técnico.
Hélio se lembra de ouvir Pedroca dizer: “a repetição é a mãe da perfeição”. Ao perceber o significado, Hélio passou a ficar em quadra mais 40 ou 50 minutos após o treino, tempo em que dava aproximadamente 300 arremessos. Em pouco tempo, começou a fazer mais pontos do que seus companheiros e os adversários.
Outro conceito importante que aprendeu com Pedroca, que morreu praticamente em seus braços, foi o de trabalhar com jogadores dispostos a criar raízes, algo que tentou aplicar ao longo de sua carreira como técnico.
“Ele me dizia: ‘não esqueça as raízes ‘seu’ Hélio, não esqueça as raízes’”, recorda-se.
Outra passagem interessante lembrada por Hélio foi sua contratação pelo Vasco. Depois de levar vários jogadores do Franca Basquete por dois anos seguidos, inclusive seu filho, Helinho, e de ser derrotado por esse mesmo Franca Basquete em duas decisões de campeonato, nesses mesmos anos, a diretoria do Vasco não resistiu e tentou levá-lo também.
Ele estava no Rio de Janeiro, visitando seu filho, quando soube que Eurico Miranda queria falar com ele. Combinaram um jantar em um restaurante português e Fransérgio, seu irmão, pediu para se passar por seu empresário.
O papo foi claro e objetivo. Eles queriam Hélio Rubens para o cargo de técnico de basquete e para coordenar todo o projeto olímpico do Vasco naquela época.
“Mas o Fransérgio foi mais objetivo ainda, além de muito claro. Ele disse que por menos de U$ 100 mil eles não me tirariam de Franca. Minhas pernas tremeram na hora. E eu pensava que o Fransérgio tinha enlouquecido.”
Obviamente não fecharam nesse patamar. Mas chegaram a um valor que Hélio nunca imaginara e que o levou a deixar Franca pela primeira vez em sua vida.
“Pena que o projeto olímpico foi para o buraco, junto com boa parte daquele salário. O Vasco me deve um bom dinheiro até hoje”, diz Hélio.
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