Rum brasileiro: era essa a denominação da nossa cachaça nos Estados Unidos até alguns dias atrás. Não havia o reconhecimento da palavra “cachaça” como denominação de bebida destilada. Isso atrapalhou não apenas a fixação de uma “marca”, e da denominação da origem, mas também a venda propriamente dita, porque o rum americano tem forte proteção fiscal no mercado americano.
Além de ser uma impropriedade, as duas bebidas não são fabricadas do mesmo modo. Embora ambas sejam provenientes da cana de açúcar, cachaça não é rum! Aliás, a pseudo tradução tem um motivo: é que o vocábulo “cachaça” não encontra tradução em nenhum outro idioma. Tanto melhor, porque reforça a genuinidade brasileira do produto.
O que aconteceu no dia 9 de abril deste ano não terá ainda grande impacto financeiro, mas é uma grande vitória dos produtores desse destilado. Foram anos de negociação, mais de 40 anos lutando pelo reconhecimento do produto. Por isso, o grande impacto é justamente o emocional. Brasil e Estados Unidos assinaram um acordo comercial dando certificação fiscal para a cachaça como produto de fabricação exclusiva brasileira.
Ainda falta muito, mas o reconhecimento dos Estados Unidos ajudará os produtores brasileiros a conseguirem na Organização Mundial do Comércio (OMC) a designação de origem do produto, como conseguiram os produtores franceses de champanhe.
Claro, a bondade dos Estados Unidos exigiu uma troca: nós brasileiros reconhecemos como legítimos e exclusivamente americanos os uísques Bourbon e Tenessee. Parece justo o acordo.
O maior expoente da pinga, e certamente um dos grandes responsáveis por fazer da cachaça um artigo de luxo, quer seja em Londres, Paris, Nova Iorque, seja em hotéis requintados, seja em bares descolados, é sem dúvida a cachaça Sagatiba. Dona de um marketing ousado, que fez seu nome mundo afora desde a sua criação, a Sagatiba promoveu um importante papel na evolução da cachaça, pois domina um processo denominado de multidestilação, que vem a ser o controle em separado de todos os componentes da cachaça. O resultado é um produto de altíssima qualidade, que concorre com os melhores destilados do mundo. E tudo isso aqui, no nosso quintal: da cidade de Patrocínio Paulista para o mundo! A escolha pela simpática cidade não foi à toa: eles lá em Patrocínio, nós em Franca e muito além, estamos todos sentados no Aquífero Guarani, que possui as águas mais puras do mundo. Garantem os antigos donos que isso impede a famosa dor de cabeça das manhãs precedidas pelas noites de exagero.
Também por isso consegue fazer uma cachaça mais suave, que agrada ao paladar do novo e crescente público: as mulheres. Enquanto a maioria das cachaças possui teor alcoólico entre 40º e 54º, a Sagatiba tem meros 38º. Acredita-se que, dentre os novos consumidores, não haja diferença entre mulheres e homens. E não estamos falando de caipirinha, mas da branquinha pura mesmo. Mulheres e cachaça não é coisa nova, muitas mulheres nos tempos do Brasil colonial, principalmente em Minas Gerais, foram as responsáveis pela fundação de vários alambiques, não por vício ou prazer, mas como uma alternativa de ganhar dinheiro enquanto seus maridos trabalhavam nas minas.
Cachaça também não é só pra beber, é pra comer. A nova moda entre os chefs é a harmonização entre pratos e pingas. Fraldinha desfiada com pinga, risoto de carne seca com pinga, banana da terra flambada na pinga são alguns dos exemplos. A valorização da cachaça passa pela valorização da nossa comida - e, a ver pelo sucesso que ambos estão fazendo lá fora, vamos inebriar meio mundo.
Dica da semana
Um braseado ou cozido úmido e suculento resulta da atenção que o cozinheiro presta a diversos detalhes de procedimento. É meio chatinho mesmo. A regra mais importante: nunca deixe que o interior da carne sequer aproxime do ponto de ebulição da água.
Deixe a carne tão intacta quanto possível a fim de minimizar o número de cortes pelos quais os líquidos possam escapar.
Se for necessário cortar a carne, corte-a em pedaços relativamente grandes, com pelo menos 2,5 cm de lado.
Escureça a carne rapidamente numa panela quente de modo que o interior da peça só aqueça um pouco. Isso mata os microorganismos na superfície da carne e gera sabor.
Comece o cozimento com carne e líquido num forno a frio, a tampa da panela aberta para possibilitar alguma evaporação, e acerte o termostato para 93º, de modo que o cozido chegará a exatos 50º. Ao longo de duas horas, depois aumente para 120º que o cozido atingirá 80º.
Depois não descuide mais, de quinze em quinze minutos espete a carne com um garfão. Quando ele penetrar a carne facilmente, ela estará pronta.
Provavelmente será preciso reduzir o caldo assim haverá mais consistência e sabor, mas antes retire a carne!