07 de julho de 2026

O Poder do Feminino


| Tempo de leitura: 3 min

“Eu vi a mulher preparando outra pessoa. O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga.”

Caetano Veloso
Força Estranha


Minha filha está grávida. A mulher fica, nessa fase, mais sensível e profundamente mais bela. É uma beleza que vem de dentro, uma beleza que constrói e que vai, a cada dia, acessando nova energia, capaz de fazer crescer e de fazer florescer.

Mais ainda do que na minha própria gravidez, hoje com o olhar mais amadurecido e com uma relação mais amorosa com a vida, estou sentindo a força que tem a mulher quando é capaz de gerar vida. Ao acompanhar o crescimento do bebê, a cada mês, fui percebendo o poder do feminino.

E o que é o feminino? Sabemos que os valores ligados à feminilidade ficaram subjugados por milênios, cobertos pelo manto patriarcal, dormindo sono profundo. Assim, principalmente nos últimos séculos, desenvolvemos características como empreendedorismo, expansão, ousadia, ambição, força, velocidade, densidade material. E os aspectos como nutrição, introspecção, criação, intuição e sutileza espiritual desvalorizaram-se e, penso eu, que por esse motivo, entramos em desequilíbrio. Comecei então a me perguntar se esse feminino era mesmo só privilégio das mulheres. Na vida conturbada dos dias de hoje, a ênfase ficou com o aspecto masculino, tanto para homens como para mulheres: o trabalho, o “sair para a caça” são as prioridades existenciais. A realização do feminino que é nutrir, criar, acolher e fluir ficou esquecida. Dizem os sábios que a alma é, tradicionalmente, feminina. Perdemos, todos nós, a nossa ligação com a alma, perdemos a conexão com a energia feminina.

No universo yóguico, essa força é simbolizada por Shakti, ou a Deusa, aquela que tem a energia feminina primordial. O poder de Deus de criar e manifestar todas as coisas é conhecido como Shakti e tem a natureza feminina. Não é necessário ser mãe, nem mesmo mulher para se conectar com essa força criativa amorosa. Para que homens e mulheres preservem sua Shakti vital devem recuperar a gentileza, o amor, a compaixão e o perdão no seu dia a dia.

Penso que está na hora de desaprendermos os antigos e doentes hábitos mundanos e focar, dirigir e convidar as energias curativas adormecidas para que saiam das profundezas e venham à tona, trazendo um novo sentido e um novo jeito de caminhar pela vida.

Vejo, agora na minha filha, essa “mulher que está preparando uma outra pessoa” e percebo que não só eu, mas também o “tempo parou pra olhar para aquela barriga” . É preciso acolher o tempo da construção. E essa mulher necessita de tudo para realizar sua obra de arte e perfeição: sensibilidade junto com a força, delicadeza ao lado da coragem, doçura caminhando com determinação e intuição, lado a lado, com a razão. É assim que se faz um nascimento. É “essa força estranha no ar”, como sinaliza Caetano Veloso. É assim que Deus nos permite sermos co-autores de sua Divindade. É apenas assim, que homens e mulheres podem convidar o feminino sagrado para habitar em cada um e também neste planeta. Atrair o poder do feminino (que não é privilégio só das mulheres) será a grande pausa para um novo e saudável recomeço.