Hoje em dia, para alegria dos ecologistas, as palavras viajam principalmente de maneira informatizada. Se a avalanche de comunicação escrita fosse ainda realizada inteiramente por meio do papel, provavelmente não haveria mais árvore sobre a terra. Toda madeira já teria sido transformada em celulose. A reposição florestal apropriada não supriria a demanda.
Só para situar o consumo de papel no tempo, há cerca de 30 anos um carteiro carregava praticamente uma árvore por dia.
O volume de correspondência era tal que talvez a celulose de um único vegetal lenhoso não fosse suficiente para abastecer a fabricação de material para a escrita de cartas, jornais, revistas, livros e outros impressos transportados pelo profissional postal.
Agora, a palavra escrita passou a ser transportada em altíssima velocidade. Ela viaja por meio de elétrons quase que tão rapidamente quanto o pensamento.
A maior parte da comunicação digital ocorre instantaneamente. A explosão de mensagens via e-mail está até ficando para trás. Surgiram possibilidades mais rápidas no meio virtual.
Em contrapartida, o meio ambiente sofre, atualmente, mais que antes. A ilustração pode vir pela pilha (o pessoal chia quando se fala em pilha, por achar bateria mais chique, desconhecendo o fato de ser tudo a mesma coisa).
O volume descartado desse acumulador de energia cresce sem parar. Isso infesta a terra sem dó, aumentando a contaminação radioativa.
Só que o ataque ambiental não fica apenas por conta da aparentemente inofensiva pilha. Além das baterias de celular, velhas impressoras, monitores de imagem ou aparelhos de TV, quando não o microcomputador inteiro, toda essa parafernália poluente ganha descarte em lixões inapropriados.
Voltando à palavra escrita, pelo menos fisicamente o papel dela se transformou. Ela já não necessita tanto das árvores para ganhar o mundo. Ao contrário. Viaja cada vez mais por meios eletrônicos. Sua presença está em toda parte. A maioria das pessoas vive hoje cercada de palavras por todos os lados.
No entanto, sem se molhar. O papel metafórico da palavra não acompanhou a sua velocidade de propagação física. Muita gente não entende o que lê. A situação de letramento caminha por uma vertente escura.
Existe muito pouca claridade no ato de ler. O leitor não anda conseguindo reproduzir oralmente ou por escrito o conteúdo resumido de um texto.
A falha pelo baixo entendimento da palavra pode estar exatamente no excesso de exposição oral.
Todo mundo ouve, mas não se atém para o real papel da palavra na comunicação.
No caso de se inverter os papéis, e buscar o sentido conotativo, como se faz normalmente no texto literário, o entendimento beira as raias totais da ignorância.
Para melhorar o papel da palavra, não existe outra alternativa. A solução está em ler, ler e... ler. Esse acaba sendo o caminho em direção à decodificação de uma frase ou de um texto.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br