11 de julho de 2026

Projeto exibe filme ‘Mais estranho que a ficção’ neste sábado


| Tempo de leitura: 4 min

No dia 19 teremos mais uma sessão do Cinema e Psicanálise de Franca no anfiteatro do Centro Médico. Será apresentado o filme Mais estranho que a ficção, do diretor alemão radicado nos EUA Marc Foster, e do roteirista Zach Helm. Foi lançado em 2006 e é pouco conhecido do público.

Trata-se de uma história peculiar e criativa que mescla realidade cotidiana factual com a perspectiva ficcional, entrelaçadas numa trama inteligente e bem feita, servindo como metáfora para refletir sobre o que é a realidade humana em toda sua complexidade.

A noção de realidade nasce ancorada na dimensão subjetiva da personalidade e precisará evoluir no contato com outra mente para alcançar a condição de observar a realidade objetiva dos fatos. As duas dimensões são igualmente importantes e precisam ter contato fluido uma com a outra. Ao mesmo tempo requerem delimitação para não haver invasão e mistura de conteúdos do mundo interno do homem com o mundo exterior do ambiente.

Num diálogo subjetivo que travei comigo mesma, passei a pensar no que o título do filme me sugeria. Imaginei que, de fato, deveria haver algo mais estranho que a ficção. E talvez fosse a própria realidade humana, tão diversa da realidade das coisas e objetos que são mensuráveis e palpáveis, visto a muldimensionalidade do psiquismo do homem.

Nessa interlocução íntima que me ocorreu pensei que não é tão estranho assim ouvir continuamente uma espécie de voz íntima a nos habitar e a narrar tudo o que vivemos, podendo ser uma voz amiga e sensível, uma companheira que nos permite ter dúvidas, propõe questionamentos, evoca memórias e afetos formando conceitos que vão nos traduzindo. Mas também pode ser uma voz adversária à vulnerabilidade humana, que condena e critica o que fazemos, buscando dogmas para comprimir a vida.

Portanto todos nós temos, den-tro da linguagem que nos constitui, um parceiro desconhecido em um diálogo contínuo. Afinal, há muito mais mistério e imaginação entre o que pensamos ser nossa realidade pessoal e aquela que de fato nos define. Haverá maior desafio na vida do que este?

Neste filme, o personagem principal é o protagonista de um livro que está sendo escrito por uma grande escritora. O personagem tem vida própria como se tivesse pulado para fora do livro, sendo esta a parte ficcional da história. Ele é uma pessoa muito inteligente e capaz, embora seja um homem solitário, isolado e infeliz, que contabiliza tudo ao seu redor de forma regrada e metódica.

Paralelamente, a escritora do livro está tentando finalizar a história, mas devido a um bloqueio criativo melancólico, ela mal sabe que está narrando a vida do seu protagonista enquanto escreve o livro e que ele ouve cada palavra, cada frase e sentença que ela está narrando ao escrever. Ambos duvidam do absurdo desta situação até se encontrarem ao vivo, e a escritora pode conversar com o personagem que ela criou, mas que é um homem de carne e osso que tenta influenciá-la para mudar o desfecho trágico que ela costuma dar a todos os protagonistas dos seus livros.

Embora aterrorizados com situação tão improvável, será do encontro dos dois que surgirão as mudanças recíprocas que permitirão que ambos possam se humanizar, amar e transformar a realidade bruta em que viviam em realidade compartilhada. Novos pares se formam surgindo um final surpreendente.

Esta é a história de um personagem em busca de uma autora, assim como no teatro de Pirandello há a obra Seis personagens em busca de um autor.

Fernando Pessoa compôs vários heterônimos para expressar os diferentes personagens que o habitavam. Portanto, esta é uma temática de relevo importante também na literatura.

Penso na premente necessidade dos nossos pensamentos irem em busca de um pensador que lhes dê significado, como personagens que emergem da matriz das emoções e precisam subir no palco como pensamentos.

As emoções que não puderam se transformar em pensamentos precisarão agir na vida real compondo uma teatralidade dramática na vida da pessoa, que precisa então atuar ou representar como um ator aquilo que não pôde ser compreendido.

A ressonância deste filme em mim foi perceber que o gênero da vida humana não é facilmente achado, assim como o filme não se encaixa no gênero tragédia ou comédia. Pode ser um drama cômico, por tocar mais na tristeza, mas sem perder o humor, ao levar em conta a beleza dos grandes pequenos momentos que nos são oferecidos para ser compartilhados.

SERVIÇO
Cinema e Psicanálise
”Mais estranho que a ficção”
Data: 19/05/2012 - Horário: 15h
Local: Anfiteatro da sede campestre do Centro Médico de Franca (Rod. Tancredo Neves, saída para Claraval, km 2)
Valor: R$ 5,00
Informações: (16) 3623-7585