16 de março de 2026

Passaporte diplomático


| Tempo de leitura: 5 min
No século XXI, ser brasileiro é o melhor passaporte que alguém pode ter para garantir respeito e cordialidade nos Estados Unidos

“Há alguma coisa de mais
em todos os países: os habitantes”
Jean Baptiste Alphonse Karr,
escritor francês


Os atentados de 11 de setembro de 2001 mudaram o mundo. Se a montanha de mortos inocentes e o pânico global foram seus desdobramentos mais visíveis e imediatos, outras tantas consequências subjacentes vieram à tona nos anos seguintes, como reflexo direto daquele gesto tresloucado perpetrado por ignorantes que acreditavam que, em nome de Deus, justifica-se tudo.

Uma década depois, nenhuma consequência é tão sensível como as medidas de segurança adotadas em qualquer metrópole, especialmente americana, e em aeroportos, portos e ferrovias de todo mundo. Se antes a viagem em si era um prazer, hoje virou uma quase-tortura. Entre o embarque e o desembarque, você é obrigado a passar por inúmeros pontos de controle e verificação. Tira sapato, tira cinto, tira moedas do bolso, saca a carteira e o celular, remove o computador da mochila, passa tudo no raio-x e, depois, segue você mesmo para o escaner de corpos, máquina que te transforma num Adão (ou Eva, dependendo do caso) diante dos impávidos olhos dos oficiais de segurança.

Isso para não falar das perguntas cretinas a que somos obrigados a responder em formulários que parecem versões das páginas de humor das antigas revistas Mad ou Casseta Popular. “O senhor já foi preso por conspiração?”, “O senhor porta armas de fogo ou explosivos?”, “O senhor já foi condenado por uso de drogas?” são apenas algumas das pérolas. Queria muito saber se algum idiota já respondeu sim a alguma destas indagações. Seja como for, para quem tem vocação para Gulliver, é o preço a ser pago para viajar.

Do lado de fora do aeroporto, a experiência melhora bastante. Diferente da percepção geral - e equivocada, americanos são solícitos e educados. É claro que eles não são táteis como nós, não saem beijando todo mundo e não te convidam para um churrasco na casa deles meia hora depois de te conhecer. Mas, se você dominar minimamente o idioma e tiver noções elementares de civilidade, fica tudo muito fácil e divertido, especialmente quando você diz que é do Brasil. A partir deste ponto, as chances de receber tratamento vip melhoram sensivelmente.

Na nossa viagem, a primeira experiência do gênero aconteceu logo no início. Pegamos um táxi rumo a Fremont Street, uma rua onde um telão de mais de 200 metros de comprimento garante a diversão, com muita música e tipos bizarros para todos os gostos. O taxista era Jeremy, um negro simpático, “nascido e criado” em Las Vegas, encantado com o fato de sermos brasileiros. “Um dia eu vou lá. Quero muito conhecer as praias, as garotas... Cara, as brasileiras são muito lindas”. Assenti. Futebol era assunto que não o interessava. Mas quanto a comida, bebida, praias e mulheres, a curiosidade era grande.

Jeremy foi só o primeiro. Topamos com umas duas dúzias de equivalentes ao longo da viagem. Cristina, vendedora de New York, é judia nascida em Israel. Louca pelo Brasil, aprendeu uns termos em português, como “obrigado” e “tudo bom”. Cabelos coloridos e apaixonada pela vida, sonha com o dia em que virá morar aqui. “No Rio. É muito longe de São Paulo?”, perguntava. Queria saber também se eu conhecia um tal de “Tell”, cantor da música “Pegadina”. Até eu entender que ela falava do Michel Teló, foram uns cinco minutos. “Eu adoro a música If I Catch You”, brincou. Tive que contar o pouco que sei da história do rapaz para deleite da fã nascida no outro lado do mundo.

Houve ainda Salomon, o garçon do Martin’s Tavern, restaurante de Washington célebre por ser o lugar onde o então senador John Kennedy pediu a mão da futura primeira-dama, Jaqueline Bouvier, em casamento. “O povo do Brasil é o melhor do mundo. Quando entra alguém especial aqui, sei que é brasileiro. Vocês tem um brilho diferente”, garantia.

Foi em Washington também, num bar mítico chamado “Old Glory”, na rua principal do charmosíssimo bairro de Georgetown, que topamos com Ethan, o mais brasileiro dos americanos que já conheci. O rapaz esteve em Vila Velha e Guarapari, no Espírito Santo. Amou churrasco, caipirinha e uma bebida que chamava de “Sku”. Não entendi do que se tratava e pedi que repetisse. “Sku, cara, a cerveja”. Caiu a ficha. “Skol?”, arrisquei. “É, cara. Eu amo”. Fiquei com a cara no chão. Estávamos no final da viagem e havia brigado o tempo inteiro com o Edson Arantes, tentando convencê-lo a gostar de cervejas mais encorpadas, como a “Guiness”, inglesa. “Tá vendo. O cara sabe o que é bom”, provocava meu companheiro de aventuras. Ethan gostou tanto do Brasil que volta para cá no ano que vem. Sugeri Fortaleza. Ele ficou de pensar, a gente ficou com saudades daqueles instantes memoráveis.

Estive nos Estados Unidos a primeira vez há 30 anos, levado por meus pais. Naquele tempo, ninguém sabia nada do Brasil. Achavam que nossa capital era Buenos Aires, que a língua era o espanhol e que as ruas eram cheias de cobras e índios. Três décadas depois a situação é completamente diferente. O Brasil está na moda, todos sabem que o país avança, conhecem São Paulo e Rio e têm uma quantidade bastante razoável de informações sobre nós, do idioma ao fato de que cobras e índios não são exatamente o padrão de nossas cidades.

Além disso, todos reconhecem no brasileiro um povo diferente, simpático, afável. Ou, como gostam de dizer, “special”. É bom que seja assim. No século XXI, ser brasileiro é o melhor passaporte que alguém pode ter para garantir respeito e cordialidade nos Estados Unidos. Funciona em qualquer lugar, com exceção do aeroporto e da imigração. Pode tentar. Garanto que dá certo.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br