09 de julho de 2026

Crianças veem. Crianças fazem


| Tempo de leitura: 4 min

Continuemos. Vários leitores responderam ao chamado que fiz nas colunas anteriores, sobre compartilhar ações de cidadania e fazer disso, um tsunami positivo

Silvio Conrado, amigo que fiz na comunidade de São Benedito há alguns anos, foi um dos que escreveram, botando lenha na fogueira da discussão “quem é que tem que educar, os pais ou a escola?”. Encontrou um grupo em Florianópolis lutando para tornar campanha uma constatação do educador Içami Tiba, que se pode resumir em “Aluno é transitório, filho é para sempre”. Lembrei-me da professora Leila Haddad, secretária da Educação da Prefeitura de Franca, que não perde oportunidade em reafirmar que “educação tem que vir de casa; escola tem que se dedicar a dar informação e cultura”.

Uma lembrança puxa outra. Há um movimento, no mundo, embalado por um vídeo criado por educadores australianos, denominado “Children see. Children Do”, em bom português “Criança vê. Criança aprende, repete, faz”. Deixo aqui o link do vídeo e que espero ver replicado por todos os meios ao alcance de cada um dos que me leem: http://www.youtube.com/watch?v= 7d4gmdl3zNQ&feature=youtu.be. É tenso, duro, mas verdadeiro e reflexivo.

Mudanças estapafúrdias estão ocorrendo sob nossos narizes. O Comércio divulgou, há alguns dias, boletim de ocorrência registrado por mãe que soube que sua filha havia levado um pito na escola. O fato me fez cócegas na memória e, sem mais nem menos, abriu-se uma de minhas gavetinhas de lembranças trazendo de volta a mestra do primeiro ano “primário”, Noêmia Bordignon. Aliás, trazendo só, não. Arderam minhas orelhas, aquelas que Noêmia puxava sem dó nem piedade quando julgava que eu esmorecia em minhas capacidades. Num certo dia, contei a meus pais e mostrei as orelhas. “Não vou mais à escola”, decidi. Meu pai sorriu. Minha mãe me olhou feio. Disseram: “vamos falar com a professora!”. Julguei-me defendido.

Chegamos ao pátio do “Cel. Francisco Martins” antes das aulas. Noêmia estava sentada num dos bancos de madeira, cercada dos pequerruchos meus companheiros (os professores não perdiam oportunidade de estar com seus alunos). Assumiu um ar grave quando meu pai achegou-se, pediu licença e começou a falar: “a senhora, se julgar certo, tem minha autorização para corrigir, mas... (ai inclinou-se e disse alguma coisa em voz mais baixa a ela)”. Ela sorriu um sorriso compreensivo a meus pais e lançou-me um olhar bravo de canto de olho que percebi mesmo escondido atrás de minha mãe. Vi e não esqueci.

Não procuraram a direção da escola. Preservaram a autoridade do professor. Posicionaram-se. Conversaram. Entenderam-se. Beneficiaram-me. Aprendi com ela que os caminhos são duros. Com eles, que respeito é essencial. Minhas orelhas se salvaram. Bastava Noêmia repetir o olhar bravo, ameaçar o gesto e lá estava eu, com minhas lições sempre prontas a tempo e a hora. Uma pena que as velhas receitas se perderam em meio ao emaranhado de leis de muitos direitos e quase nenhum dever que grassa por aí...

CARTA-CIDADÃ
O leitor é Carlos. Ele se manifestou sobre a mãe que registrou boletim contra professora que corrigiu sua filha. “Há três décadas os professores torciam orelhas, davam reguadinhas em quem não fazia lição, não estudava ou era malcriado. (A grande maioria seguia em frente) e era aprovada por méritos próprios. Hoje tem a aprovação progressiva, automática. Não é preciso estudar. Até marmanjos que só bebem e se drogam têm quotas na universidade. Professores eram autoridade. Agora estão abandonando as escolas, pois têm que se dedicar a ensinar crianças que só querem brincar, trocar figurinhas, bagunçar, se sentir ofendida. E que dão BO como se tivessem nascido com personalidade formada e título eleitoral. Até o código de Hamurabi já sabia: ‘educa a criança no caminho em que deve andar e até quando envelhecer não se desviará dele’.”

PASSEIO FRANCA-RESTINGA
1 - “Em um dos trios elétricos, uma menina sumaríssimamente vestida, mostrava o corpo. Meninos bêbados caiam e eram levantados por outros meninos bêbados. Havia consumo de drogas. Ambulâncias que os próprios médicos chamavam de “lixão”, recolhiam alguns e corriam na direção de prontos-socorros. É impressionante como os jovens de hoje não se gostam, não se valorizam. Sabe-se lá onde pretendem chegar. A essência da caminhada, devagar, se perde. Aumentou muito o número de participantes mas, quem foi, e viu, diz que não volta.” (Participante, aterrorizada com os bastidores das cercanias de um dos trios elétricos que “animou” o passeio).
2 - Um grupo de jovens que, aparentemente, passou a noite anterior consumindo bebidas em posto de combustíveis, causou alguns problemas logo contidos pelos órgãos de segurança. No mais, foi adequado (Resumo do ponto de vista da FEAC, organizadora do Passeio, sobre o evento).

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br