“Vivo 24 horas com medo. Ele pode me abordar na rua a qualquer hora e fazer o que quiser.” Essa frase é de uma mulher de 41 anos, mãe de três filhas de 11, 7 e 3 anos, que trabalha no setor de faturamento de uma empresa de Franca. Em pânico com as agressões e ameaças de morte feitas pelo ex-marido, de 39 anos, ela disse que vê apenas dois caminhos para se livrar desse martírio: ser presa com as filhas ou morrer. “Falo que era melhor prender eu e minhas filhas para (nos) proteger dele. Falei isso para o promotor, mas até ele ficou assustado com minha frase. É o único jeito que vou ter paz, é o único jeito que vou dormir, porque desde setembro não durmo, não como, estou só me acabando.”
Ela conviveu com o ex-marido por quase nove anos. Os dois moraram juntos desde os três meses de namoro e as agressões têm o mesmo tempo. “Ele sempre me batia, sempre na cabeça e rosto, nas partes que podia aparecer, porque ele não estava nem aí, ele não escondia.” A vítima alega que ele a acusava de traição. “Ele sempre disse que eu tinha um amante.”
A violência dentro de casa se arrastou por mais de oito anos. Ela disse que não se separou antes porque o ex-marido ameaçava matar seus pais. “Ele é louco mas nunca tinha convivido com pessoas desse naipe. Passavam alguns dias depois que ele me batia e ele se tornava um dom Juan e por eu ter duas filhas com ele, fui deixando passar.”
No fim de agosto do ano passado, as agressões se tornaram mais constantes. O comportamento agressivo, segundo a vítima, era agravado pelo consumo de bebidas alcoólicas e drogas - crack, maconha e cocaína. “Ele acabou comigo. Com um dos socos no rosto que me deu, voei dois metros. Minhas três filhas estavam dormindo e acordaram assustadas, pedindo para ele parar. Ele me espancou. Durante uma semana me batia de manhã e de tarde.”
Ela diz que ele chegou a trancá-la com as três filhas em casa. “Ficamos em cárcere privado. As crianças perderam uma semana de aula porque a gente não podia sair de casa.”
FÚRIA
Ela só decidiu dar um basta nas agressões que sofria quando sua filha mais velha, de 11 anos, teria sido vítima também. Era dia 4 de setembro de 2011. Ela conta que o ex acordou e avisou: “De hoje você não passa” e logo começou a agredi-la com a fivela de um cinto. “Ele foi desferindo na minha cabeça e eu sangrei muito, porque ele furou minha cabeça. Minha filha veio e colocou a mão na frente, tentando me defender, foi quando ele bateu a fivela e quebrou o dedo dela. Eu estava caída no chão. Isso foi a gota d’água.”
Quando ele deixou a casa e as trancou no imóvel novamente, ela conseguiu contato com a vizinha pela janela. “Comecei a gritar os vizinhos e pedi para chamarem meu pai e a polícia. Os policiais arrombaram a porta e ficaram muito assustados quando me viram sangrando.”
Ela juntou algumas peças de roupas e brinquedos das filhas e fugiu acompanhada da polícia. Ficou escondida na casa de amigos. “Fiz boletim de ocorrência denunciando ele por tudo, por lesão corporal, por ameaça e por cárcere privado. Depois de tudo ele ficou uns dez dias desaparecido e voltou, mas estava mais calmo.”
Os dois ficaram separados, mas voltaram a ter contato. Após algumas semanas de convívio, a pressão para que reatassem voltou a ser feita por ele. “Ele começou a ligar no meu serviço. Teve um dia que ele telefonou 32 vezes no meu celular e deixou umas 50 mensagens ameaçadoras. Dizia que estava no meu emprego e ia invadir lá e me prejudicar. Tive crise nervosa e fui no Fórum pedir ajuda.”
Atendida pelo promotor de Justiça José Lourenço, ela relatou todo drama vivido. “Mostrei para o promotor as fotos que meu cunhado tirou do meu rosto cheio de hematomas, desfigurado, uma semana depois que ele me bateu e o promotor só disse que eu não precisava falar mais nada que ele ia pedir a prisão preventiva dele.”
Os policiais conseguiram prender o agressor apenas no dia 16 de dezembro. Ficou atrás das grades por quatro meses. Foi solto no dia 9 de abril, mas a ex-mulher alega que não foi comunicada. Soube por acaso da soltura dele. “Uma amiga nossa ouviu o nome dele pedindo um táxi do CDP onde estava preso e me avisou. Fiquei desesperada porque ele vai atrás de mim.” No mesmo dia, ele voltou a ligar no serviço da ex-mulher. “Ele me agrediu verbalmente. Ficava dizendo que eu tinha acabado com a vida dele e que ele não ia ainda fazer nada comigo porque estava preocupado em se reerguer, mas que eu ia pagar por tudo.”
Os dois se encontraram no dia 10 de abril e acabaram discutindo. “Ele foi até minha casa entregar as meninas e acho que os vizinhos ficaram preocupados e chamaram a polícia. Ao ver as viaturas perto de casa, ele retornou. Como os policiais estavam perto, comecei a falar que ele não tinha me matado porque tranquei o portão com cadeado. Ele ficou nervoso, me ameaçou e desacatou os policiais que deram voz de prisão.” Ele está preso há um mês, mas não se sabe até quando. “Ele tem que ficar preso por muito tempo. Tenho certeza que vai concretizar a ameaça. Se ele sair, ele vai me matar, porque ele perdeu tudo.” A Justiça o proibiu de se aproximar da mulher e das crianças. Ele tem que manter a distância mínima de cem metros delas.
Desde setembro de 2011, quando fez a primeira denúncia contra o ex-marido, ela tem guardado os boletins de ocorrência. “Na DDM foram umas seis denúncias. Estou cansada, não aguento mais ficar atrás de DDM, de Fórum, de advogado, de polícia. Estou quase perdendo meu emprego, por isso resolvi procurar a imprensa. Quero viver, ter minha vida em paz. Tenho três filhas para cuidar.”