Já temos batido nessa mesma tecla há algum tempo. Está faltando mão de obra para o arranjo produtivo do calçado. Agora dados do Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados) comprovam estatisticamente o que já era claramente percebido. Levantados pelo Comércio em homenagem ao Dia do Trabalhador, esses dados mostram que nossas indústrias perderam 8% de seus funcionários em aproximadamente uma década.
Como ninguém muda de vida quando está satisfeito, ao contrário, luta para manter o status alcançado, é de se acreditar que as condições de trabalho e os salários oferecidos por nossa indústria não estão mais atraindo trabalhadores na medida de suas necessidades.
Há vários motivos para isso. O principal deles está ligado ao bom momento vivido pelo país, que já se estende por mais de uma década. Nesse período, as classes de baixa renda experimentaram um aumento em seu poder de compra, o que demandou mais consumo. O crescimento natural da cidade a obrigou a aumentar a gama de produtos e serviços oferecidos, pois quanto maior uma cidade, maior sua influência sobre a região de entorno. No caso específico de Franca, não são apenas as cidades que pertencem a sua região administrativa que estão mais dependentes de seu comércio e seus serviços. Em função da proximidade, parte da região sul de Minas Gerais também encontra mais praticidade em nossa cidade.
Em função dessas transformações, surgiram novas oportunidades de emprego, todas elas bem mais interessantes do que aquelas oferecidas pela indústria, geralmente centradas em tarefas repetitivas e monótonas, realizadas em um ambiente fechado, barulhento e talvez não tão atraente para muitos como aqueles encontrados em escritórios, lojas, shopping e vários outros.
Pesa também sobre esse cenário o fato de parcelas significativas de população terem buscado sua qualificação. Com mais acesso a educação, é de se esperar que as pessoas busquem tarefas mais qualificadas, menos mecânicas e que proporcionem mais perspectiva de crescimento profissional, tudo o que nossa indústria não consegue oferecer.
Mas, de qualquer forma, existe outro motivo que não aparece nas estatísticas, mas que são importantes para explicar essas mudanças. Nossas empresas não perceberam essas tendências e pararam no tempo. Não se modernizaram e não se prepararam para os novos tempos e agora não conseguem atrair mão de obra nem pelo salário nem pelas condições de trabalho. Não inovaram em termos de produção, não criaram planos de carreira, não reciclaram suas fábricas e ainda esperam por trabalhadores sem qualificação, que se submetam a um trabalho chato e sem graça para os padrões e expectativas dos tempos a-tuais.
Nesse sentido, é natural que as pessoas estejam migrando para outras áreas. Mesmo que não recebam salários mais altos, conseguem, porém, um pouco mais de estabilidade e melhores condições de trabalho de vida.