Eduardo Rocha
da Auto Press
De uns tempos para cá, as ruas brasileiras têm sido invadidas por modelos que, apesar de estamparem no capô uma marca de luxo, internamente ficam aquém das aparências. São versões que passam por um processo de “depenamento” - perdem equipamentos, itens de conforto e materiais de acabamento mais requintados -para chegar a um preço mais palatável. A intenção é caber no bolso da classe média mais abastada e ganhar volume. Modelos de entrada de Mercedes-Benz e BMW, por exemplo, têm estas características. A Audi preferiu ficar fora dessa briga. A estratégia da marca, reafirmada com a chegada do sedã A4 renovado, é manter o requinte e preservar uma imagem premium. Por isso, o A4 mais barato é bem mais caro que os rivais. Ele sai a R$ 149.700 contra aproximadamente R$ 135 mil do Classe C180 e R$ 102 mil do BMW 318i, que aposta mais fortemente nas versões menos equipadas e está em fim de geração.
Por esses valores, os modelos dessas marcas trazem itens obrigatórios em sedãs médios de marcas comuns, como ar automático, trio, seis airbags, sistema keyless, controle de estabilidade e tração, controle de cruzeiro e faróis bixênon. Só que o recheio do sedã da Audi inclui os itens capazes de confirmar a condição de modelo de luxo: acabamento em couro, bancos dianteiros com ajustes elétricos, teto solar, retrovisor eletrocrômico, rodas de 17 polegadas e sensores de obstáculos traseiros, luz e de chuva. O único opcional é o sistema de navegação, que é integrado ao MMI de série. Pelo GPS cheio de bossas, como 20 Gb de memória para música e 10 mil pontos de interesse, paga-se mais R$ 10.350.
Esse A4 corresponde à segunda metade da oitava geração considerando o A80 como a primeira e ele incorporou alguns itens para assinalar a nova fase. Visualmente, a diferença mais marcante fica na parte das luzes. Na frente, ganhou leds contínuos e atrás uma nova distribuição das luzes. O capô ganhou um corte mais reto na linha dos faróis e a grade trapezoidal teve as arestas superiores aparadas, o que deixou o conjunto ótico mais pontudo. O para-choque recebeu um espoiler mais acentuado e os faróis de neblina agora são retangulares e os compartimentos deles ficaram maiores e também pontudos. O escapamento agora passa a ter sempre saída dupla.
Na parte mecânica, o A4 recebeu alguns melhoramentos, como recalibragem de amortecedores e da suspensão traseira e o sistema de direção eletromecânica Servotronic. Como resultado das mudanças nos apoios e nos braços da suspensão traseira, o A4 chegou a ganhar 1 cm na distância entre-eixos, apesar de não ter sofrido modificações no chassi. Já o Servotronic, além de aliviar o trabalho do motor, é capaz de mudar a relação entre o ângulo da direção e o esterçamento da roda de acordo com a velocidade. Quando se está mais devagar, como em manobras ou ao dobrar uma esquina na cidade, é preciso girar menos o volante para obter um determinado ângulo de esterçamento. Em situações de estradas, em ritmo mais rápido, a relação é menos direta, o que suaviza as reações aos movimentos da direção.
Apesar de o trem de força do modelo não exibir qualquer evolução, o A4 apresenta números superiores aos dos rivais. O motor 2.0 TFSI turbo com injeção direta de combustível tem 180 cv e é gerenciado pelo câmbio Multitronic, designação da Audi para sua transmissão continuamente variável com modo manual de oito marchas pré-estabelecidas. O BMW 318i oferece apenas 136 cv e o Mercedes C180 tem 156 cv. A vantagem dos rivais é que eles têm tração traseira, enquanto o motor do A4, nesta versão, aciona as rodas dianteiras. As versões superiores, que chegam nos próximos meses, Ambition e S4, terão a tração integral Quattro.
A introdução de novos recursos eletrônicos ao modelo mais básico reforça o vínculo da marca de luxo do Grupo Volkswagen com a imagem de requinte e refinamento tecnológico. Esta estratégia responde, na verdade, a uma necessidade, já que é a de menor tradição que a das rivais diretas. Mas a Audi paga, no mercado, o preço dessa estratégia. A expectativa de vender em um ano 1.900 unidades do A4 representa 10% a mais que em 2011. Mas é quase metade do que a Série 3 da BMW vendeu no ano passado (foram 3.441 veículos) e 25% do que a Mercedes Classe C emplacou (6.838 carros). Pelo menos no Brasil, mesmo em carros premium, preço ainda é o maior diferencial.
Agressividade dominada
O normal é o motor reagir à aceleração com o aumento de giros. Em um veículo com câmbio CVT, como o A4 Ambiente, a pressão que o motorista exerce no acelerador se reflete no ponteiro do velocímetro, mas não altera muito o tacômetro. Há dois jeitos para o motor se fazer ouvir: chegar a velocidades absurdas - no caso desse Audi, lá pelos 180 km/h - ou recorrer às falsas marchas, criadas pela montadora para alimentar a sensação de esportividade em condições razoavelmente civilizadas. O CVT Multitronic se faz sentir também nas arrancadas, quando fica evidente uma certa “patinação”. Depois de algumas repetições na operação, porém, o incômodo se esvazia.
O A4 não nasceu mesmo para oferecer grande agressividade. Inclusive porque os 180 cv do motor arrastam quase uma tonelada e meia e são despejados apenas nas rodas da frente. Não é esta a vocação do modelo. Tanto que este mesmo propulsor fornece 211cv na versão imediatamente superior Ambition, que tem tração integral. A condução mais esportiva é até possível, mas o próprio carro não instiga. De qualquer forma, o sedã conta com recursos que ampliam a margem de manobras, como a direção elétrica com relação variável entre o volante e o esterçamento das rodas. Ou mesmo o diferencial dianteiro com deslizamento limitado. A vocação natural desse A4 é mesmo o uso mais comportado. Para isso ele tem excelentes recursos.
O interior não chega a ter um acabamento primoroso, mas é bem cuidado e o revestimento alterna materiais com algum requinte e outros bem honestos. Os bancos mais parecem poltronas, de tão encorpados e confortáveis. E também têm uma excelente ergonomia: seguram bem o corpo nas curvas e dão bom suporte para as costas. Os comandos ficam nos locais tradicionais e o sistema de entretenimento MMI é facílimo de manejar. Com ele se pode controlar todos os recursos do carro: ar, som, telefonia, navegação e configurações. O espaço interno é uma boa qualidade do A4. O entre-eixos de 2,81 metros é mais que suficiente para que quatro passageiros tenham margem para se espalharem. O silêncio no habitáculo é outra característica que chama a atenção. Mas este isolamento acústico é francamente ajudado pela serenidade do trem de força.
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