Nos últimos 63 anos, Milton Franchini foi um observador privilegiado das lentas mudanças que foram alterando as paisagens francanas. Transitando diariamente pelas ruas e avenidas da cidade ele presenciou a chegada do asfalto e o desaparecimento dos paralelepípedos e das ruas de terra. Viu prédios surgirem e outros desaparecerem. Assistiu à chegada da iluminação mais intensa das fachadas comerciais e percebeu nas ruas o aumento da velocidade impressa em nosso cotidiano.
Com seus 81 anos, casado com Maria Eli Franchini, dois filhos, ele se orgulha de ser o mais antigo taxista de Franca, ou pelo menos um dos mais antigos. Ainda ágil e firme ao volante de seu Gol, Franchini afirma que está na praça Nossa Senhora da Conceição desde 1949, época em que a delegacia ainda era responsável pela “matrícula” dos taxistas. Em todo esse tempo, viu muita coisa acontecer na cidade, nas estradas e nas fazendas da região, levando e trazendo pessoas com os mais diferentes desejos, anseios e necessidades.
Francano de nascimento, ele começou a trabalhar ainda criança, como era comum em sua época. Primeiro ajudando sua mãe. Trabalhava na produção de sabão, ajudava a fazer pães e desempenhava várias outras atividades. Depois, aprendeu o ofício de pedreiro com um parente e trabalhou em muitas construções, em paralelo com o táxi.
Franchini lembra que trabalhou na construção da casa do conhecido artista Bonaventura Cariolato, onde é hoje a Casa da Cultura. Assentou a pesada porta e fez toda a fachada, colocando as pastilhas que estão lá até hoje. Enquanto as fixava, ele se lembra que o artista, responsável pela construção do Mosteiro de Claraval, ficava em embaixo, ao lado do andaime, falando em seu português um pouco enrolado, misturado ao italiano.
“Ele queria que eu fosse mais rápido. Para isso, me dizia para passar as pastilhas na língua, em vez de molhá-las no balde que estava comigo no andaime.”
Os estudos não foram muito longe. Como vários meninos de sua época, não passou do ginásio. Além da falta de incentivo, ele se recorda da falta de condições financeiras. Como eram oito irmãos, não havia recursos para os estudos superiores. A saída foi mesmo o trabalho.
Primeiro, pegou firme como pedreiro. Mas como era filho e sobrinho de taxistas, logo abraçou essa profissão também. Aos 18 anos já pegava o carro de seu pai, um Ford 1946, e trabalhava no período noturno. Por um bom tempo foi pedreiro e taxista. Aos poucos, porém, foi largando as obras para se dedicar inteiramente ao taxi, trabalho que, diz, lhe deu tudo o que tem hoje.
Um de seus primeiros carros, lembra-se com orgulho, ainda tinha a direção e as rodas com friso de madeira. Era um “Chevrolet Cabeça de Cavalo”, que ele usou muitos anos na praça.
Mas, ser taxista nos anos 50, 60 e 70 era algo muito diferente de hoje. Como a cidade era menor, o tipo de serviço prestado era outro. Franchini diz que perdeu as contas de quantas vezes foi para São Paulo levando fazendeiros e negociantes de café. Lembra-se, também, das viagens a Santos com Custódio Faleiros, negociante de café de Patrocínio Paulista.
Geralmente, eram viagens de 9 a 10 horas, recorda-se. Além de ter que passar por dentro de todas as cidades que ficavam pelo caminho, a maior parte da estrada era de terra. “Asfalto só havia de Campinas a São Paulo. A gente passava um calor danado, porque tinha que usar guarda-pó. No final, a gente chegava lá cuspindo tijolo”, se diverte Franchini.
As corridas para as fazendas naquela época eram outra constante. Com uma economia ainda fortemente baseada na agricultura, principalmente no café, as fazendas mantinham muitos colonos que regularmente precisavam vir para a cidade, pelos mais diversos motivos.
PARTO
Franchini se lembra de uma vez que foi chamado à fazenda Cachoeira, em Restinga. Uma mulher estava para dar a luz. Como era época de chuva, avisaram que ele não conseguiria descer até lá com o carro. Deveria parar na parte alta da estrada e esperar pela carroça que levaria a moça e seu desesperado marido.
Mas quando o casal chegou na carroça, a mulher já estava entrando em trabalho de parto. Ainda jovem, Franchini não sabia muito bem como lidar com aquela situação. Forrou o banco com um pano que sempre carregou em seu carro, colocou a moça deitada, com a cabeça no colo do marido e dirigiu o mais rápido que pôde para Franca. “Ainda conseguimos chegar a tempo, mas a criança estava quase saindo.”
Ainda pela região, Franchini trabalhou muito para o Banco do Brasil, levando e trazendo dinheiro de Ribeirão Preto e conduzindo fiscais e outros agentes para as fazendas de café. Fez, também, muitas “corridas”, para a usina de Peixoto, então recém-inaugurada. Certa vez, ele se recorda que foi buscar dois “gringos” na estação de trem. Como não falava inglês, só entendia os tapinhas nas costas que eles camaradamente lhe davam de vez em quando. Como os estrangeiros não paravam de falar, ele resolveu dar um susto nos dois. Acelerou e, no momento de passar por uma cancela, acelerou ainda mais e a contornou. Os “gringos” se abaixaram no banco de trás. “Aí eles me deram mais tapinhas nas costas, em sinal de aprovação.”
Na cidade, as coisas esquentavam nos finais de semana. Naquela época, os taxistas eram muito requisitados para festas, batizados e casamentos. Conduziam as noivas, as famílias e parentes, todos geralmente bem arrumados. Além dessas festas, Franchini também se recorda dos bailes e dos carnavais da AEC, no centro da cidade, onde também trabalhou por muitos anos.
Com excelente memória, o taxista se lembra de cada pedaço da cidade. Lembra-se, por exemplo, de quando a praça Nossa Senhora da Conceição avançava pela rua Dr. Júlio Cardoso, tempo em que o policial Ponciano, um negro alto e forte, substituía os semáforos na organização do trânsito.
“Quando o dr. Onofre Gosuen (prefeito francano na década de 50) resolveu aumentar a rua e diminuir a praça houve muita gritaria contra ele. Hoje já está apertada de novo”, ironiza.
RECORDES
Nesses 63 anos em que esteve ao volante, Franchini se orgulha daquilo que se poderia chamar de alguns recordes. Nunca teve problemas com o carro, nem quebra nem falta de combustível, nem qualquer outra coisa. Também nunca sofreu nenhum tipo de violência, com exceção da tentativa de um moleque que tentou assaltá-lo e ele prontamente espantou com alguns poucos e rápidos safanões. Nunca bateu o carro, apesar de já ter experimentado o gosto de ser acertado por uma moto, veículo que ele chama atualmente de “praga”. E o principal, nunca recebeu uma multa. “Eu sempre andei devagar, nunca fui de pisar”, diz ele.
Toda essa calma e prudência, porém, hoje lhe custam algumas chateações. “Como eu toco o carro na minha marcha, escuto um monte de abobrinha dos outros motoristas todos os dias. Mas, não ligo. Mando passar por cima.”
Franchini diz que não observa nenhum preconceito dos clientes por conta de sua idade. Ele mantém alguns fregueses fieis, que não se importam de esperá-lo. Foi o caso de uma senhora que, em vez de pegar outro táxi, preferiu se sentar em um banco da praça para esperar o fim da entrevista de Franchini.
O taxista se apressou, então, em encerrar a entrevista. Agradeceu a atenção do repórter e foi abrir a porta de seu Gol para a cliente. Ainda deu tempo de dizer que está pensando em parar de trabalhar no final deste ano.
Mas, pela forma cuidadosa e animada com que deixou o ponto e pelo fato de estar lá todos os dias das 6h da manhã às 4h da tarde - a pontualidade dele é atestada pelos colegas de ponto -, fica difícil acreditar que ele não chegará aos 65 anos de profissão.