Desde Maquiavel, vários filósofos e pensadores estabeleceram distinções significativas entre a sociedade civil e o Estado. No mundo moderno e mais complicado de hoje, pode-se dizer que a sociedade civil é caracterizada por um impulso organizatório de seus cidadãos, sob as mais variadas formas e objetivos, complementando-se ou até mesmo se contrapondo às ações do Estado e de seus tradicionais agentes políticos.
Joaquim Pedro Sobrinho, hoje aos 79 anos de idade, talvez nunca tenha se importado com essas questões teóricas. No entanto, depois de 36 anos à frente da Sociedade Assistencial do Bairro São José, pode-se dizer que acabou se transformando em um importante agente da sociedade civil francana.
Natural de Itirapuã, veio para Franca aos 10 anos de idade. Filho de colonos, estudou apenas até a 4ª série. Como seus 10 irmãos, começou a trabalhar cedo, ainda em sua cidade natal. Primeiro na roça, aos dez anos, ajudando seus pais. Logo depois, aos 11, já em Franca com seus avós, tornou-se sapateiro, uma tendência natural naquela Franca dos anos 1950.
Quando mais velho, resolveu arriscar-se em seu próprio negócio. Apesar de continuar no ramo do sapato, deixou a linha de produção e abriu uma oficina, onde consertava e também produzia alguns pares sob encomenda.
Em pouco tempo, resolveu dar mais um passo. Juntamente com seu irmão, Sebastião, abriu uma pequena fábrica de calçados. “Investimos na fábrica o dinheiro de um Fusca que meu irmão ganhou como prêmio no Magazine Luiza”, lembra-se Joaquim.
A empresa denominada JSele não durou muito. Faltou capital de giro para aguentar a lentidão dos recebimentos. As dívidas foram se avolumando e os irmãos tiveram que fechar a fábrica. Joaquim voltou, então, para sua oficina e continuou consertando sapatos até se aposentar, em 1987.
Paralelamente ao trabalho que exerceu para sobreviver, Joaquim também se dedicou ao trabalho voluntário. Muito ligado à Igreja Católica, sempre atuou em eventos beneficentes.
Morador do bairro São José desde 1963, época de poucas e esburacadas ruas, Joaquim logo começou a trabalhar para o desenvolvimento do local, juntamente com outros moradores. Em 1975, começaram a discutir a idéia de uma associação de bairro, que foi criada depois de algumas reuniões.
Pleitearam, então, um terreno da Prefeitura para instalar a sede da entidade. Construída em forma de mutirão, a sede da Sociedade Assistencial começou a funcionar provisoriamente em 1981. A inauguração veio em 1985, depois de muito trabalho desenvolvido por vários moradores do bairro e outros voluntários da cidade.
Hoje, próximo dos 80 anos, que completará ainda neste mês, pai de 4 filhos bem-sucedidos, avô de 10 netos e já com um bisneto, Joaquim comemora 36 anos ininterruptos à frente da entidade. E não pensa em parar.
Comércio da Franca - O senhor está há 36 anos como presidente dessa entidade. Por que tanta dedicação? O senhor já recebeu algum tipo de remuneração?
Joaquim Pedro Sobrinho - Não, nunca recebi salário nem qualquer tipo de remuneração da Sociedade São José. Acredito que minha dedicação se deva a minha crença. Sempre fui cristão e sempre tive muita fé. Acredito que fé, sem ação, é algo morto, que não serve para nada. Já vi muita gente cristã com Bíblia na mão e belos discursos, porém sem nenhuma ação. Respeito a postura de cada um, mas acho a ação mais importante. E meu trabalho voluntário não se resumiu apenas a essa associação. Quando era mais jovem, fui um participante ativo de eventos solidários da Igreja Católica. Fui também um dos três ministros da eucaristia da Diocese de Franca e também trabalhei pelo bairro antes da associação.
Comércio - Como a entidade sobrevive há tanto tempo?
Joaquim - Desde 1979, se não me engano, quando a Sociedade São José foi declarada de utilidade pública municipal, nós recebemos um subsídio da Prefeitura. Atualmente está em R$ 8.600,00 ao ano. Além disso, participamos de eventos beneficentes que acontecem pela cidade. Na Expoagro, por exemplo, temos participação no estacionamento e também montamos uma barraca de fogazza. Nesses dois últimos anos, participamos também da festa da rádio Difusora AM, o “Arraiá Difusora”. Na Feira da Fraternidade, que completará 34 anos agora em 2012, nós sempre estamos presentes, com a fogazza e a venda de sapatos que recebemos como doação das empresas. Fomos, inclusive, um dos primeiros participantes dessa feira. Estamos lá desde seu início, há 33 anos, sem falhar em nenhum. Além dos eventos, recebemos também muitas doações. São roupas, sapatos, móveis e todas essas coisas que vocês estão vendo aqui. Muitas nós doamos e outras nós também vendemos, para ajudar nas despesas.
Comércio - E quanto a instituição arrecada nesses eventos?
Joaquim - Depende muito. Cada evento é um evento e não há como prever exatamente. O melhor de todos é a Feira da Fraternidade, que nos dá aproximadamente R$ 10 mil. Mas, no ano passado, por exemplo, nós acabamos ficando em um lugar muito ruim e arrecadamos bem menos.
Comércio - E qual é o custo fixo da entidade?
Joaquim - É difícil precisar exatamente. Entra e sai muita coisa ao mesmo tempo e nós não temos funcionários para controlar esse fluxo. Aqui temos apenas o caseiro, que não recebe salário, mas em troca recebe água, luz e moradia. De resto, pagamos os materiais básicos de escritório e limpeza, água, luz e telefone. Precisamos comprar também os materiais para os cursos e pagamos os professores de informática, porque não conseguimos voluntários nessa área. Além disso, tem o custo de manutenção e algumas obras que sempre precisam ser feitas. Tem as cestas básicas que às vezes precisamos comprar e assim por diante. Mas na diretoria nós temos o tesoureiro e o conselho fiscal que controla tudo isso.
Comércio - O valor recebido do poder público é satisfatório?
Joaquim - Penso que é pouco. Poderia ser mais, porque fazemos um trabalho assistencial importante. Mas entendo que seria difícil atender com mais verbas a todas as instituições. Talvez precisasse haver um pouco mais de responsabilidade por parte das instituições.
Comércio - O senhor quer dizer que há instituições que não usam bem o dinheiro público?
Joaquim - Não posso dizer isso, porque não conheço a realidade de todas as instituições. As que conheço em Franca são muito sérias. Digo de forma geral, pelas coisas que escutamos e vemos pela mídia nacional.
Comércio - E quais são as atividades desenvolvidas pela Sociedade São José?
Joaquim - Desde que começamos, lá nos anos 1970, oferecíamos cursos para gestantes, cursos de corte e costura, de alfabetização e de datilografia. Hoje oferecemos esses mesmos cursos. A datilografia, é claro, transformou-se em curso básico de computação. Nos cursos de gestantes, as futuras mães, auxiliadas pelas professoras, confeccionam todo o enxoval do bebê e ainda têm orientações sobre higiene e saúde. No ano passado, 55 mães foram beneficiadas com esses enxovais. Montamos uma classe de alfabetização com 17 alunos e duas turmas de corte e costura com oito alunas cada. No curso de computação, formamos umas dez pessoas. Também fizemos doações de alimentos para 380 famílias carentes, dentro de nossas possibilidades. E, no dia 23 de dezembro, entregamos 50 cestas de Natal e brinquedos para as famílias cadastradas na entidade. Além disso, em nossa sede acontecem muitas atividades durante a semana. Há palestras educativas, reunião de idosos, aulas de balé, grupos de oração, comemorações de datas festivas, como o Dia das Mães, e até a reunião dos Alcoólicos Anônimos.
Comércio - E a sede sempre foi movimentada assim?
Joaquim - Antes era mais ainda. Já tivemos um grupo de jovens bastante ativo. Muita gente que está hoje casada e bem de vida passou por aqui. Nós fazíamos festival de música sertaneja. Rio Negro e Solimões já cantaram por aqui e Gian e Giovani vinham aqui quando ainda eram Sereno e Sereninho. Mas hoje as coisas mudaram. Já tentamos reativar o grupo de jovens, mas acho que a meninada de hoje não está muito interessada nessas coisas.
Comércio - O senhor já teve algum problema com alguém durante esse tempo em que ficou à frente da instituição. Por exemplo, já foi acusado de alguma coisa, algum desvio?
Joaquim - Nunca, graças a Deus. Mas, dentro de meus princípios cristãos, se eu tivesse feito alguma coisa de errado, eu teria problemas com minha consciência. Como nunca fiz nada, a não ser trabalhar pelo bem da entidade, eu a tenho bastante tranquila, dentro desses mesmos princípios.
Comércio - O senhor nunca deixou de ser presidente da Sociedade nesses 36 anos?
Joaquim - Uma vez apareceu alguém pleiteando a presidência. Prometia muitas coisas e parecia que poderia fazer um trabalho muito interessante. Porém, aos poucos, todos perceberam que a intenção era outra. Ele queria mesmo era o apoio da instituição para candidatar-se a vereador. Pelo que me consta, nem a família dele, que ajudava aqui na entidade, votou nele para a presidência. E também não ganhou para vereador.
Comércio - E o senhor nunca pensou em candidatar-se a vereador, depois de 36 anos de trabalho social?
Joaquim - Nunca tive essa intenção. Sei que meu trabalho é político, mas não me interesso pela política partidária. Minha política é a da ação social.
Comércio - E houve outras pessoas que tentaram se aproveitar da instituição?
Joaquim - Sempre tem. Como sempre existiram pessoas para ajudar, sempre existiram pessoas que tentaram se aproveitar. Mas, graças a Deus, foram poucas. Lembro-me de uma vez, época em que o leite era distribuído pelas associações beneficentes, que uma pessoa do bairro quis pegar mais do que o devido. Eu disse que não podia, que ainda tinha gente para pegar. Ele colocou um dinheirinho em meu bolso. Percebi que a caseira viu e fiquei doido. Já pensou sujar um nome e toda uma vida de trabalho por alguns litros de leite? Disse que não podia e a pessoa foi embora furiosa. Ficou muito tempo sem falar comigo.
Comércio - Houve uma época em que o senhor trabalhava e também se dedicava à instituição. E depois, aposentado, continuou se dedicando ativamente à entidade. Sua família nunca lhe cobrou por isso?
Joaquim - Não, ao contrário. Meus filhos sempre me apoiaram. Minha filha, inclusive, é assistente social da Prefeitura. Mas, houve uma época em que minha mulher reclamou um pouco. É que muita gente ia bater na minha casa, depois de um dia corrido de trabalho...
Comércio - E existe algum trabalho de renovação dentro da Sociedade São José?
Joaquim - Estamos tentando, mas é uma dificuldade até para formar a diretoria. As pessoas continuam ajudando, mas hoje é diferente. Antigamente, doavam seu tempo. Agora, preferem doar em espécie, produtos ou dinheiro. Eu entendo, a vida ficou mais corrida e o mundo oferece muitas outras coisas. Há três anos, eu recebi o título de presidente de honra da entidade, mas no fundo continuo fazendo as mesmas coisas de sempre.
Comércio - O que o senhor acha que vai acontecer com a São José quando o senhor resolver parar?
Joaquim - Penso que esse trabalho já é maior do que qualquer pessoa. Agora as pessoas não aparecem porque estou aqui. Na hora certa, vai aparecer alguém para dar continuidade ao trabalho. Acredito que fé, sem ação, é algo morto, que não serve para nada. Já vi muita gente cristã com Bíblia na mão e belos discursos, porém sem nenhuma ação.
Antes era mais ainda. Já tivemos um grupo de jovens bastante ativo. Muita gente que está hoje casada e bem de vida passou por aqui. Nós fazíamos festival de música sertaneja. Rio Negro e Solimões já cantaram por aqui e Gian e Giovani vinham aqui quando ainda eram Sereno e Sereninho. Mas hoje as coisas mudaram. Já tentamos reativar o grupo de jovens, mas acho que a meninada de hoje não está muito interessada nessas coisas.
As pessoas continuam ajudando, mas hoje é diferente. Antigamente, doavam seu tempo. Agora, preferem doar em espécie, produtos ou dinheiro. Eu entendo, a vida ficou mais corrida e o mundo oferece muitas outras coisas