Depois do Réveillon, ainda férias escolares e viva a quentura de dezembro, vinha a ferveção de janeiro, a quentura de fevereiro e a tepidez de março, prenúncio da queda da temperatura nos meses seguintes
As estações do ano, naquela época, eram apenas consequências do movimento de translação da Terra. Convenhamos, explicação fria para as grandes transformações da superfície terrestre e suas influências no interior dos humanos, seus habitantes. Mais velha, tomei conhecimento da explicação do surgimento das estações do ano dada pela mitologia grega, que adorei.
Abril geralmente era aberto com uma aragenzinha que provocava o mesmo arrepio de quando a gente sente medo. Do nada, aquela suave brisa, com temperatura contrastante. Dizia-se, ao senti-la: o frio está chegando. Antigamente, em maio fazia frio. Isso era no tempo em que as barragens dos rios ainda não existiam, desmatamento era palavrão, jogar lixo nos córregos era feio, sacolinhas de plástico inexistentes: usávamos sacos de papel e sacolonas para carregar compras. Muita terra, poucas ruas calçadas, a chuva entrava pelo chão afora: inundação era causada por um ou outro bueiro entupido. Naquela época, em maio, começavam os preparativos para as festas juninas em homenagem aos santos Antônio, João e Pedro, em especial o grande baile na AEC, evento que tinha início com os convites oficiais para a formação dos pares que dançariam a quadrilha, nome que, na época, era usado apenas para designar contradança de salão, formada por pares.
Em maio começávamos a usar os casaquinhos de ban-lon para sair do cinema, da missa, da reza. Para ir ao baile, não, que a Patrícia não aprovava. Faz tempo que maio era um mês frio. Mas era o tempo em que a cidade não tinha largas avenidas, os carros eram poucos e reconhecidos à distância e os dirigidos por mulheres, contados nos dedos: o da dona Carlina, professora de História no IETC, o da dona Helena, professora de Educação Física da mesma escola. Alta velocidade, nem nome de filme era. A cidade terminava algumas ruas para baixo, para cima e para os lados da Matriz; a avenida Presidente Vargas tinha árvores plantadas no centro, nenhum calçamento; a avenida Brasil tinha cinco ou seis quadras, no final das quais ficava a zona do meretrício. Estação, Vila Nova, Cubatão e Santa Cruz eram bairros distantes. Em maio era época da gente visitar tio Cláudio, que morava nas imediações do Educandário Pestalozzi, e o fato era, para nós ainda pequenos, a própria Ilíada e a Odisséia. Não tinha calçamento por ali, saíamos em bando para buscar argila no córrego, logo abaixo. Passávamos no meio do mato, entrávamos na água gelada, pegávamos lambaris, que morriam tão logo voltávamos para casa. Fazíamos enterro solene deles. Uma tristeza. Acho que maio era o mês de aniversário do tio, ou havia alguma outra comemoração importante familiar. Durante a visita - que durava um dia inteiro, para justificar a distância - as conversas dos adultos giravam em torno do frio que faria nos próximos meses.
Em junho e julho tinha geada, as manhãs eram nubladas. No entanto, íamos para as aulas de educação física a pé, pois não havia perigo de atropelamentos, acidentes, agressões. As outras aulas começavam às sete horas, as de educação física, às seis horas e quinze minutos. Ainda estava escuro, nem sei como conseguíamos chegar lá. Dona Helena punha-nos perfiladas, com aqueles shorts curtos em forma de balão, só de camisetas, pernas de fora, meias e tênis brancos. A pele da gente virava lixa de tão arrepiada, mas não tinha barriga me dói: exercícios, alongamentos, estiramentos, preparação da coreografia para a demonstração de ginástica lá adiante, em setembro, no dia da Pátria: a gente tinha Pátria amada.
Há pessoas reclamando das baixas temperaturas neste começo de maio. No entanto - agora, sinal de envelhecimento, vou falar feito minha avó - no meu tempo, maio era muito mais frio.
MAIO
Quinto mês do calendário gregoriano, maio tem 31 dias. A origem do nome talvez seja derivação de Maya, deusa grega, mãe de Hermes. Na Igreja Católica é o mês de Maria, mãe de Jesus. Ainda é chamado de mês das noivas, embora a preferência para casamentos, revela a estatística, agora recaia em setembro.
EFEMÉRIDES
1º de maio, Dia do Trabalhador. 7 de maio, Dia do Silêncio e do Oftalmologista. 9 de maio, Dia da União Europeia. 11 de maio, Dia Nacional do Reggae (isso é coisa do Sarney!). 13 de maio: Abolição da Escravatura no Brasil. 12 de maio, Dia do Enfermeiro. 13 de maio, Dia do Zootecnista e de Nossa Senhora de Fátima. 15 de maio, Dia das Famílias. 16 de maio, Dia do Gari. 17 de maio, Dia da Internet - quem diria, e Dia Internacional contra a Homofobia. 18 de maio, Dia Internacional dos Museus. 19 de maio, Dia do Acadêmico de Direito. 25 de maio, Dia da Toalha (pode?). Dia 30 de maio, Dia do Geólogo. No segundo domingo, dia 12, Dia das Mães.
LEIS
‘A Lei 12.605, de 04/4/12 determina que, doravante, todo aquele ou aquela que se formar em instituição de ensino terá sua habilitação diferenciada por gênero. Assim, no diploma constará: engenheiro (homem), engenheira (mulher); advogado (homem) ou advogada (mulher); médico (homem), médica (mulher), professor (homem), professora (mulher). A princípio estranha a determinação: há muito havia a flexão. E quanto a outras habilitações e cargos como dentista, economista, jornalista, maquinista, policial, cientista, estudante, comandante, governante? Outra coisa: e quando a mulher fizer curso de torneiro mecânico? Será identificada como torneira mecânica?’ (Blog do Bluezão)
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br