08 de julho de 2026

Gestão e inovação


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A candidatura de um intelectual e acadêmico como Márcio Porchmann (atual presidente do IPEA) à prefeitura de Campinas vai recolocar na agenda do debate eleitoral o papel do poder local pela esquerda democrática.

Lugar antes ocupado pelas reflexões transformadoras que – principalmente – Celso Daniel fazia no ABC, o espaço para o poder local deve ser retomado como um elemento fundamental para o êxito de políticas públicas, considerando que parte do sucesso do governo federal do PT (apontado pelas seguidas reeleições e altos índices de popularidade dos seus governos) decorre de experiências de prefeituras municipais que deram certo, como os bancos populares municipais, o orçamento participativo, políticas de distribuição de renda e a inversão de prioridades de investimentos locais, antes atrelada apenas à lógica do capital especulativo imobiliário.

Para Porchmann, a absorção do ideário municipalista dos anos 80 e suas inovações levaram a uma situação onde não se observa grandes diferenças entre os diversos partidos políticos na gestão local, especialmente nas cidades maiores. A situação específica de Franca, onde o atual prefeito permaneceu atrelado a uma visão ultrapassada sobre o papel da prefeitura, centralizada e incapaz sequer de perceber a nova realidade econômica e social do País, com melhor distribuição de renda e possibilidade de inserção diferenciada no cenário internacional (afinal, ainda temos um arranjo produtivo local com grande capacidade de produção calçadista exportadora), fez a cidade perder oito anos com o equívoco desta visão.

Para recuperar o tempo perdido, inovações na gestão serão necessárias e fundamentais para um futuro desenvolvimento mais sustentável. Porchmann considera que a ‘esquerda democrática, que tem como valor fundante a radicalização da democracia, tem desafios próprios’, incluindo uma integração dos conselhos municipais ao orçamento participativo para melhorar a qualidade dos investimentos.

Outro desafio será lidar com cidades que tiveram uma forte experiência industrial e hoje começam a se transformar em municípios de serviços. A cidade industrial empurrou as pessoas mais pobres para as periferias e comprometeu uma grande parte do tempo das pessoas com grandes deslocamentos. As cidades deverão colocar o trabalho e a residência mais próximos, com forte presença de espaços públicos qualificados e da educação, diz Pochmann.

As cidades deverão também ser preparar para a alteração na demografia das cidades brasileiras. Em vinte anos, a queda da fertilidade e o aumento do número de pessoas idosas vão transformar radicalmente as necessidades espaciais e as políticas públicas. Vão sobrar prédios escolares, principalmente nas regiões mais centrais, que deverão ser adaptados a outras utilidades.

É a hora de começar a pensar o que fazer com prédios públicos que ficarão esvaziados e dar-lhes, com os estudos técnicos devidos, uso e função, ao invés de construir coisas novas. Mas isso é tarefa para o novo prefeito, pois o que sai nunca pensou no futuro, apenas na pretensa revanche dos anos de ostracismo que amargou e para onde deve retornar.

Mauro Ferreira
Arquiteto, bolsista da FAPESP e pesquisador do LabDes da UNESP - Franca