10 de julho de 2026

Artista plástico de Franca produz capas das revistas da editora Abril


| Tempo de leitura: 8 min
INTERNACIONAL - Em seu ‘escritório’, Otávio Silveira mostra a ilustração publicada na revista MuyInteressante, da Espanha

Quem nunca parou em frente a uma banca de jornal ou mesmo na fila de um supermercado para ver a capa de uma revista Playboy ou Superinteressante? O que a maioria das pessoas não sabe é que muitas capas de revistas de circulação nacional como essas são produzidas aqui em Franca.

O responsável pela elaboração desse material, que alia criatividade e tecnologia, é Otávio Silveira, 42. Nascido na vizinha Ribeirão Corrente, o designer vive em Franca há mais de 20 anos. Artista plástico por formação e ilustrador por profissão, Silveira ganha a vida trabalhando como freelancer para uma das maiores editoras do país: a Abril. Em cinco anos, já elaborou mais de 70 capas para as revistas Superinteressante, Playboy, Mundo Estranho, Aventuras na História, Veja Rio, Capricho, Você S/A, Nova Escola, entre outras.

O cenário para Silveira criar as capas é aconchegante: a sala da casa onde ele mora com a mulher, Kátia Morato, e os dois filhos, no bairro Santo Agostinho. Como freelancer, diz que tem desvantagens e benefícios: não tem renda fixa, porém, não cumpre horário; não tem patrão, trabalha de camiseta, bermuda e chinelos e faz o próprio horário. “Prefiro trabalhar à noite e de madrugada, produzo mais.”

As noites em claro renderam ao ilustrador de Franca não apenas ganho financeiro, independência e experiência, mas uma homenagem nacional: o Prêmio Abril de Jornalismo em 2009 por uma ilustração em matéria da revista Superinteressante intitulada Cachorros, Por Que eles Viraram Gente?.

Entre os trabalhos que desenvolveu para Abril, um deles foi publicado na Espanha, na revista MuyInteresante, detentora da marca Superinteressante no Brasil. Para fazer uma das ilustrações, como o prazo era curto, Silveira optou por “pegar emprestada” a batina de um padre para se inspirar. “Deu um rolo danado porque o padre ia usar a roupa naquele final de semana e um acessório ficou perdido no meio do caminho”, conta ele, aos risos.

Conceituado e reconhecido nacionalmente, Silveira tem hoje muitas histórias para contar. Mas, como a maioria dos grandes profissionais, começou de forma tímida. Fazia convites de casamento e cartões de visita. Depois, cursou artes plásticas na Unifran, foi professor universitário do curso em que se graduou, abriu uma agência de publicidade em Franca, mas deixou tudo para buscar a realização do sonho na capital do Estado. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Comércio da Franca - Por que você resolveu trabalhar em São Paulo?
Otávio Silveira -
Eu tinha um escritório aqui com oito funcionários, mas não sou um bom administrador. Então, eu resolvi fechar e ficar só na área de ilustração, mas não tinha muitas opções em Franca. Comecei a buscar trabalhos em São Paulo, mas tinha muita dificuldade porque as pessoas não me conheciam. Tinha muita gente boa no mercado e meu portfólio era muito fraco porque só tinha material de calçados, que não encantava ninguém por lá.

Comércio - Como fez para conquistar seu espaço na capital?
Silveira -
Comecei a fazer peças “fantasmas”. Pegava uma marca qualquer e criava uma peça. Mandei, então, para um amigo de São Paulo, que disparou meu portfólio para algumas pessoas. Por meio dessas peças consegui marcar umas entrevistas em São Paulo.

Comércio - Como você passou a ser freelancer de uma das maiores editoras do Brasil?
Silveira -
Um dia recebi uma ligação dizendo que era da Abril. Pensei que fosse trote porque eu tinha um amigo que sempre passava trote. Atendi a pessoa rindo, de qualquer jeito, e ele me disse: “meu, é real mesmo, é um trabalho para você aqui na Abril”.

Comércio - Qual foi seu primeiro trabalho de destaque?
Silveira -
Fiz uma ilustração de um celular iPhone quebrado para a capa da revista Superinteressante em 2008. Depois, começou a aparecer um monte de serviço. Logo, passei a fazer trabalhos para quase todas as revistas que tem na editora. Eles me cobravam muito estar mais próximo, principalmente nas reuniões de pauta. Logo depois dos trabalhos editoriais, apareceram também serviços na área de publicidade. Aí, comecei a ir a São Paulo com mais frequência. Perdi muito trabalho porque não estava perto e por isso mudei para a capital. Mas meu intuito sempre foi o de ir para lá, fazer contato com um círculo de pessoas e voltar pra Franca. Eu fui e minha família ficou. Fiquei dois anos e meio lá.

Comércio - Por que você resolveu voltar, se a carreira estava deslanchando?
Silveira -
Para ter melhor qualidade de vida. Minha família estava aqui. Quando voltei, parecia que meu dia tinha 50 horas, dava para fazer muita coisa.

Comércio - Sua renda como freelancer é suficiente para ter uma vida confortável?
Silveira -
Dá pra viver tranquilo. Apesar da editora trabalhar com tabelas de valores bem inferiores aos das agências de publicidade.

Comércio - Qual o valor mínimo e o máximo pago por ilustração?
Silveira -
Depende. Na Abril, tem ilustração que vai de R$ 200 até R$ 5 mil.

Comércio - Como é sua rotina de trabalho?
Silveira -
Eu trabalho geralmente de madrugada. Rende muito esse horário (risos). Eu acordo muito cedo também. Enquanto eu espero a aprovação de uma ilustração que mandei, o que demora, geralmente, meio dia, dá para fazer outra.

Comércio - Como você define o seu trabalho?
Silveira -
É o que dá o brilho para uma idéia. Deixa a mensagem visual. A ilustração chama a atenção do leitor à primeira instância.

Comércio - Cite um exemplo.
Silveira -
Bom, a capa da Superinteressante em que ilustrei um chocolate mordido uniu um tema interessante com as cores. Essa revista foi campeã de vendas na Abril.

Comércio - Quais programas você utiliza no seu trabalho?
Silveira -
Por ser mais velho, sou bem eclético. Já passei por várias fases. Desde Corel Draw, que é a ferramenta básica. Passei para a Ilustrator, mas meu forte sempre foi o Photoshop. Aí, comecei a entrar no 3D. Como eu tenho que resolver a ilustração muito rápido, uso às vezes programas pequenos, que têm alguma função que eu preciso, mas instalo e logo depois desinstalo.

Comércio - Você já chegou a desenhar manualmente?
Silveira -
Sim, mas hoje não faço mais isso. Há muitos recursos e programas. Quando você utiliza muito o computador perde um pouco a prática do desenho a mão.

Comércio - Para os profissionais da sua área, desenhar em papel é prática do passado?
Silveira -
Não, tem muita gente que ainda gosta da textura do papel. De lidar com lápis mesmo. Mas hoje, o tablet resolve tudo. Você tem no Photoshop funções que simulam a questão da tinta, da aquarela. Então só os mais teimosos insistem ainda em usar papel.

Comércio - Quanto tempo leva, em média para criar uma ilustração?
Silveira -
Em geral, dois dias. Já as capas têm um processo mais demorado. Leva de 20 a 30 dias para finalização e aprovação.

Comércio - Você já fez alguma ilustração para capa que não saiu?
Silveira -
Várias. A capa sempre tem mais de uma opção. Eles fazem duas capas com dois ilustradores diferentes. Geralmente, no meio do desenvolvimento, eles já escolhem um caminho. Mas tem casos que eles levam a finalização de todas as capas. Você vai até o fim. Faz os últimos tratamentos e não é aprovada.

Comércio - E o que você sente quando isso acontece?
Silveira - Quando não publicaram a primeira, eu fiquei muito bravo. Hoje eu não dou bola. Porque sei que sempre que escolhem a minha, alguém ficou de fora. De qualquer maneira, eles me pagam pelo trabalho.

Comércio: Quais equipamentos você utiliza no dia a dia?
Silveira -
Trabalho com um PC de 12 GB de memória RAM, com quad-core e HD de um terabite. Para trabalho gráfico é mais que suficiente. Mas para 3D isso não é nada ainda.

Comércio - Quando você percebeu que havia criado uma identidade visual?
Silveira  -  
Quando fiz a ilustração do iPhone em 3D para a capa da Mundo Estranho. Hoje eles sempre me chamam quando precisam de ilustrações com brilho e efeitos luminosos (risos). A partir deste trabalho, já pintaram vários outros com derivações.

Comércio - Na sua opinião quem é o melhor ilustrador do Brasil?
Silveira -
É um cara de São José dos Campos. O nome dele é Gelmi. Na área de hiperrealismos, hoje ele é conhecido mundialmente.

Comércio - Nos bastidores das revistas, o que você viu de mais curioso nesses anos?
Silveira -
As falhas da Playboy (risos) são me divertiram. Na foto da Cacau (ex-BBB), por exemplo, fizemos ajustes. Deixamos o bumbum mais redondo e os seios maiores.

Comércio - Quais foram seus últimos trabalhos de destaque?
Silveira -
As últimas capas da Superinteressante sobre o apocalipse. Duas foram ilustrações minhas: a de Brasília e a do Rio de Janeiro. Essa até teve uma polêmica porque o governo do Rio entrou com uma ação impedindo que utilizássemos a capa do Cristo desmoronando [veja ilustração abaixo]. O governo alegou que a capa da revista iria denegrir a imagem da cidade. Aí tivemos que mudar. Trabalhamos com a ideia do fim do mundo, a partir do Pão-de-Açúcar. A terceira capa foi a de São Paulo congelada, feita por outro ilustrador.

Comércio - Seu trabalho se limita às revistas da editora Abril?
Silveira -
Não. Trabalho com agências de publicidade também. Minha mulher, Katia Morato, é quem gerencia os contatos. É bom trabalhar com agência porque elas pagam até quatro vezes mais que as editoras.

Comércio - Depois de 20 anos nessa área, você se sente uma profissional realizado?
Silveira -
Sim. Mas eu me arrependo de não ter ido para São Paulo mais cedo, já que eu tinha potencial.