Na breve apresentação que faz de seu mais recente título, Veredas da Caminhada, reunião de histórias curtíssimas cuja concisão impressiona, Caio Porfírio Carneiro diz, retomando uma fala do escritor francês Daniel- Rops, que “o conto é a arte do implícito”. Arte difícil, que pede exercício e vivência, eu acrescentaria.
Exemplificação perfeita da frase de Rops, Veredas marca os cinquenta anos de lançamento do magnífico Trapiá e enseja ao autor afirmar que em cinco décadas muito mudou, “como mudaram as artes e o mundo.” Tais palavras desvelam lucidez: sentir-se mudado como o texto que se constrói é demonstrar senso de realidade, é exibir olhar sem ilusões, embora com alguma esperança, para o tempo e as transformações que este provoca de forma inexorável.
De Trapiá, coletânea singular de contos que se organizam como novela, indicado desde 2009 para compor a lista de leituras exigidas pelos vestibulares da Universidade Federal do Ceará, passando por outras criações que conquistaram láureas importantes, Caio vem apurando a forma, no sentido de torná-la cada vez mais enxuta e densa. No seu último livro, o contista oferece ao leitor pequenas histórias apanhadas em seu centro nervoso, quase sempre sem informar as razões que levaram personagens ao momento de conflito, e muito menos sem preocupação em esclarecer o que ocorreu depois do ponto de clímax. Os relatos evocam espocar de flashes que uma máquina dispara em diferentes direções, fotografando o instante oferecido à contemplação.
Nos contos de Veredas, a cronologia é uma ilusão, quando muito apenas sugerida como em Flor silvestre, onde “há vagas lembranças do passado distante”. A direção é também uma incógnita, pois os personagens, situados em espaços públicos ou domésticos, quando não enquadrados por janelas ou sobre terraços perigosos, mostram ora desnorteamento aflitivo como em O sorriso, ora falta de destino como em Pontos na paisagem. O que não significa imobilidade, pois os seres humanos retratados estão sempre em movimento, expondo suas fragilidades, sofreguidões, incertezas, enganos, ansiedades, culpas e loucuras. Há ainda alguma ironia em Ida e vinda; traços de sadismo e ingenuidade fazendo par em A ginasta; quase sarcasmo em Auxílio. E muita solidão em Busca e na maioria das histórias que o narrador nos conta, cravando um momento único que capta como expressão de nossa humanidade. Com esses pedaços de sentimentos, às vezes difíceis de nomear, tece histórias como A reforma, onde as linhas narrativas se cruzam logo nos primeir
os parágrafos, trançando-se de forma nervosa para se amarrarem no final em nó górdio. Ou então já chegam embaralhadas no monólogo que cresce de forma dramática, com violência sugerida e estupefação instigante em A vereda.
As histórias assumem então conotação impressionista, tanto pelo viés dos personagens, apresentados sob impacto de uma percepção, quanto da parte do leitor, desafiado a refletir sobre o que lhe é contado. Em A notícia, a total elisão do significado expresso pelo título lembra uma caixa cuja tampa não conseguimos abrir a não ser com nossa imaginação. Não há oferecimento de qualquer chave: seu conteúdo blindado é o que o leitor deseja, ou o que imagina segundo suas projeções, pois dele não temos nenhum dado registral. De certo, apenas o fato de que “a notícia” causa indignação e dor a duas pessoas definidas apenas em seu gênero. São essas dor e indignação a matéria prima focada pelo narrador.
Dos 29 contos, poucos exibem nomes próprios, o que pode ser considerado recurso usado pelo autor para expressar emoções comuns a todos, homens e mulheres. Um tanto atônitos estes seguem pela vida que flui sem relação de causa e efeito, mal compreendida como um sonho interrompido ou como nuvens que se esgarçam. O que é já não é ; nada se mostra totalmente explícito. A não ser a datação do autor ao final de cada conto, com registro de lugar, dia, mês, ano e hora em que o escreveu. Mas como é algo também sem linearidade no virar das páginas, este calendário apenas reforça a percepção de fragmentação, esta talvez a palavra-chave para contextualizar o livro. O enredo, como o vimos no realista Trapiá, deixa de existir e cede lugar à descrição de estados psíquicos num mundo em crise de valores humanistas. Veredas da Caminhada é um livro pós-moderno.
OBRA VASTA
Caio Porfírio Carneiro
“O estilo (...) de Caio Porfírio Carneiro projeta densidade humana forçando o leitor a participar da história (... ) O epílogo força qualquer um a pensar sobre a complexidade do mistério da existência.”
Estas frases, parte do comentário do escritor Cyro de Matos a respeito do livro de estreia de Caio, Trapiá, ajustam-se com perfeição à definição do espírito que move a escrita de Veredas da Caminhada, o último livro publicado. A forma enxugou-se ainda mais ao longo das décadas e isso é flagrante. E a complexidade de toda existência, que inquieta o ficcionista e o leva a vasculhar seres e erguer cenas, está presente desde as primeiras linhas do livro comentado ao lado.
Caio construiu obra vasta , transitando por vários gêneros, manifestando-se em prosa e verso. Trapiá, O Menino e o Agreste, O Casarão, Chuva- Os Dez Cavaleiros, O Contra-Espelho, Dez Contos Escolhidos, Viagem Sem Volta, Os Dedos e os Dados, Maiores e Menores, O Sal da Terra, Uma Luz no Sertão, Bala de Rifle, A Oportunidade, Três Caminhos, Dias sem Sol e outros, inclusive literatura infanto-juvenil, mostram quão fértil tem sido a vida deste criador de mundos.
Reconhecido pela Academia Brasileira de Letras, que lhe concedeu o prêmio Afonso Arinos por O Menino e o Agreste, e pela Câmara Brasileira do Livro que lhe outorgou o Jabuti por O Casarão, teve o romance O Sal da Terra traduzido para o italiano, o árabe e o francês.
Nascido em julho de 1928 em Fortaleza, ali se criou e se formou. Em 1955 mudou-se para São Paulo, onde reside até hoje. Desde 1963 exerce a função de secretário administrativo da União Brasileira de Escritores. É amigo dos escritores Luiz Cruz de Oliveira, Regina Bastianini e outros radicados em Franca, cidade que visita de vez em quando. (SM)
Serviço
Título: Veredas da Caminhada
Autor: Caio Porfírio Carneiro
Gênero: Conto
Número de páginas: 80
Editora: RG