20 de março de 2026

Preferências alheias


| Tempo de leitura: 4 min

Manhã ou noite? Qual é a mais intensa emoção?

A de finalizar o dia, comemorar o período que recém-terminou, contabilizar o que se aprendeu durante a jornada, lembrar as boas ações cometidas e refletir sobre os eventuais maus comportamentos, planejar as atividades do dia seguinte e desligar as tomadas cerebrais para um justo descanso... ou abrir os olhos ao escutar o passarinho cantar na janela e perceber-se vivo. Em se percebendo vivo, esticar o corpo até quase arrebentar os nervos, abrir os braços, recuperar a consciência, alongar as pernas, deixar-se flutuar. Pensar no milagre que é acordar e retomar os sentidos depois de ter tido noite inteira de sono e, com sorte, ter sonhado. Durante o sonho, revisitar lugares, conhecer outros distantes para os quais nunca foi e alguns até imaginários. Deixar-se embalar, lembrando das pessoas - que pareciam tão reais - que encontrou enquanto dormia: pessoas que amou e jamais foram esquecidas, pessoas que já partiram, desconhecidas que nunca viu, algumas que viu, mas só de passagem. Fazer esforço para reter o prazer do sonho em tecnicolor, ou do sonho em branco em preto, do vôo sem asas, do percorrer distâncias imensas num piscar de olhos. E, então, perceber que estão abertos, à sua frente, os canais de todas as possibilidades: possibilidade de recuperar, de buscar, de aprender, de não perder chance, de abrir os olhos para ver o cavalo encilhado - aquele da sorte - que passa rápido e que não retorna fácil. Preparar-se para dormir ou acordar na manhã?

Acho divertido perguntar a preferência alheia – se pela comemoração do que passou ou se pelo mistério do que virá; porém é muito mais prazeroso observar o variado comportamento de familiares e ajudantes de casa, nos momentos subsequentes ao despertar. Há quem somente recupere os sentidos (e o bom humor) depois de algum tempo. Sai da cama de cara fechada e bico, olhos semi-cerrados como se a luz incomodasse. Não diz bom-dia, nem responde a quem o desejou. Levanta-se feito zumbi, vai ao banheiro, tranca-se. Pode sair de lá pouco mais apresentável e sociável, porém o mais comum é continuar ensimesmado e mudo. Há quem abra os olhos ainda na cama, nem bem recupera os sentidos e já estende os braços, sorri, grita de alegria – ninguém sabe o motivo – começa a tagarelar, conta o que irá fazer, deixa a porta do banheiro aberta e, sem se importar com eventuais críticas, coletiviza as atividades que deveriam ser íntimas.

Há quem olhe o dia que começa como se dele viessem ameaças subjacentes. Nuvens no céu? Tempestades! Abre o jornal para ver quem morreu. Antes de sair pega guarda-chuva, comprimidos para dor de cabeça, a bolsa cheia de cacarecos para dar ao ladrão, em caso de assalto. Previdente, leva o casaquinho: apesar da alta temperatura, vai que esfrie. E há quem chegue na casa alheia para trabalhar carregando vida apertada de orçamento curto e problemas domésticos, relacionamentos afetivos difíceis e casamento capenga. Chega cedinho, faz café tão cheiroso que o odor vai se espalhando, de forma quase visível, pela casa afora. De avental, abre a porta que dá para a manhã, fica alguns segundos calada, uma mão na cintura, outra com a xícara na mão, vai bebericando sem pressa o café que acabou de fazer. Perscruta o infinito, volta-se e vaticina: ‘Vai fazer dia lindo!’ É imediatamente contestada: ‘Que nada! Olha a formação de nuvens pretas, está até tapando o sol!’ E ela, categórica, sem olhar quem contesta: ‘Aposto!’. Se não chove, sente-se vitoriosa. Se chove, ela pontua: ‘Mas vai parar: não é época de dilúvio!’ Belo espetáculo lá fora, quando amanhece. Belíssimo aqui dentro, quando as pessoas acordam e encaram um novo dia.

LOCALIZADOR
Serviço de utilidade pública: site para localizar rapidamente, via eletrônica, qualquer endereço neste mundo de Deus. Esqueça privacidade, esqueça anonimato: estamos na era em que nada poderá ser escondido ou disfarçado. Dá até medo, mas experimente, para ver: digite http://showmystreet.com/ e localize o logradouro que você procura.

BOOK
Genial vídeo. Está em espanhol, de fácil compreensão. Vai para professores de Português, especialmente, e para todos aqueles outros que tentam ensinar e incentivar o hábito da leitura de alunos e jovens. Vai, igualmente, para todos que têm substituído a boa leitura de livros pelos jogos de paciência, pelos chats, bate-papos inócuos e buscas infrutíferas nas redes sociais. http://www.youtube.com/watch?v=iwPj0qgvfIs

PROMESSA
Eleições próximas, candidatos também se aproximando dos eleitores. Assédio delicado, comparecimento em todos os eventos da comunidade – de bailes funk a enterros, passando por inaugurações, aglomerações, aniversários, batizados, festa do pai, do filho, dos progenitores avós. Começaram os pedidos: se você for eleito, arranja um emprego para meu filho? Começaram as promessas: se eu for eleito acabo com isso e aquilo; combaterei aquilo e aquil’outro; farei, trarei, deixarei, impedirei um monte de coisas. Aquele que disser que continua projetos sensacionais deste último governo francano como o do Fundo Social e o da Secretaria de Obras, por exemplo, terá meu voto. Isso eu prometo...

DEFINIÇÃO
‘Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.’ (Clarice Lispector)

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br