O atacante francês Thierry Henry acirrou os ânimos antes do jogo de sua seleção contra o Brasil pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006 ao dizer que ‘É difícil definir os jogadores do Brasil, pois eles já nascem com a bola nos pés. Por outro lado, [...] precisava estudar das 7h às 17h. Pedia ao meu pai para jogar bola, e ele dizia que antes vinham os estudos. Já eles, jogam futebol das 8h às 18h’. Junto com a polêmica, até que ponto o jogador europeu teve razão, se é que teve?
A morte de Sócrates, o jogador, fez muitos se recordarem que já tivemos craques intelectualmente acima da média dos seus pares. Nascido no Pará em 1954, mas criado em Ribeirão Preto, o ‘Doutor’ cresceu em um ambiente culturalmente bem dotado, sendo batizado em homenagem ao filósofo grego. Em 1975, o Palmeiras não mediria esforços para vê-lo no Palestra Itália. Contudo, ele surpreenderia: interessado em se formar em Medicina, mais especificamente na USP ribeirão-pretana, Sócrates recusaria a investida alviverde. Faria história até 1978 no Botafogo do estádio Santa Cruz.
No Corinthians a partir de 1979, deixaria sua marca em campo e fora dele, sendo uma das lideranças da revolucionária Democracia Corintiana e uma das vozes futebolísticas mais ativas das ‘Diretas Já’, chegando a relegar sua transferência à Fiorentina, da Itália à não-aprovação da emenda Dante de Oliveira, que transformaria o voto à Presidência do País em popular. Também gravou um disco, produziu uma peça de teatro e chegou a cogitar sua entrada no mundo do cinema. Nem mesmo depois de encerrar a carreira, Sócrates deixaria de militar na política ou nos espaços de mídia crítica.
O meia chegou a escrever à revista Placar um programa de governo de cinco páginas na época da eleição a governador de São Paulo de 1982. Assim como o ex-corintiano, Neymar ocupa atualmente a galeria de craques do futebol brasileiro. Em 2010 concederia reveladora entrevista na qual declarou até mesmo ignorar quem eram os candidatos a presidente do Brasil. O camisa 11 santista deixa a desejar como politizado.
Infelizmente, nossos atuais craques são frutos de escolas encabeçadas por professores mal pagos, deixando a desejar nas propostas de formação de cidadãos. Além disso, contribui para a pouca noção de crítica do povo nossa quase inexistente cultura livresca: lemos anualmente, em média, quatro livros a menos que os europeus. Devemos também considerar a glamourização realizada no mundo do futebol a partir de meados dos anos de 1980, fator que vai de encontro ao já limitado interesse do brasileiro pelo intelecto, que faz com que a precariedade educacional seja reforçada.
A transformação de trabalhadores da bola em celebridades coloca-os quase numa posição de sobre-humanos, questão que também reforça a vontade de muitos fãs em se tornar idênticos a eles, inclusive no comportamento extracampo. Talvez Henry, pelo momento, deveria ter evitado tal provocação, mas tendemos cada vez mais a sentir saudades de velhos Sócrates e a lamentar o aparecimento de novos Neymar.
Gabriel Souza Gregorutti
Colaborou Lucas Ribeiro. Ambos são estudantes do quarto ano de História da UNESP/Franca