Que o povo inglês traz atávicos o gosto por boas brigas, derramar sangue para conquistar terras distantes e fascinação por jardins, todo mundo sabe
Sem mais intenção de dominar territórios, hoje chora arrependido a invasão de terras alheias. A reconquista da liberdade dos povos das terras invadidas e espoliadas deu-lhes, à guisa de recompensa, o benefício do direito de entrar e sair da Ilha quando bem entenderem. Indianos, chineses, neo-zelandeses, australianos, africanos estão espalhados por diversas cidades da Grã-Bretanha; algumas delas, como Londres, quase descaracterizadas. E absolutamente lotadas. A miscigenação racial resultou na mudança do biótipo inglês. São raros inglesinhas e inglesinhos loirinhos, de olhinhos azuis, falando inglês maravilhoso, grave - aquele da batata quente na boca. O antigo som foi substituído por outro esganiçado, mistura de indiano, polaco, português, chinês além de idiomas dos países muçulmanos. Puro humor inglês, a piada já veiculou na imprensa: houve incêndio dentro do metrô, os guardas gritaram ‘Fire!’ os usuários não entenderam, permaneceram nos lugares e morreram queimados. Os que entenderam, saíram calmos e sem fazer alarde. Como se vê, inglês é exagerado, também.
São poucos, em Londres, os bairros tipicamente ingleses. Hampstead é um deles. Situado quase no miolo da cidade, não atrai muitos turistas estrangeiros, embora tenha belíssimo parque - o Hampstead Heath. Porém, mesmo que não saibam a localização, todos que gostam de filmes ingleses locados em Londres, sabe reconhecê-lo. Aconteceu em Notting Hill, com Julia Roberts e Hugh Grant, por exemplo. Quando Will (Grant) vence a timidez e procura Anna Scott (Julia) que está em Londres filmando, ele vai até belíssima construção situada numa colina e a encontra, caracterizada como dama antiga. Lembra? Aquela construção é Kenwood House que fica no imenso parque. No passado, nas imediações, moraram Freud, família e Melanie Klein. Hoje, moram Emma Thompson e Kenneth Branagh e os dispostos a pagar 20 milhões de libras por uma casa. Mas nem só de celebridades é constituída a fauna humana de Hampstead. Há gente comum, que mora em belas casas menores e participa de concursos. Um deles, Qual o mais belo jardim?
Circula em Hampstead jornal distribuído apenas em seus limites. Tomei conhecimento do tal concurso através dele. Há comissão que visita as casas inscritas, avalia, compara, faz o julgamento. É muito sério e bastante ético o procedimento. O ministro Ricardo Lewandowski e companheiros bem que podiam ir lá aprender e aplicar no julgamento do mensalão. Divulgado o resultado, revelam-se os endereços das casas participantes e premiadas, que podem ser visitadas pelos comuns. Para entrar, o visitante paga cerca de 1 pound (uma libra) como ingresso. Entra, olha as plantas e flores. Um monte de velhinhas inglesas rodeiam-no feito borboletinhas sorridentes - o visitante, mudo, deve apenas sorrir de volta. Em seguida, fazem comentários, respondem com solicitude às perguntas - com sotaque que quase não se escuta mais no centro da cidade - e oferecem one cup of tea and some biscuits. Às vezes até deliciosa piece of cake. O visitante se senta - se não houver chuva - na mesinha de ferro do jardim, desfruta do chá, das bolachas e/ou do bolo, fica sabendo que a arrecadação financeira das visitas vai para instituição de caridade e conta de onde veio.
Lembrei-me da experiência porque estou, depois de ano e meio, de volta para meu próprio jardim. Ao terminar o trabalho mais importante que fiz em minha vida, voltei para a realidade: pus, literalmente, mãos nas plantas e pés novamente no chão.
JARDINS
Filmes espetaculares. Dedos Verdes (Green Fingers), com Helen Mirren e Clive Owen, direção de Joel Hershman, 2000, baseado em fato ocorrido em prisão inglesa. Inesquecível. Muito Além do Jardim, com Peter Sellers e Shirley MacLaine, dirigido por Hal Ashby, no distante 1979. Clássico. O Jardim Secreto, com Kate Maberly, Heydon Prowse, Andrew Knott e Maggie Smith, 1993, filme de Agnieszka Holland, uma gostosura.
ENGANO
Mulher escreve para o programa de rádio francano. Conta sua história. Casada e cansada da rotina, saiu com amigas. No bar com show ao vivo, foi tirada para dançar. Saiu de lá com alguém que a encantou. Foram para o motel e passaram o resto da noite se amando. Curiosa, eu aguardava o tipo de conselho que os ouvintes dariam à prevaricadora. Na carta que o locutor lia, ela parecia se lamentar, enquanto dava detalhes do breve romance. No final a surpresa para todos. Ela não buscava consolo para o nefando ato. Estava é arrependida de não ter pedido nome, endereço e telefone do desconhecido. Pedia dicas de como fazer para consegui-los: aquela tinha sido a melhor noite de sua vida.
ANÁLISE
1. O Brasil tem o segundo maior índice de corrupção do mundo: perde apenas para a Nigéria. 2. Na comparação com a Nigéria, o Brasil perde: jamais puniu algum político corrupto. 3. O Brasil é o único país do mundo que não tem absolutamente nenhum político preso por corrupção. 4. A razão da corrupção crescer no País é que jamais providência alguma foi tomada nesse sentido. 5. Na China, corrupção comprovada é punida com pena de morte ou prisão perpétua, além da imediata devolução aos cofres públicos dos valores roubados. 6. Nos últimos 5 anos, o Brasil já computou um desvio de verbas públicas de quase 100 bilhões de reais. (Desmembrei texto publicado na Veja. Sugiro lê-los assim, com intervalos, e analisá-los. Depois, ignore-os se for capaz.)
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br