Certa noite, há alguns anos, participando de um safári na África do Sul, o jipe ou o que fosse aquele trambolho apagou e não quis mais funcionar. Nem o motorista nem o guia traziam consigo aparelhos de comunicação a distância. E o rádio do carro não funcionava. A pequena tripulação se matava de trabalhar na escuridão gelada para ver se nos tirava dali. Nem mesmo sei, até hoje, se havia real perigo de sermos atacados por leões ou o que valha. Ao aproximar-se da madrugada, ainda estávamos parados. Devorados pelos mosquitos, exaustos demais para praguejar, nós, os turistas, nos pusemos à margem do caminho. Foi quando o milagre aconteceu. O céu tornou-se rubro. As estrelas lentamente se apagaram. Um novo dia raiava naquele pedaço deslumbrante da África. O céu era de um azul glorioso que tocava cada grão de areia com um manto de ouro e de doçura e uma esperança de paz.
“Lindo!”, disse alguém. “Lindo!”, confirmou logo uma voz zangada.
Por volta das 10 horas, cruzou um novo grupo de turistas que nos safou dali.
Desde então, tenho observado as muitas vezes em que a beleza surgindo inesperadamente remove o espinho de uma situação desagradável.
Guardo um caderno em que anoto frases antológicas. Uma delas, de Thomas Mann, diz: “A beleza pode nos assaltar como uma dor”, significando que ela pode tocar cordas tão íntimas do nosso ser a ponto de silenciar completamente outros sentimentos. Ao acontecer isto sem qualquer aviso, é como se de repente renascêssemos. A um choque suave, somos uma nova pessoa, mais capaz de enfrentar as tarefas desagradáveis do momento.
As belezas do mundo natural ganharam molduras que as estragam, que as deterioram o homem e suas ações! A impunidade, a corrupção, a bandidagem, a politicalha, a mentira, o orgulho, a inveja, as guerras, a competição, se por um lado formam a matéria-prima da mídia sedenta de horrores, por outro desarrumam o nosso interior, forçando-nos a desviar o olhar de um belíssimo crepúsculo para o chão e pensar na extrema fragilidade da condição humana.
Quando garoto, eu tinha ordens de meus pais para visitar uma vizinha amiga, confinada a uma cadeira de rodas por ter fraturado a bacia. Era cuidada pela família de Alfredo Costa, quando morava na Rua Júlio Cardoso. No primeiro domingo em que a visitei, seu rosto enrugado iluminou-se de satisfação: “Você fez desabrochar as minhas flores”, disse ela, apontando um vaso de hortênsias com minúsculas pétalas roxas. Fiquei ali os quinze minutos de praxe e saí sem olhar sequer para as flores.
No domingo seguinte, ela tornou a mencionar as flores o seu matiz azul-pavão estava mais escuro, eu tinha reparado? Fiz que sim com a cabeça, por delicadeza.
Cada vez que eu ia lá, daí por diante, ela mencionava as flores sua boa ou má aparência, seus tons variados de malva ou ametista. Enquanto isso, crescia a minha admiração pela vivacidade da velha senhora. Vira o marido partir para a guerra; vira um de seus filhos definhar num manicômio; teve um irmão atropelado e morto por um automóvel. Agora estava condenada a nunca mais andar.
Apesar de tudo, parecia exultante. Certa tarde, revelou-me o segredo da sua força: “Quando eu era garota, ia para a escola a pé, por uma estradinha no campo. Descobri que, se olhasse para alguma coisa bonita logo no comecinho da manhã uma rosa selvagem, o fio prateado de um regato, qualquer coisa a visão me ajudaria a suportar tudo o que de triste ou aborrecido me acontecesse no resto do dia.”
A maioria de nós raramente experimenta encontros tão dramáticos ou sutis com a beleza. Mas todas as nossas vidas são tocadas continuamente por coisas raras e cheias de encanto. O segredo é reconhecê-las e ter consciência delas, transformando-nos em buscadores do que há de belo nas coisas mais comuns.
Acho que nunca o espírito humano precisou de tanta beleza como nos dias de hoje!