A morte do ser, a finitude existencial do corpo físico, embora parte integrante do ciclo natural da vida, portanto inevitável, acaba, paradoxalmente, não sendo bem compreendida e principalmente bem aceita pela maioria das pessoas.
Mas é exatamente no momento da provação, da grande adversidade, que acabamos nos tornando mais sensíveis e mais humanos. No momento da dificuldade quase insuperável que a vida nos reserva é que – surpresa – passamos a ter um olhar diferente, mais espiritual e menos material para a nossa própria existência. A dor humaniza: isso é uma verdade inegável.
Sim, é na hora da tormenta, da tempestade, que procuramos estabelecer uma maior intimidade com o Criador e Ele, sem dúvida, também acaba por se revelar a nós de forma mais intensa. Ele nos carrega no colo.
Nesta minha existência de mais de meio século, várias foram as oportunidades onde pude constatar que o Criador não coloca em nossos ombros fardo maior que a nossa capacidade de suportá-lo.
Lembro-me de minha saudosa mãe. Ela tinha um absurdo pavor do escuro. Chegava a ser uma nictofobia - consiste no medo do escuro ou da noite. Dormia sempre com um abajur aceso. Quando faltava energia, coisa comum na minha infância na localidade onde morávamos, ela sempre tinha uma vela para ser prontamente acesa.
O diabetes implacável cegou minha mãe e obrigou-a a viver no escuro os últimos anos de sua vida. Porém, incompreensivelmente para muitos e, especialmente para os mais íntimos, nunca ouvimos dela uma queixa. Assumiu sua prova sem reclamar.
Domingo último no programa Domingão do Faustão, o brasileiro se emocionou com o ator Reinaldo Gianecchini. Todos perceberam claramente o quanto sua luta contra o câncer o amadureceu como ser humano e o quanto ele se espiritualizou nessa sua batalha pela vida. Isso tudo revelado e reconhecido por ele mesmo.
Para a ciência, especialmente a psicologia, essa resignação e aceitação do ser humano das vicissitudes da vida, denomina-se ‘fenômeno da psicoadaptação’. O psiquiatra e escritor Augusto Cury, esclarece que a ‘psicoadaptação, como o próprio nome indica, é a adaptação aos estímulos dolorosos ou prazerosos. Em alguns casos ela é positiva, em outros, altamente negativa’.
Não nego, obviamente, a explicação científica para o fato. Porém, vendo a vida por outra lente, tenho para mim que o Criador quando exige de nos algo aparentemente acima dos nossos limites, Ele, na mesma medida e na mesma proporção, nos capacita, pois não há sofrimento e tribulação que não possam ser superados.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca