O segundo domingo do tempo litúrgico da Páscoa é chamado de Domingo da Misericórdia
Para fundamentar a definição, a Igreja utiliza o evangelho da aparição de Jesus Ressuscitado a Tomé, que não acreditou no relato dos outros apóstolos de que tinham visto Jesus. Jesus não tratou Tomé como incrédulo e o deixou a deriva. Veio até Tomé, que simboliza, para nós, a dureza do coração para crer em Deus
PRIMEIRA LEITURA
Lucas escreveu os Atos dos apóstolos para despertar comunidades paradas, chamando suas atenções para a ousadia da novidade de vida das primeiras comunidades cristãs.
Reagindo a essa acomodação presente nas comunidades do final do primeiro século da era cristã Lucas pinta a primeira comunidades fundada na união e na fé (Atos dos Apóstolos, 4.), apesar de serem muitos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum”. A razão dessa união é a fé em Cristo ressuscitado. É à luz da vitória de Cristo sobre a morte que a comunidade se sente livre para partilhar tudo como expressão da única fé que possui. Para Lucas, a posse e o acúmulo são sintomas do medo e da morte, ao passo que a comunhão dos bens é sinal de vitória sobre a morte. Os primeiros cristãos tinham consciência de ser a comunidade messiânica nascida do Espírito do ressuscitado. “Entre eles ninguém passava necessidade”, Cristo comoo motor da forma nova de viver.
O retrato da comunidade tem um ideal: acabar com a miséria, suprimindo para sempre o acúmulo do latifúndio e a esperança imobiliária, a fim de que todos tenham o necessário para viver com dignidade. Esse ideal se fundamenta na vitória de Cristo sobre a morte, e se concretiza na partilha dos bens. A partilha pressupõe o discernimento: detectar as necessidades, destruir os contrastes sociais para que a comunhão se torne realidade.
SEGUNDA LEITURA
O texto (1ª Carta de São João 5) foi “dirigido às comunidades cristãs da Ásia Menor, que passavam por séria crise”, provocada por um grupo de dissidentes carismáticos que propunham uma doutrina gnóstica na qual se afirmava que o homem se salva graças a um conhecimento religioso especial e pessoal.
Negavam que Jesus era o Messias e se gloriavam de conhecer a Deus, de amá-lo e de estar em íntima comunhão com ele; afirmavam ser iluminados, livres do pecado e da baixeza do mundo: não davam importância ao amor ao próximo e talvez até odiassem. A carta mostra que é vazio e sem valor qualquer espiritualismo que não se traduz em comportamento prático. Não é possível amar a Deus sem amar ao próximo e sem formar comunidade: se Deus é Pai, os homens são filhos e família de Deus, e consequentemente, todos devem amar-se como irmãos.
EVANGELHO
O texto (João 20) inicia situando a cena no tempo. É a tarde do domingo da Páscoa. Para os judeus, já havia iniciado um novo dia. Para João, contudo, é ainda o dia da ressurreição, a nova era inaugurada pela vitória de Jesus sobre a morte. Jesus apresenta-se no meio da comunidade e saúda os discípulos com a saudação da plenitude dos bens messiânicos: “A paz (shalom) esteja com vocês”. É a mesma saudação da despedida. Por sua morte e ressurreição ele se tornou aquele que venceu o “mundo” e a morte. É a saudação do Cordeiro vencedor que ainda traz em si os sinais de vitória, as marcas nas mãos e no lado. Dele a comunidade se alimentará.
A reação da comunidade é a alegria que ninguém, de agora em diante, poderá suprimir. Assim fortalecida, a comunidade está pronta para a missão que o próprio Jesus recebeu: “Como o Pai me enviou, assim também eu envio vocês”. Quem garante a missão da comunidade é o Espírito Santo. Para João, o Pentecostes acontece aqui, na tarde do dia da ressurreição. De agora em diante, batizados no Espírito Santo, os cristãos têm o encargo de continuar o projeto de Deus. Esse projeto é sintetizado assim: “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados; os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados”.
Jesus sopra sobre os discípulos e lhes comunica sua própria missão. O sopro recorda Gn 2,7, o sopro vital do Deus que comunica a vida. Recordando o Gênesis, João quer dizer que aqui, no dia da ressurreição, nasce a comunidade dos seguidores de Jesus, aos quais ele confia sua própria missão. Pelo Espírito que recebem dele, são suas testemunhas perante o mundo. Sua atividade, como a de Jesus, é a manifestação por atos e obras do amor gratuito e generoso do Pai.
O trecho nos fala de Tomé e da misericórdia de Deus. Tomé era um dos Doze que estivera com Jesus antes da Paixão. O evangelista quer salientar que o importante não é ter estado com Jesus antes de sua morte, e sim viver a vida que nasce da ressurreição, assumindo o projeto de Deus como opção pessoal. De fato, não obstante a boa vontade de Tomé: “Vamos também nós, para morrermos com ele”, ele não fizera a experiência do Cristo vivo, nem recebera o Espírito. Contrariamente a quanto faziam os convertidos, ele não aceita o testemunho dos discípulos. Sua fé ainda é fraca: não nasce da experiência de amor da comunidade, mas depende de sinais extraordinários.
Digna de nota é a resposta de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”. É a maior profissão de fé do 4º Evangelho. Ele reconhece em Jesus o servo glorificado (Senhor), em pé de igualdade com o Pai (Deus). Descobre em Jesus o projeto acabado de Deus e o toma como modelo para si. É a primeira vez, fora o prólogo, em que Jesus é chamado de Deus.
A cena se conclui com a única bem-aventurança explícita no Evangelho de João. Ela privilegia os que irão crer sem ter visto. O evangelho é desafio e abertura para o futuro: aceitá-lo ou não, aí se joga a sorte do ser humano e do ser cristão.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br