Uma tradição de mais de 40 anos está ameaçada. Comerciantes que vendem abacaxi às margens da rodovia Cândido Portinari, km 334, em Brodowski, no sentido Ribeirão Preto, podem ter que deixar o local, caso não adaptem suas barracas às normas da Artesp (Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo).
A agência não renovou a licença de comercialização dos produtos hortifrutigranjeiros no local. Primeiro, quer que sejam retiradas as prateleiras, bancos e mesas de concreto. Exige também a interrupção da venda de produtos industrializados no local.
A Artesp alega que está seguindo o Manual de Normas do DER (Departamento de Estradas de Rodagem), que estabelece condições de segurança para o produtor rural e veículos que trafegam pela rodovia.
A notificação foi entregue aos comerciantes pela Autovias, concessionária que administra o trecho. Diante das exigências, os comerciantes pediram, por meio de cartas, ampliação no prazo de 120 dias estipulado para as mudanças.
“Também queremos a garantia de continuar trabalhando nas barracas. O maior medo é gastar o que não temos para arrumar do jeito que foi pedido, e mesmo assim perder o local de trabalho e sustento da família”, diz Ermelinda de Marco, 56. Ela afirma não ter ideia de quanto gastaria para fazer as adequações exigidas.
Antonio Milan, 78, tem sua barraca na beira da rodovia há 41 anos. O lucro com a venda dos produtos é equivalente à aposentadoria que recebe do INSS: um salário mínimo. Milan conta que, depois da duplicação do trecho, as vendas caíram. “Por isso, a gente começou a vender outros produtos. Agora eles [Artesp] querem que a gente pare de vender pimenta, mas é preciso colocar mais produtos para ir chamando a freguesia e não ficar no prejuízo.”
A francana Guilhermina Garcia Gomes, 79, mora em São Paulo há 55 anos, e viaja sempre para Franca. Quando soube que as barracas de abacaxi podem ser removidas, ficou desapontada. “Me acostumei a sempre dar uma paradinha aqui.”
Assim como Guilhermina, todos os dias centenas de pessoas param às margens da rodovia para comprar os produtos oferecidos nas três barracas. “A gente sempre compra alguma coisa quando para. Tem um preço bom, eles atendem bem. Tem higiene que é o principal fator ”, diz o motorista Edson Antonio da Silva, 58.
Muita gente que trafega no sentido contrário, em direção a Batatais e Franca, também para no acostamento e atravessa as pistas para comprar abacaxi, apesar de haver no local uma placa que proíbe parada e estacionamento de veículos no acostamento. “Tenho cautela e cuidado ao atravessar a pista. Não vejo nenhum problema”, disse o representante comercial, Antonio Barbosa, 61.
PREFEITURA
O prefeito de Brodowski, Alfredo Amador Tonello, disse que está tentando interceder, junto aos órgãos responsáveis, para regularizar a situação das barracas. Ele encaminhou cartas à Autovias e à Artesp ressaltando que nunca houve nenhum acidente no local, desde que as barracas foram instaladas. Além disso, afirmou que os comerciantes vendem as frutas produzidas na cidade e zelam pela limpeza do local. “Eles dependem daquele negócio para viver no dia a dia. E a barraca passa de pai para filho. Não é justo, de uma hora para outra, a Artesp chegar e tirá-los dali.”
Autovias informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o documento foi encaminhado para a Artesp e que aguarda orientação da agência.
De acordo com os comerciantes, as mesas e bancos de concreto que a Artesp exige que sejam removidos foram instalados há oito anos e a licença da Artesp é renovada a cada dois anos.
Em nota, a Artesp alega que “o fato de as irregularidades terem sido notadas agora não tem relação com não ter havido fiscalização anterior. Os comerciantes foram fazendo modificações que não se adequam à norma.”