08 de julho de 2026

Senhor, Senhor!


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Na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, judiciosamente, nos alerta para o fato de, muitas vezes, as palavras de Jesus apresentarem-se contraditórias.

Por esta razão, o Codificador do Espiritismo nos adverte da necessidade de, primeiro, ‘tirar-se o espírito da letra’, depois, considerar-se que as inúmeras traduções podem ter alterado o significado das palavras do Mestre.

Pondera, ainda, que o hebraico é uma língua de poucas palavras, havendo, mesmo, algumas com múltiplos significados. Finalmente, observa que pode o nosso Senhor e Mestre não ter jamais pronunciado palavras que Lhe são atribuídas.

No nosso entendimento, incluem-se neste último caso as palavras que Jesus teria dito, ainda na cruz, conforme está registrado por Mateus, Cap. XXVII, versículo 46, segundo algumas traduções. Jesus teria exclamado: ‘Eli, Eli, lamma sabachtani’, o que, traduzido, significa ‘Senhor, Senhor, por que me abandonastes?’.

Analisadas, ainda que perfunctoriamente, salta-nos o entendimento de que elas contrariam tudo o que Jesus vivenciou na sua sublime presença sobre a face planetária.

Como poderia ter sido abandonado por Deus, se Deus está em toda parte?! Jesus não sabia da onipresença do Pai? Como poderia Deus tê-lo abandonado, se Ele próprio afirmara: ‘Eu e o Pai somos um’?!

Além disso, Jesus sabia de tudo o que se daria com Ele, assim como sabiam os profetas que anunciaram os acontecimentos que haveriam de envolvê-Lo, o que Ele mesmo previra nas suas conversas com os apóstolos.

Sua vida, sua exemplificação, sua condição de Espírito Puro não permitem admitir-se que Ele tenha pronunciado tais palavras! Então, quem as pronunciou?

Segundo o que nos orienta o Dr. Antônio Luiz Sayão, na sua preciosa obra Elucidações evangélicas -, com o que concordamos plenamente -, o chamado ‘bom ladrão’, a quem se atribuiu o nome de Dimas, foi o autor, na sua hora extrema. E, por quê? Porque, ainda sob a dor suprema da crucificação, percebendo a grandeza espiritual do Mestre, Dimas pediu-Lhe que se lembrasse dele quando alcançasse a Sua Glória.

Porquanto, o ‘bom ladrão’ esperava que Jesus, ali mesmo, e mercê da Sua grandeza espiritual, pudesse realizar-lhe o encaminhamento aos páramos celestiais, afinal, ao Paraíso, que se lhe intuíra como morada do Senhor.

No entanto, antes que algo acontecesse, Jesus entregou o Espírito ao Pai. Dimas, por isso, no auge do desespero e sentindo-se abandonado, exclamou as palavras que vieram a ser atribuídas a Jesus.

Mateus faz o registro que, diga-se de passagem, foi feito muitos anos após a crucificação, e, certamente, a partir de referências confusas de alguém que teria presenciado a cena.

Basta imaginarmos o tumulto da hora, para admitirmos que, na confusão, não se poderia identificar com certeza quem dissera as palavras.

Na dúvida, atribuíram-nas a Jesus. No nosso entendimento, contudo, Dimas, e somente ele, poderia ter exclamado: ‘Eli, Eli, lamma sabachtani.’

Felipe Salomão
Bacharel em Ciência Sociais, diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca