O conhecido cenário da rotatória do Fórum, cruzamento das avenidas Major Nicácio com a Alonso y Alonso, teve a mesma rotina de carros, estudantes e pressa no período da manhã. Porém, à tarde, francanos que passaram por ali avistaram um personagem que chamava a atenção, causando, no mínimo, curiosidade e adicionando certo toque de charme ao local.
O charme, porém, não vem do personagem em si. Nele não há nada de especial, fisicamente falando. Um carismático homem de pouco mais de 1,70m, branco, com óculos escuros na testa, calça jeans surrada, camiseta e um físico comum. O que chamava a atenção era uma vitrola de corda que o peruano César José Gusmão, 43, estava segurando, com os dizeres “vende-se” colados com papel e fita crepe ao aparelho.
A bela peça, centenária, adquirida na Bolívia, ainda funciona, “mas é para decoração”, afirmou o vendedor, praticamente confessando que não garante o bom funcionamento do aparelho com o passar do tempo. Ele tinha outro exemplar, dentro de uma grande sacola amarela que repousava às sombras de uma árvore. Ambas as vitrolas foram restauradas pelo visitante.
O peruano vive em Cuiabá/MT desde 1995. Lá estão sua mulher e filhos. Para César, sua família já está acostumada com sua ausência, pois desde que se entende por gente está na estrada. “Eu fico de 20 a 30 dias fora, rodando pelas maiores cidades brasileiras e também em outros países da América (do Sul)”, afirmou. Ele chegou a Franca ontem mesmo, e foi a fama de capital nacional do calçado que o trouxe. “Procuro as maiores e mais conhecidas cidades. Tento vender meus produtos, achar outros para comprar e consertar para depois vender”, contou.
Apesar de viajar para todos os cantos, munido somente de uma pequena trouxa de roupas e seus produtos, o estrangeiro relatou que nunca foi vítima de violência. “Sempre confiei em Deus e nos meus instintos. Uma vez, em Belo Horizonte/MG, entrei em uma rua mais ‘quente’. Quando percebi várias pessoas começavam a me sondar. Não deu outra, corri e voltei para um lugar mais tranquilo. Nestas horas é preciso ser esperto, e contar com uma ajuda divina”, contou.
Apesar da simplicidade do peruano, que não tinha nada além da velha “victrola” em mãos, os motoristas que ali passaram não conseguiam desviar o olhar da figura. “As pessoas sempre me tratam bem. Param para fazer perguntas e saber de onde venho ou como consegui tal produto”, disse. “Só que a pergunta que mais ouço é sobre as viagens. Acho que quase ninguém consegue entender como é viver na estrada, dormindo em hotéis, sem destino certo. As pessoas querem saber de estabilidade e de uma vida sem surpresas, gostam da rotina. Eu prefiro viajar muito, conhecer locais e pessoas diferentes. Isso é a parte mais legal do que faço”, refletiu.
César deixará Franca assim que arrumar um comprador que esteja disposto a pagar R$ 600 pela vitrola. Sua ideia é seguir para o Rio Grande do Sul e depois ele decidirá qual cenário urbano será alterado por ele e suas antiguidades.