Incontáveis são as vezes que lamentamos a ocorrência de pequenos incidentes em nossa vida que acabam atrapalhando alguns objetivos por nós traçados. É uma viagem que não pode ser feita pela decorrência de um fato pessoal ou familiar inesperado, ou mesmo, uma simples festa que não pudemos comparecer em face de uma indisposição ou gripe de última hora.
Na última terça-feira amanheci adoentado e indisposto, fruto, obviamente, dos excessos cometidos no feriado prolongado. Saí de casa reclamando, pois naquele dia havia agendado vários compromissos na faculdade e no escritório, porém não estava nada disposto a enfrentá-los.
Logo que cheguei à faculdade, pouco antes do início das aulas, dando uma rápida olhada nos jornais do dia deparei-me com uma reportagem da Folha de São Paulo, retratando a vida e a luta de Eliana Zagui.
Ela vive há 36 anos deitada em um leito de UTI do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas de São Paulo. É vítima de paralisia infantil diagnosticada quando tinha dois anos de idade. A doença, infelizmente, lhe retirou todos os movimentos do pescoço para baixo, obrigando-a a respirar com a ajuda de aparelhos.
O mais surpreendente é que ela, embora presa à cama, sem qualquer locomoção e totalmente dependente, conseguiu se formar no ensino médio. Também aprendeu inglês, italiano, fez curso de história da arte e tornou-se pintora e escritora.
Todas essas múltiplas funções são realizadas com a boca, tanto para escrever, pintar e digitar. O mais surpreendente ainda é que ela lançou, no último dia 10 de abril, seu livro de memórias intitulado Pulmão de aço - uma vida no maior Hospital do Brasil, pela Belaletra Editora.
Sua família se resume ao colega de quarto Paulo Machado, que também é portador de necessidades especiais e que com ela convive há anos. Ambos foram abandonados pelos familiares e raramente recebem visitas.
Ela e Paulo, porém, recebem todo o apoio e carinho dos médicos e enfermeiros do HC. Eliana narra, ao repórter, que uma de suas alegrias foi quando Adalberto, um enfermeiro, vendo-a muito triste e chorando, decidiu lhe dar um caloroso abraço. Segundo Eliana, foi uma sensação maravilhosa, pois até então ela jamais havia recebido um abraço.
Confesso que lendo a matéria acabei me emocionando e vendo o quanto superestimamos os nossos pequenos problemas da vida cotidiana. Os meus ficaram tão insignificantes que não mais pensei neles. Por consequência, não me prejudicaram e não me limitaram nas minhas obrigações daquele dia.
Segundo Eliana Zagui, o livro dela certamente será útil para ‘aqueles que não querem nada com a vida. Pois é claro que cada um tem as suas dores, mas a minha desgraça não é maior que a sua e nem a sua é maior que a minha, mas é sempre bom poder aprender a tirar o que vale a pena da vida’.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca