Em meio ao festejado e, ao mesmo tempo, contestado resultado do Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo) 2011, o governo anunciou a abertura de licitação para escolher uma empresa responsável por criar e implantar um programa de ensino informatizado na rede. A medida tem por objetivo unificar o conteúdo a ser ministrado aos estudantes.
Caso a ideia seja concretizada, o que está ruim pode ficar pior ainda. Dentro do atual contexto de avaliação para apurar os índices de melhora da educação, há questão com este grau de dificuldade: ‘leia atentamente o texto e assinale a alternativa que corresponda ao título’. Ou então: ‘qual é o autor do texto?’.
Esse e muitos outros itens de calibre semelhante permeiam os exames. Só falta mesmo que tudo passe a ser on-line. Primeiro, o aluno estuda a teoria por meio da Internet. Na sequência, responde a uma série de questões. As respostas estão no final do questionário de forma aleatória. Basta arrastar a certa. Detalhe, o programa só aceita a correta. As erradas são recusadas.
Normalmente, a programação informatizada de estudo permite ao aluno fazer todas as tentativas para arrastar a resposta certa. Finalmente, quando consegue colocar a assertiva no espaço destinado a ela, recebe este duplo elogio: ‘Muito bem! Você acertou. Parabéns!’. Com um sistema desses, o Estado não precisa mais aplicar a avaliação para apurar o Idesp. A execução do estudo armazena de imediato os 100% de aproveitamento.
Atualmente, se o aluno falta muito, o professor recebe coação para ir até a casa do estudante, com o intuito de saber o motivo de tantas ausências. Um sistema informatizado de ensino põe fim a esse problema. Basta colocar um computador com Internet na residência de cada aluno. Ninguém mais vai precisar ir à escola. É só acessar o curso no horário que lhe aprouver.
Outra dica fica por conta do Estado já disponibilizar (esse verbo faz parte do pacote da modernidade informatizada) ao final do curso, um ícone simbolizando o diploma (essa não! Coisa mais antiga, os especialistas preferem ‘certificado de conclusão’). Após acessar os conteúdos, sem nem ler, o aluno passa direto para o jogo de arrastão das respostas. Depois, é só baixar o documento de conclusão e imprimi-lo.
O Admirável Mundo Novo está chegando. Esse livro de Aldous Huxley previa uma escola com conteúdo totalmente informatizado. O governo não precisaria mais do professor para educar. O povo seria uniforme pela falta da capacidade de pensar. Com isso, o governante permaneceria no poder por quantos anos quisesse.
Por mais que a Internet seja eficiente, os melhores métodos pedagógicos informatizados não conseguem educar para pensar. Quem vê na tecnologia um álibi para melhorar o ensino, na verdade está se recusando em tomar consciência da realidade criada por leis e decretos instituindo progressão continuada e universalização desregrada da escola.
Antônio Araújo
Articulista e professor - tonin.palavras@uol.com.br