Terça-feira, 18h30. Já está escuro e o movimento de veículos no semáforo entre as avenidas Chico Júlio e Orlando Dompieri é intenso. Um rapaz moreno, descalço e de 19 anos, circula com um copo plástico nas mãos e algumas moedas. Passa pelos carros pedindo mais dinheiro aos motoristas. Todos os dias, em diferentes horários, ele mantém essa rotina. Fica próximo ao prédio da Secretaria da Saúde, da Sabesp e em postos e pizzarias. Os R$ 50 que ganha por dia são usados para comprar drogas, principalmente pedras de crack. Viciado desde os 11 anos, foi expulso de casa e há um ano e dois meses mora na rua. Ele já foi abordado pela Polícia Militar, levado para a delegacia, mas assim que foi liberado, seguiu para o semáforo mais próximo. E diz que se for abordado de novo, vai retornar para as ruas.
Comércio da Franca - Por que você vive na rua?
Pedinte - Minha família me tirou de casa porque comecei a mexer com droga, então eles me expulsaram. Aí comecei a ficar na rua e acho melhor ficar pedindo do que roubando e mexendo nas coisas dos outros.
Comércio - Consegue quanto?
Pedinte - Consigo mais de R$ 50 por dia. Já tentei conseguir emprego, mas ninguém me dá oportunidade. O único jeito é eu pedir mesmo.
Comércio - Esse dinheiro você usa para quê?
Pedinte - Para comprar drogas. Saio, arrumo R$ 10, vou, fumo e depois volto para pedir mais.
Comércio - Você já foi abordado pela PM?
Pedinte - Já, muitas vezes, mas não adianta. Eles até levam a gente para a delegacia, mas não adianta porque tira um, chega outro. Não tem condições. Já que está tirando, dá um serviço pra gente. Podemos fazer um curso. Diz que lá no Abrigo estava tendo isso e aquilo, mas não ganha nada. O que adianta ficar lá e não ganhar nada para poder manter o nosso vício? E eu já tentei oito vezes (internação) ficar sem as drogas, mas não adianta. Continuo usando.
Comércio - As ações da Polícia Militar mudam alguma coisa?
Pedinte - Muda nada. Isso é a mesma coisa, vai e volta. Acabo de sair de lá (delegacia) e venho para a rua de novo. Eles me pegam aqui de novo e eu volto de novo, é imediato. Eles “mandam eu” vazar daqui e eu vou no sinal de cima. É para manter nosso vício. Se eu sair daqui, para eu manter meu vício, vou querer roubar. Então é melhor estar pedindo.
Comércio - Você já ficou no Abrigo Provisório?
Pedinte - Já. Mas é abrigo temporário, eles dão só três dias para a gente ficar lá e depois mandam embora. Eles dão de tudo, roupa, chinelo, banho, comida, a gente é bem tratado, mas tinha que ficar mais tempo até arrumarmos emprego.