Há um movimento em curso alertando a necessidade de tornar nossas cidades sustentáveis, em torno da Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis. Com a aceleração do crescimento econômico, acirraram-se conflitos urbanos pela terra (vide o episódio do Pinheirinho) e pelo seu uso (vide o conflito das lojinhas no Leporace). De um lado, a política autoritária e higienista dos governantes tucanos, de outro a necessidade da população de menor renda por moradia e renda.
A sucessão municipal é momento importante para refletirmos sobre as mudanças necessárias à atuação do governo local e suas políticas públicas de desenvolvimento.
Ao findar um ciclo duplo de um governo sem criatividade focado nas decisões naturalmente equivocadas de uma única pessoa (o prefeito) e no esforço publicitário da maquiagem urbana do dia a dia, podemos afirmar que perdemos oito anos em relação à construção de uma cidade mais justa e solidária, comprometida com mudanças sociais qualitativas.
A educação pública de qualidade, motor do desenvolvimento, não evoluiu, nossos indicadores continuam pífios. A falta de vagas em creches continua enorme. Outro exemplo? A Unesp decidiu abrir onze novos cursos de engenharia, nenhum em Franca. Onde estava o prefeito quando isso se decidia? Ora, correndo atrás de curso de uma instituição privada. Os recursos que poderiam capacitar professores e melhorar os indicadores educacionais foram destinados a obras e desapropriações esdrúxulas como a do ‘esqueleto’. O esforço político do governo foi na direção contrária, ao negar que a indicação dos diretores de escolas municipais fosse por concurso, por mérito, mantendo a continuidade do apadrinhamento, da ‘canetada’ do prefeito.
A irresponsabilidade do desmantelamento das políticas de trânsito e transporte neste governo causou danos quase irreversíveis, além de uma tragédia visível nas ruas. Mais mortes e acidentes graves que não podem ser imputados apenas ao aumento da frota, mas à deficiência de fiscalização e planejamento, obras inadequadas, ausência de projetos inovadores e educação para o trânsito, a total desarticulação do governo no setor, cujo secretário sequer sabia existir um plano cicloviário feito no governo anterior. O transporte público por ônibus, antes bem avaliado, tornou-se ruim, gerando protestos dos usuários e até investigação de uma Câmara que nem de longe cumpriu adequadamente sua tarefa nestes anos.
O debate sobre as propostas para a cidade não pode basear-se nas premissas do atual prefeito, cuja visão e ideário estão nos anos 70, de uma cidade para o automóvel e seus viadutos.
É preciso enxergar o mundo de hoje e fazer um diagnóstico desta nova realidade urbana, da importância das questões ambientais, da educação de qualidade, do transporte público rápido e limpo, de uma cidade mais compacta, do uso inteligente do processo de informatização. E, o mais importante, da participação ativa das pessoas na construção do futuro, deixando para trás este triste legado de autoritarismo e personalismo.
Mauro Ferreira
Arquiteto, bolsista da FAPESP e pesquisador do LabDES da UNESP/Franca