08 de julho de 2026

Dengue: sinal de alerta


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A dengue é uma doença cada vez mais associada a hábitos das pessoas. Os cuidados preventivos da população, de um lado, e a ação mobilizadora das equipes, de outro, são os fatores principais que determinam maior ou menor incidência da doença.

Na prática, quando a dengue explode a culpa é compartilhada. Moradores são responsabilizados por descuidos na limpeza, enquanto as lideranças locais têm que se explicar por que não fizeram a lição de casa. A equação da eficiência é a soma dos cuidados domésticos com a intervenção do poder público. Em 2012, o quadro começa surpreendentemente diferente em relação aos últimos anos, quando a dengue eclodiu de forma assustadora no Estado, especialmente na Baixada Santista, Ribeirão Preto e regiões com temperaturas mais altas, como Araçatuba, Araraquara, Presidente Prudente e São José do Rio Preto. Na guerra contra o mosquito Aedes aegypti, este começo de ano apresenta estatísticas tão favoráveis à saúde pública que mesmo técnicos mais experientes confessam-se surpresos e desconfiam de que possa haver uma reversão a qualquer momento. Por isso, decidiram dar um sinal de alerta para que a situação cômoda atual não favoreça a volta da doença em proporções epidêmicas.

O quadro em 2012
A única região em que houve crescimento real de casos este ano foi a de Araçatuba — 108 nos meses de janeiro e fevereiro contra 61 do mesmo período em 2011. Nas demais regiões houve queda substancial. O contraste é enorme em regiões onde a incidência da doença havia disparado nos últimos anos. A região de Franca registrou 1.159 casos nos dois primeiros meses de 2011 contra apenas 3 no mesmo período em 2012. No Vale do Paraíba e Litoral Norte, 1.881 contra 289; na região de Bauru, de 704 casos para 1 caso oficialmente este ano. O mosquito perdeu de goleada na maior parte do estado: no total, foram registrados 11.984 casos em 2011 ante 966 em 2012, uma queda de 91,9%. Há alguns poucos focos de resistência: no Vale do Paraíba, em Potim, 174 casos; e na região de Ribeirão Preto, em Pontal (144) e Borborema (98). Dos 645 municípios paulistas, 541 não registraram nenhum caso de dengue no primeiro bimestre. Os números divulgados referem-se ao total de casos autóctones, com transmissão dentro do estado, segundo o Sistema de Informações de Agravos de Notificação da Secretaria Estadual de Saúde. Números parciais de março, embora não consolidados, indicam que a tendência se mantém neste mês. O governo sabe que ganhou uma batalha, mas não a guerra. O verão pouco chuvoso é um fator desfavorável à proliferação do mosquito. A combinação calor e chuva estimula a reprodução do inseto devido ao aumento de poças d’água. Por isso, as autoridades da área não cantam vitória – ao contrário, aproveitam a trégua para agir desde já para que o inimigo não surpreenda em 2013.

Campanha
O governador Geraldo Alckmin deve estar presente esta semana em evento com prefeitos e gestores de saúde na capital paulista que marcará a mobilização de cerca de 25 mil agentes na Semana Estadual de Mobilização Contra a Dengue a partir desta segunda-feira (26/3) com o objetivo de alertar e sensibilizar a população sobre prevenção e combate ao transmissor da doença. Por todo o Estado foram programadas atividades especiais. “Não podemos baixar a guarda. Este é, mais do que nunca, momento de unir forças”, afirma o secretário estadual Giovanni Guido Cerri.‘Em 2011 houve desmobilização’

‘Em 2011 houve desmobilização’
O epicentro dos preparativos da campanha estadual é a Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD), coordenada pelo médico Marcos Boulos, que tem experiência em infectologia e medicina tropical, especialmente malária, dengue, hiv, leishmaniose e doenças dos viajantes. Durante os preparativos para a Semana de Prevenção, deu a seguinte entrevista à Rede APJ

Qual é a importância da mobilização da saúde pública na prevenção da dengue?
No ano passado, apesar de cair o número de casos em relação a 2010, o número de mortes foi maior em termos percentuais mostrando que houve uma desmobilização nos serviços de urgência. As pessoas treinadas tinham sido alocadas para outros lugares. Fizemos então um tour pelo estado com treinamento rápido dos médicos e enfermeiros para que soubessem como diagnosticar e rapidamente introduzir condutas corretas para evitar as mortes.

O despreparo então está associado ao aumento de mortes?
A única explicação para o fato de haver diminuído o número de casos e aumentado o de mortes é porque os lugares que atendem dengue tiveram as pessoas remanejadas e as que entraram no lugar não tiveram o tirocínio e o treinamento para fazer o diagnóstico rápido e a hidratação a tempo. Foram 40 e alguns casos. É indigno dizer que a pessoa morreu por dengue sem assistência, um único caso que seja no País todo.

O que realmente funciona para prevenir?
O que traz mais benefício é o alerta continuado da imprensa à população. Porque o mosquito transmissor, ao contrário da maioria dos vetores, invade a nossa casa. É não é original da casa, ao contrário do pernilonguinho. O Aedes é atraído por condições específicas, uma água parada por exemplo. Ele vem e cria um novo ninho. Como não tem autonomia de voo muito longa, se limparmos a casa, a doença não progride. Se a comunidade assumir o compromisso, não vai ter dengue. Mas quando começa a não aparecer casos, como agora, a população relaxa. Até o gestor relaxa.

E na equipe médica?
Tem que ter rapidez no diagnóstico. Se o paciente sair de circulação rápido, não contaminará outros mosquitos, que não contaminarão outras pessoas. Mais do que isso – eventualmente o caso pode evoluir para uma forma mais grave. Temos que saber o que fazer e quando duvidar da gravidade e o que tem de fazer – internar ou só hidratar. O que tem acontecido às vezes é que as pessoas que estão no atendimento de porta do hospital não estão treinadas. Por isso que fizemos ano passado o manual de conduta para pregar na parede, os exames e as condutas.

Wilson Marini
Jornalista – wmarini@apj.inf.br