09 de julho de 2026

‘Viver com o ódio dentro de você só serve para gerar mais violência’


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EMPENHO - Masataka e Keiko Ota criaram o Movimento Paz e Justiça Ives Ota e a União em Defesa das Vítimas de Violência

Masataka Ota chegou ao Brasil com um ano de idade. Natural de Okinawa, no Japão, tornou-se comerciante na capital paulista. Keiko Ota nasceu em Olímpia, interior de São Paulo. Filha de imigrantes japoneses, cursou direito em Mogi das Cruzes. Nasceram em continentes distantes, com apenas um dia de diferença. Em um determinado momento da vida, seus destinos se cruzaram. Casaram-se e tornaram-se empresários. Foram pioneiros no negócio de R$ 1,99 em São Paulo, chegando a ter 14 lojas.

O casal teve dois filhos e levava uma vida tranquila. Empresários de sucesso, concentravam suas preocupações em expandir os negócios, criar seus filhos e viver a vida da melhor forma possível. O dia 30 de agosto de 1997, no entanto, colocou por terra essa felicidade programada. Nesse dia trágico, seu filho caçula, Ives Ota, com oito anos, foi covardemente assassinado com dois tiros por seus três sequestradores, dentre os quais dois policiais militares, ex-seguranças de seu pai.

A partir daí, a vida da família mudou. Primeiro foram atormentados pelo ódio e pela idéia da vingança. Porém, por esses desígnios misteriosos da espiritualidade, acabaram seguindo por outro caminho. Optaram pela defesa de uma causa (aumento da pena para crimes hediondos), pelo trabalho assistencial e pelo perdão. Não foi um caminho fácil até que conseguissem chegar ao perdão que tanto perseguiam. “Trazíamos os assassinos de meu filho a nossa mente e depois orávamos. Fazíamos isso várias vezes ao dia”, recorda-se Keiko.

Durante esses dois anos, deixaram um pouco de lado a vida de empresários e se concentraram em outras ações. Ainda em 1997, começaram a organizar um abaixo-assinado reivindicando a revisão do Código Penal. Ao longo dos anos, conseguiram três milhões de assinaturas, que foram encaminhadas a Brasília. Ao mesmo tempo, começaram a se reunir com famílias vítimas de violência e a fazer palestras que incentivavam a busca pelo perdão.

Com o tempo, encontraram um novo motivo para viver. Empenhados tanto na luta pela justiça como no incentivo ao perdão, criaram o Movimento Paz e Justiça Ives Ota e a UDVV (União em Defesa das Vítimas de Violência). Por meio do primeiro, começaram a levar às pessoas a importância do perdão como forma de superação e combate a toda forma de violência. Por meio da segunda, lutam pela mudança na lei penal brasileira. Em um determinado momento, sentiram que era hora de levar a batalha para o âmbito da política. Amparada por mais de 14 anos de luta, Keiko Ota foi eleita deputada federal pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro) com mais de 213 mil votos, em 2010.

Hoje, Masataka coordena o Movimento Paz e realiza palestras e trabalhos assistenciais em escolas e penitenciárias, inclusive na que estão os dois policiais que assassinaram seu filho. Keiko, além de deputada, coordena a UDVV, é presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa das Vítimas de Violência e participa da comissão de juristas que está estudando uma nova proposta para o Código Penal brasileiro.

No dia 16 de março, o casal Ota esteve em Franca para uma palestra na OAB. Em visita à redação do Comércio, concederam essa entrevista em que contaram um pouco da sua história.

Comércio - Os senhores falam em perdão, mas lutam para mudar o Código Penal, aumentando a pena para crimes hediondos. Isso não é um pouco contraditório?
Keiko Ota -
É comum nos perguntarem isso. Mas não há nada de incoerente em nossa proposta. Uma coisa é a justiça, outra é o perdão. Queremos que as pessoas se livrem do ódio, porque já passamos por isso e sabemos como é prejudicial para a pessoa, para a família e toda a sociedade. Viver com o ódio dentro de você só serve para gerar mais violência. Mas perdoar não quer dizer soltar os criminosos.
Masataka Ota - Não queremos que os assassinos de nosso filho voltem para a rua. Queremos que paguem pelo que fizeram e que cumpram toda a pena, que foi de 43 anos. Por outro lado, acreditamos que perdoar é tirar o ódio que temos dentro da gente. Mas a justiça deve ser cumprida.

Comércio - Como chegaram a esse ideal de perdão por meio de uma experiência tão dolorosa?
Masataka -
Não foi fácil. A idéia de vingança me perseguiu até um pouco antes do meu depoimento no júri. Cheguei a andar armado e pensei em pegar os filhos dos assassinos. Eu precisei rezar muito e minha mulher foi muito importante. No dia do depoimento, fiquei a meio metro dos três assassinos. Quando eles me viram, abaixaram a cabeça. Mas os desafiei e pedi para olharem para mim. Acabei dizendo que estava ali para perdoá-los, não para matá-los. Não sei por que, acho que foi a vontade de Deus e do Ives. Depois disso, entendi que o caminho era outro. Percebi que eu deveria começar uma luta para mudar a lei penal. Mas o mais importante é que eu estava bem mais leve e tranquilo.
Keiko - Teigi, meu irmão religioso, me disse que havia apenas dois caminhos a seguir, o da luz ou o da escuridão. Resolvi seguir o da luz. Rezei muito e passei a estudar bastante. Queria entender porque o Ives partiu e compreender qual era a lição que Deus queria me passar. Para isso, passei a pensar e dizer apenas coisas positivas para limpar minha mente das coisas negativas. Trabalhei também para o Massa (Masataka) entender que o perdão era a única coisa que poderia nos livrar daquele sofrimento, pois o próprio Jesus veio ao mundo para nos ensinar o perdão. Claro que isso não foi fácil. Foram pelo menos dois anos para conseguir sair da tristeza e encontrar a paz e a felicidade.

Comércio - Como surgiu a idéia de criar o Movimento Paz e Justiça Ives Ota?
Keiko -
O Movimento pela Paz surgiu em setembro de 1997, quando apareceu a comissão do STJ (Supremo Tribunal de Justiça) querendo reduzir a pena para crimes hediondos de 30 anos para 15 anos. E se o preso tivesse bom comportamento, a pena poderia cair para cinco anos. Nesse momento, levantamos a bandeira da prisão perpétua para crimes hediondos. A idéia era colocar os indivíduos enquadrados nesse tipo de crime em prisões agrícolas para que eles tivessem a oportunidade de recuperar sua dignidade, através do trabalho na lavoura. Depois veio o Movimento Paz e Justiça Ives Ota, que tem objetivo mais filantrópico de contribuir com os menos favorecidos, espiritual e materialmente.

Comércio - Como foi a decisão de entrar para a política?
Masataka -
Tínhamos recebido convite para entrar na política bem antes da Keiko se eleger. Mas achamos que não era a hora. Com o passar dos anos, percebemos que fora da política não conseguiríamos muita coisa no que diz respeito à mudança do Código Penal.
Keiko - Acredito que essas iniciativas que coordenamos e esse trabalho de apoio às famílias que desenvolvemos ao longo dos anos me ajudaram a desenvolver meu lado político de forma natural. Além disso, percebemos que precisávamos de uma voz mais efetiva para pressionar pelas mudanças de dentro do Congresso, pois essa luta não é apenas nossa, mas de todas as famílias que já foram vítimas da violência e de boa parte da sociedade.

Comércio - A senhora teve 213 mil votos. A que atribui tão expressiva votação?
Keiko -
Acredito que fui eleita por conta do perdão. Fizemos um trabalho de longo tempo, que fincou raízes. Viajamos por todo o Brasil falando sobre o perdão e levando apoio às famílias vítimas de violência. Acho que todos perceberam que isso era sincero e que realmente o perdão tinha mudado nossas vidas. Em todas as nossas viagens sempre fomos muito bem recebidos e tivemos muito apoio para continuar lutando por essa causa. Em paralelo, a defesa de uma lei criminal mais rígida também foi apoiada pela população. Dessa forma, acredito que consegui atrair a simpatia e o voto de confiança de muita gente.
Masataka - Fizemos uma campanha com um mínimo de recursos. Não tínhamos dinheiro para nada. Fizemos santinho de papel reciclável com a ajuda de amigos. Andamos a pé pela cidade, fazendo campanha de porta em porta. Ainda de madrugada, eu ia às paradas de ônibus das zonas comerciais de São Paulo. Fazia campanha com as pessoas do interior que vinham fazer compras em São Paulo, de forma que tivemos muitos votos no interior sem sair da capital.

Comércio - A senhora está à frente da UDVV e da Frente Parlamentar Mista em Defesa das Vítimas de Violência. Quais são as propostas dessas instituições para mudar o código penal?
Keiko -
Estamos levando ao conhecimento da comissão de juristas que está analisando o Código Penal as sugestões de toda a sociedade em relação às mudanças que se fazem necessárias. Estamos conversando com os movimentos organizados da sociedade civil, com o Ministério Público, com os poderes da República e outras entidades. Estamos propondo, por exemplo, o aumento para crimes hediondos de 30 para 40 anos. Queremos, também, que o trabalho seja condição para concessão de benefícios. Pedimos a volta do exame criminológico para se avaliar a personalidade e a periculosidade dos criminosos antes de conceder-lhe a diminuição da pena, algo que deixou de ser obrigatório com a a Lei 10.792-2003. Também queremos impedir o condenado pela prática de crime hediondo de recorrer da sentença em liberdade, entre outras sugestões que têm sido bem recebidas. Mesmo considerando que as mudanças acontecerão lentamente, entendemos que é preciso dar um primeiro passo para tentar atrair a atenção da sociedade. Ninguém mais suporta essa violência. Por isso, entendemos que é uma luta de todos.