08 de julho de 2026

Através: Inhotim


| Tempo de leitura: 5 min

É com grande prazer que apresentamos o primeiro livro dedicado a nosso acervo artístico, que reúne obras de 57 artistas entre os cerca de 130 presentes na coleção. Este livro retrata os primeiros anos de formação do acervo, quando começamos a afirmar nossa identidade como jovem instituição museológica e nossa vocação para uma contribuição efetiva no cenário cultural brasileiro e internacional, mediante uma aproximação única entre paisagismo e arte contemporânea, natureza e cultura.”

Com este parágrafo Bernardo Paz inicia o prefácio com o qual apresenta ao público Através: Inhotim, livro que eu trouxe como lembrança de visita feita há uma semana ao lugar que me deixou em estado de alumbramento. Nos seus 250 alqueires, Inhotim é considerado o maior museu de artes plásticas a céu aberto do mundo. Pelo fato de as obras estarem distribuídas num jardim tropical exuberante, acredito que seja também o mais belo. Nunca tinha visto algo similar. Senti um baita orgulho por Inhotim ser espaço brasileiro.

Localizado no pequenino município de Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte, Inhotim abrigava inicialmente uma casa de campo que já em 1980 guardava respeitável coleção de arte moderna. O paisagista Burle Marx, amigo de Paz, o visitava para apreciar as obras e nessas ocasiões “ apresentava ao colecionador muitas espécies de plantas, influenciando o projeto de paisagismo em torno da casa”, conta Jochen Volz num dos textos do livro. Foi só dez anos depois, em 1990, que houve mudança de foco da coleção, que já tinha trabalhos de Cildo Meirelles, Miguel Rio Branco, Paul McCarthy e Tunga, que exerceu influência decisiva no que seria um esforço incessante para criar nova instituição.

Então foram chegando obras de Ernesto Neto, Franz Ackermann, Iran do Espírito Santo, Janet Cardiff, Jarbas Lopes, José Damasceno, Marepe, Michel Majerus, Olafur Eiasson, Albert Oehelen, entre outros. Em 2004, a coleção foi apresentada a convidados e imprensa como Centro de Arte Contemporânea Inhotim. Fez história porque, segundo Volz, “pela primeira vez, Paz articulou sua ambição de operar como elemento significativo no contexto da vida cultural do estado de Minas Gerais, do Brasil e além fronteiras. Estava preparado o terreno para a fundação do Instituto Cultural Inhotim. Desde 2006, essa nova pessoa jurídica , administrativa e financeiramente autônoma, sem fins lucrativos e de natureza cultural, funciona sob o nome de Inhotim”.

Vou sair um pouco do livro para responder à pergunta recorrente quando se fala em Inhotim e suas dimensões extraordinárias: como visitá-lo? O visitante pode flanar pelos jardins e vivenciar a seu modo o encontro peculiar entre meio ambiente e arte contemporânea. Pode também se servir dos carrinhos de golfe que a cada 10 minutos passam pelas 37 galerias. São necessários pelo menos dois dias para conhecer o essencial.

Gostaria de registrar minhas impressões sobre Adriana Varejão, Amílcar de Castro, Dan Grahan, Rivane Neuenschander, Doris Salcedo e os outros anteriormente citados. Sendo impossível, por causa do espaço, destaco a obra que mais repercute entre os visitantes. Refiro-me ao Pavilhão Sônico, do artista norte-americano Doug Aitken. Instalado em imensa construção de formato circular, todo fechado com vidro, tem no seu centro uma perfuração de 202 metros, por onde descem cabos de aço em cujas extremidades se encontram microfones de alta sensibilidade. Estes captam os ruídos das entranhas da Terra que são amplificados em caixas instaladas no teto branco. Escutar o som do nosso planeta em tempo real foi para mim experiência de impacto emocional.

Tudo é vasto e profundo em Inhotim. A única coisa pequena é o sufixo im, em nossa língua geralmente marca de diminutivo. Mas até na escolha desta palavra, que lembra os neologismos de Guimarães Rosa, há grandeza : Paz quis preservar a história da comunidade rural que ali viveu mantendo o nome do dono original, um certo Senhor Tim, Inhô Tim, Nhô Tim. Poderia ter optado pelo seu próprio nome, como costuma acontecer em situações semelhantes. Respeitou a origem e pretendeu também fazer homenagem sutil ao autor de Grande Sertão: Veredas. Por isso nos diz o editor Rodrigo Moura em artigo belo e metafórico incluído no livro de que falamos: “Sertão ( em Guimarães Rosa) identifica o norte de Minas, mas também qualquer região afastada dos grandes centros urbanos. O sertão- e uma síntese natureza-cultura- é a origem de Inhotim.”

Então, voltando ao prefácio de Paz, e à sua última frase: “vamos atravessar Inhotim?”


NO NEW YORK TIMES

Bernardo Paz

O empresário Bernardo Paz e o incrível complexo museológico criado por ele em Brumadinho foram destaque nas páginas do New York Times do último sábado. Em outubro de 2009, a revista do jornal também focou o Instituto.

Oriundo da classe média, Bernardo Paz, 62 anos, fez fortuna na área de mineração. Sua saga é longa e complicada de detalhar, mas só para se ter idéia, uma de suas empresas, a Itaminas, foi adquirida em 2010 pelo consórcio chinês ECE por cerca de U$1,2 bilhão. Ele tem outras empresas do tipo.

E de onde vêm os R$240 milhões empregados em Inhotim? Paz responde que da Alemanha, pagamento por jazida que se valorizou da noite para o dia. Para repatriar o dinheiro, ele teria de pagar de novo o Imposto de Renda e perderia na operação U$ 100 milhões. Inconformado, criou a empresa Horizontes Ltda, estabeleceu o centro de arte e o capitalizou com dinheiro alemão, via offshores em paraísos fiscais. Em lugar de gastar o dinheiro na Alemanha, o trouxe de volta ao Brasil e investiu em arte. Como toda pessoa bem sucedida, tem inimigos. E vem deles a informação de que Bernardo Paz nem gosta muito de arte, prefere mesmo é paisagismo. Só teria se aproximado da arte contemporânea por influência de sua oitava ex-mulher, a artista plástica Adriana Varejão, com quem viveu durante 5 anos e teve uma filha, a sexta. A sétima nasceu recentemente.

Fuma três maços de cigarros por dia, faz análise há mais de 20 anos, é simpático e circula por Inhotim se misturando ao público. Às vezes até concede posar para fotos com visitantes.

Servico
Título: Através: Inhotim
Editores: Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura
Páginas: 400
Papel: Couché fosco 150g/m2
Preço: R$120,00
Telefone para encomenda: +55 31 32270001